O lugar onde você vive está moldando seu comportamento (e você nem percebe)
Do celular à disposição dos móveis, escolhas simples podem transformar a forma como vivemos e nos relacionamos

O ambiente físico em que vivemos exerce uma influência profunda sobre nosso bem-estar psicológico, nossa identidade, nossos relacionamentos e nossas memórias. Ao projetar nossos espaços de forma intencional e interagir conscientemente com eles, podemos construir uma vida mais plena.
Leidy Klotz, cientista comportamental e professor de engenharia da Universidade da Virgínia, compartilha cinco ideias centrais de seu novo livro, Em um Bom Lugar: Como os Espaços Onde Vivemos, Trabalhamos e Nos Divertimos Podem Nos Ajudar a Prosperar.
1. Preste atenção ao espaço antes da tela
Com frequência, atravessamos o dia sem realmente perceber o ambiente físico ao nosso redor. Os celulares e outras telas apenas agravam esse distanciamento.
Em vez de lutar contra esse hábito, podemos usá-lo a nosso favor. Sempre que pegar o celular, encare isso como um lembrete. Uma amiga me contou que, depois de ler meu livro, passou a perceber que, ao acordar e imediatamente abrir o e-mail no telefone, faz uma pausa e pensa: "Espere, eu nem observei o espaço em que estou."
Assim, em vez de ser apenas uma distração, a tela pode se tornar um convite para reconectar-se com o ambiente. A partir daí, todos os outros benefícios podem surgir.
2. Procure uma liberdade próxima quando se sentir limitado
Uma das contribuições mais importantes do ambiente ao nosso redor é proporcionar um senso de autonomia — a sensação de que somos capazes de provocar mudanças no mundo.
No meu escritório, por exemplo, há uma janela que antes abria, mas deixou de abrir por causa do sistema de ar-condicionado. Isso é frustrante, especialmente em um agradável dia de primavera, quando gostaria de deixar o ar fresco entrar. Mas situações assim são inevitáveis. Sempre haverá aspectos do ambiente que estão fora do nosso controle.
Nesses momentos, vale buscar o que chamo de "liberdade adjacente": encontrar pequenas oportunidades de escolha dentro das limitações existentes. Talvez eu não possa abrir a janela, mas posso reorganizar a mesa, mudar de ambiente ou dar uma caminhada ao ar livre. Pequenas decisões ajudam a recuperar a sensação de controle.
3. Aprenda a estabelecer limites ocupando seu espaço
Nossa relação com o ambiente também contribui para o desenvolvimento da nossa identidade.
Uma das minhas histórias favoritas do livro envolve minha filha, que havia acabado de começar a pré-escola. Ela aprendeu que, em um lugar cheio, basta dizer "espaço" para que as pessoas lhe deem um pouco mais de distância.
Certo dia, eu atravessava a casa levando roupas para lavar quando ela disse: "Espaço". Não havia ninguém além de nós dois, mas ela insistiu que eu permanecesse fora do círculo imaginário que havia criado. Quando perguntei se poderia passar, ela respondeu que sim, desde que eu não olhasse para ela.
Foi engraçado, mas também revelador. Costumamos pensar em limites como algo relacionado aos outros ou a nós mesmos, mas ali ela estava aprendendo sobre identidade e autonomia por meio do espaço físico.
Esse processo continua ao longo da vida. Uma casa estabelece uma fronteira. O quarto de um adolescente se transforma em um território de independência. Ocupar um espaço é uma das formas pelas quais definimos quem somos.
4. Crie "fogueiras" para estimular conexões
Quando estamos em ambientes neutros e queremos incentivar a interação entre as pessoas, devemos pensar em criar espaços que funcionem como uma fogueira.
Uma empresa organizadora de eventos que entrevistei realizou uma conferência no Superdome, em Nova Orleans. Além da área principal de apresentações, havia um amplo espaço destinado ao networking. Para estimular as conversas, os organizadores instalaram esferas luminosas cercadas por assentos dispostos em círculo. Cada esfera tinha uma cor diferente, indicando tipos distintos de conversa.
Não é preciso chegar a esse nível de elaboração, mas a ideia da fogueira é poderosa. Em torno de uma fogueira, ninguém é dono do espaço. Cada pessoa leva sua própria cadeira. Todos estão em pé de igualdade. Não existe uma cabeceira da mesa, e todos compartilham o mesmo ponto de atenção.
Como introvertido em conferências, por exemplo, muitas vezes acho difícil abordar desconhecidos. Mas sentar-se em uma mesa pequena, com algumas cadeiras vazias e sem espalhar objetos por todos os lados, transmite a mensagem de que outras pessoas são bem-vindas. Um gesto simples pode criar as condições ideais para uma conexão.
5. Cultive a nostalgia nos ambientes que frequenta
Os espaços onde vivemos funcionam como grandes recipientes de memórias. Eles nos ajudam a armazenar e recuperar momentos importantes da vida.
Um exemplo marcante é a casa de férias da minha família, que passou de geração em geração. Meu pai frequentava esse lugar quando era criança e, hoje, leva seus filhos e netos para lá. O espaço reúne camadas de histórias compartilhadas.
Mas isso pode acontecer de maneiras muito mais simples. Marcar a altura de uma criança na parede, por exemplo, já cria uma linha do tempo afetiva. Moro na minha casa há apenas oito anos, mas essas marcas contam uma história. Basta olhar para elas para lembrar exatamente como era a vida em cada uma daquelas fases.
Assim, os espaços se transformam em portais para o passado. E podemos projetá-los de forma intencional para preservar aquilo que realmente importa.
Este artigo foi publicado originalmente na revista digital "Next Big Idea Club" e reproduzido com permissão. Leia o artigo original.