O novo cargo do designer? Engenheiro criativo de IA

Empresas agora procuram designers capazes de criar protótipos funcionais e desenvolver produtos completos com ajuda da IA

designers agora são engenheiros criativos
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Grace Snelling 5 minutos de leitura

Nos últimos meses, quem acompanha sites de empregos pode ter notado algo curioso. Ao lado de cargos tradicionais como “designer”, “engenheiro” e “gerente de produto”, começou a surgir uma nova leva de funções com nomes como “engenheiro designer”, “construtor” ou “design crafter”. Esses títulos refletem um ponto de virada na indústria de design que começa agora a ganhar forma.

Essa mudança aparece na segunda edição anual do relatório "AI in Design", publicado pela gestora Designer Fund e pela empresa de capital de risco Foundation Capital.

O estudo deste ano reuniu respostas de mais de 900 designers em mais de 60 países, incluindo profissionais ligados a empresas como Stripe, Framer, Linear, Notion, Sierra, Shopify e Anthropic.

Segundo Ben Blumenrose, sócio-gerente da Designer Fund, a primeira edição da pesquisa, publicada no ano passado, mostrava designers começando a experimentar ferramentas de inteligência artificial. Apenas um ano depois, a IA se tornou parte central de praticamente todo o fluxo de trabalho desses profissionais e está redefinindo o significado da palavra “designer”.

“Nas últimas duas décadas, a forma como construíamos software era basicamente a mesma”, diz Blumenrose. “Alguém tinha uma ideia do que queria criar, trabalhava com um gerente de produto para estruturar aquilo, chamava um designer para desenvolver o visual e depois passava tudo para um engenheiro construir.”

Agora, a IA está reescrevendo esse processo. “Estamos vendo uma mudança acontecendo. Ela é rápida e bastante profunda”, afirma Blumenrose. Os dados mostram que o conceito de “designer” está ficando mais difuso, mas, ao mesmo tempo, o papel desses profissionais nunca foi tão importante.

NOVO ANO, NOVAS FERRAMENTAS

No último ano, a indústria do design passou por uma mudança radical na forma como vê a utilidade da IA. Se antes as ferramentas eram vistas como assistentes para brainstorming e ideação, hoje elas estão integradas a praticamente todas as etapas do processo criativo.

No relatório de 2025, apenas 54% dos entrevistados afirmavam usar IA mais de uma vez por semana. Em 2026, 91% disseram utilizar essas ferramentas várias vezes por semana ou diariamente.

O avanço da IA também tornou os conjuntos de ferramentas mais complexos. Em 2025, os designers utilizavam em média três ferramentas de IA. Em 2026, esse número mais que dobrou, chegando a sete.

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Após o lançamento do Claude Code pela Anthropic em outubro passado, o Claude ultrapassou o ChatGPT como a ferramenta de IA geral favorita dos designers: 78% dos entrevistados disseram usar Claude, contra 65% para o ChatGPT.

Outras ferramentas populares incluem o Figma, muito usado em tarefas específicas de design; o Cursor, voltado à programação; e aplicativos de anotações com IA, como Otter e Fathom.

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Muitas equipes de design também estão indo além das ferramentas disponíveis no mercado e criando seus próprios sistemas internos de IA. Os dados mostram que 63% dos designers em grandes empresas usam ferramentas desenvolvidas internamente, contra apenas 13% dos profissionais em startups.

Robyn Park, líder de plataforma da Designer Fund, afirma que esses investimentos mais específicos em IA estão levando empresas a criar novos rituais de aprendizado para acompanhar a velocidade das mudanças. Isso inclui reuniões semanais mais frequentes, programas específicos de mentoria e até dias inteiros dedicados à IA.

DESIGNER COM HABILIDADES DE ENGENHARIA

À medida que o uso da IA se expande entre designers, a própria definição da profissão também muda.

Hoje, segundo a pesquisa, muitos profissionais estão usando IA para avançar sobre áreas do desenvolvimento de software que antes eram consideradas exclusivas da engenharia. Metade dos entrevistados afirmou já ter colocado código gerado por IA em produção.

Park explica que profissionais estão usando ferramentas como Figma e Claude Code para criar elementos como gráficos animados, sistemas de back-end e ferramentas internas que acabam integradas às interfaces finais dos produtos.

Após o lançamento do Claude Code, o Claude ultrapassou o ChatGPT como a ferramenta de IA geral favorita dos designers.

Para Blumenrose, isso seria praticamente impensável há apenas dois anos, quando programação e design visual eram vistos como conjuntos de habilidades completamente separados.

“Se você dissesse a alguém de uma empresa de tecnologia, dois anos atrás, que metade dos designers colocaria código em produção, ninguém conseguiria imaginar isso”, afirma. “Antes, apenas os 0,1% ou 0,5% dos designers mais técnicos conseguiam fazer algo assim. Na maior parte do mercado, 99% dos designers nem sequer tinham acesso aos sistemas necessários para isso.”

Steve Vassallo, sócio-geral da Foundation Capital, diz que percebeu uma mudança também nos processos de contratação. As startups apoiadas pela empresa agora procuram designers que já chegam com protótipos funcionais construídos com IA. A expectativa é que esses candidatos consigam implementar soluções rapidamente, e não apenas apresentar mockups.

Park acrescenta que empresas também passaram a valorizar candidatos com projetos paralelos que demonstrem “fluência em IA”, utilizando múltiplas ferramentas ao longo do fluxo de trabalho e frequentemente colocando código em produção.

POR QUE OS DESIGNERS SÃO MAIS IMPORTANTES DO QUE NUNCA

Em um momento no qual a definição de “designer” se torna mais ampla e menos rígida, alguns passaram a argumentar que a profissão pode se tornar obsoleta. Mas Blumenrose acredita que os dados do relatório apontam exatamente o contrário.

À medida que a IA facilita a transformação de ideias em produtos reais, o papel do designer se torna ainda mais central.

“Os designers começaram a se perguntar: ‘qual é o meu lugar nesse processo?’”, diz Blumenrose. “O que percebemos é que o designer se torna ainda mais importante nesse novo mundo, porque haverá mais software.”

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Mais software significa maior necessidade de pensamento sistêmico, empatia e senso estético – em outras palavras, mais filtros para garantir que os produtos realmente sejam úteis para os usuários finais.

“O que muda é a responsabilidade do designer”, afirma. “Mas isso não significa que precisaremos de menos designers. Precisaremos de mais, só que trabalhando de forma diferente. Se conseguirmos evoluir, teremos um papel central na construção dos softwares dos próximos 10 ou 15 anos.”


SOBRE A AUTORA

Grace Snelling é colaboradora da Fast Company e escreve sobre design de produto, branding, publicidade e temas relacionados à geração Z. saiba mais