O que a IA está mudando no papel dos designers?
Novos dados sobre o mercado de trabalho esquentam o debate sobre o futuro da profissão em tempos de inteligência artificial

Uma newsletter sobre o mercado de trabalho em produtos recentemente viralizou no nicho de design e escancarou um debate crescente: o papel do designer está encolhendo na era da inteligência artificial?
Ex-profissional de produto do Airbnb e autor da Lenny’s Newsletter, Lenny Rachitsky publicou um artigo com dados exclusivos sobre contratações no setor de tecnologia no início de 2026.
As informações foram coletadas pela TrueUp, plataforma que monitora vagas em empresas de tecnologia. No geral, o cenário é positivo para o mercado tech mas, para designers, o momento é de incerteza.
Segundo a TrueUp, as vagas em design entraram em um platô desde o início de 2023. Já a demanda por gerentes de produto – profissionais responsáveis por conduzir um produto da concepção à entrega – vem crescendo de forma consistente.
Os dados acenderam um debate online: a IA está mudando a estrutura das empresas de tecnologia? E, mais provocativo ainda, estaria tornando designers obsoletos? De CEOs a profissionais de IA e investidores como Marc Andreessen, muita gente entrou na discussão. Eis o que você precisa saber.
NÍVEL DE EMPREGO EM DESIGN SE MANTÉM ESTÁVEL
Os dados da TrueUp acompanham vagas abertas na “maioria das empresas de tecnologia e principais startups”, cobrindo mais de nove mil companhias (excluindo consultorias e empresas fora do setor de tecnologia).
As vagas abertas para gerentes de produto estão no nível mais alto desde 2022: cerca de 7,3 mil em nível global. As oportunidades para engenheiros de software também voltaram a crescer após a queda de 2023: são 67 mil vagas globalmente, sendo 26 mil apenas nos Estados Unidos.
“Não sabemos se haveria mais vagas abertas sem a IA ou se a IA está, de fato, criando mais vagas. Mas, desde o início do ano, o crescimento nas posições de engenharia está acelerando ainda mais”, diz a newsletter de Rachitsky.
Enquanto isso, os chamados “empregos em IA” – que incluem tanto vagas em empresas focadas em inteligência artificial quanto funções relacionadas à IA em empresas tradicionais – estão disparando. Hoje, são 36.686 posições abertas, contra menos de 10 mil no início de 2023.
Nesse cenário geral de alta, o design segue na contramão. Diferentemente de produto e engenharia, as vagas para designers permanecem praticamente estáveis desde 2023. No momento da publicação, havia apenas 5,7mil vagas abertas globalmente.

Em termos macro, a relação entre demanda por gerentes de produto e designers se inverteu: desde meados de 2023, há mais vagas para os primeiros do que para os segundos, e a diferença só cresce.
“Enquanto produto e engenharia começaram a crescer em 2024 (dois anos após o ChatGPT), o design não acompanhou. Minha hipótese é que, como a IA permite que engenheiros avancem muito mais rápido, há menos espaço e menos interesse em envolver o processo tradicional de design”, escreve Rachitsky.
A REAÇÃO DA COMUNIDADE DE DESIGN
Na semana seguinte à publicação no X, a análise foi compartilhada centenas de vezes e gerou uma avalanche de comentários entre designers, gerentes de produto e engenheiros.
Parte da comunidade vê os dados como um sinal claro de que a IA está transformando profundamente o fluxo de trabalho e que quem não se adaptar ficará para trás.
“Os designers se tiraram da equação por causa dos design systems”, comentou Roger Wong, head de design da BuildOps. “Mas, na minha opinião, o diferencial nunca foi a interface, e sim os fluxos e a visão holística da experiência.”
“Não sabemos se haveria mais vagas abertas sem a IA ou se a IA está, de fato, criando mais vagas."
Outros defendem o oposto: no longo prazo, a dependência crescente de ferramentas de IA deve tornar os designers humanos ainda mais relevantes como curadores.
“O design parece dispensável neste momento”, escreveu Jordan Singer, CEO da Mainframe. “Mas a realidade, como a história mostra, é que o design é o que faz você se destacar.”
Em 30 de março, Rachitsky voltou ao tema em uma entrevista com Andreessen, cofundador da Andreessen Horowitz. Ele comparou o momento atual a um impasse triplo entre engenheiros de produto, designers e programadores: cada grupo acredita que a IA já oferece ferramentas suficientes para absorver as funções dos outros dois.
“O mais interessante desse impasse é que todos estão, de certa forma, certos”, disse Andreessen. “A IA já é um programador muito bom, um designer muito bom e um gerente de produto muito bom.”
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Embora o desfecho desse “empate técnico” ainda seja incerto, uma coisa parece clara: o setor está passando por uma reorganização profunda. Novas ferramentas de IA estão tornando mais tênues as fronteiras entre design, engenharia e produto, além de criar funções híbridas que combinam elementos das três áreas.
No futuro, habilidades humanas de programação, design e gestão de produto devem continuar sendo essenciais, mas talvez não da forma como conhecemos hoje.