O verdadeiro feat de “Equilibrivm II”

O novo projeto audiovisual de Anitta reacende um debate essencial para o branding contemporâneo: a diferença entre construir estética e construir sentido

O verdadeiro feat de Equilibrivm II
Crédito: EQUILIBRIVM II via Youtube

Taise Kodama 3 minutos de leitura
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Confesso.

Depois de assistir ao filme de "Equilibrivm II" e ouvir o álbum inteiro, saí seguindo umas mil pessoas no Instagram (mais ainda do que já costumo fazer).

Tá... mil talvez seja exagero.

Mas fotógrafos, stylists, figurinistas, artistas, designers, diretores, músicos, artesãos… Fui atrás de um monte de pessoas que eu provavelmente nunca teria conhecido se não fosse por esse projeto.

E isso ficou ecoando na minha cabeça. O maior efeito de uma obra é aquilo que ela desperta depois que te encontra. Enquanto muita gente discutia as músicas, as cenas, eu estava mergulhada nos créditos.

Queria saber quem pensou aquilo.

Quem desenhou aquele figurino.

Quem dirigiu aquela cena.

Quem escolheu aquele colar.

Quem criou aquela imagem.

Quem decidiu que aquelas pessoas precisavam estar ali.

É curioso porque a conversa costuma girar em torno da Anitta. Mas, dessa vez, meu olhar foi para a arquitetura invisível do projeto. Para a escolha das pessoas.

Para a inteligência de reunir nomes como Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart'nália, MC Tha, Katú Mirim, Brô MC's, Letícia Fialho e tantos outros artistas que representam diferentes gerações, territórios e narrativas do Brasil. Não como participações especiais, mas como parte da própria construção simbólica da obra.

Meu olhar foi também para quem normalmente aparece só depois que o espetáculo acaba. Para Nídia Aranha, que acompanha Anitta há anos e hoje assina a direção criativa dessa fase.

E isso me chamou atenção porque não é a primeira vez que ela entende a direção criativa como parte da construção da própria identidade.

Anitta observa equipamentos de filmagem com dois integrantes da equipe em uma locação rochosa. Foto de Patrick Marinho
Making of de "Equilibrivm II" (Crédito: Patrick Marinho)

Lembrei imediatamente da fase em que Giovanni Bianco ajudou a consolidar a estética que projetou Anitta para um imaginário pop global. Na época, não eram apenas capas, figurinos ou videoclipes. Existia uma visão sendo construída.

Agora a linguagem muda, o repertório muda, as referências mudam. Mas a lógica continua evoluindo sob a mesma direção: a visão de Anita.

Não parece uma artista apenas surfando uma onda comercial atrativa. Parece uma artista escolhendo, mais uma vez, quem são as pessoas capazes de materializar a próxima versão da sua própria identidade que estamos, ao vivo, testemunhando seu crescimento e expansão.

Depois fui parar na Ginga Pictures, de Felipe Britto, transformando o álbum em uma experiência audiovisual contínua.

No styling de Daniel Ueda, conectando roupas, acessórios e marcas brasileiras a uma narrativa em que cada detalhe parece carregar significado.

Integrante do elenco e profissional da equipe conferem uma câmera em cenário com morangos gigantes.
Making of de "Equilibrivm II" (Crédito: Patrick Marinho)

Em artesãos, designers, artistas visuais, criadores independentes e profissionais que dificilmente ocupam o centro da conversa, mas sem os quais essa história simplesmente não existiria da mesma forma.

Nada parece escolhido apenas porque está em alta apenas. Tudo parece responder à mesma pergunta: que história preciso contar?

É aqui que, para mim, mora a diferença entre estética e significado.

A transformação não acontece quando mudamos a aparência. Está muito mais ligada à lógica das escolhas.

Sempre digo que a transformação nasce da construção através da arquitetura de significados. Ela nasce quando pessoas, referências, símbolos, estética, linguagem e cultura começam a apontar para a mesma direção.

capa do álbum "Equilibrivm II", de  Anitta

A grande ideia importa. Mas ela nunca caminha sozinha.

Talvez seja isso que mais admirei em "Equilibrivm II". Não apenas a capacidade de reunir tantos talentos, mas a generosidade de colocar muitos deles em evidência.

Porque existe um gesto muito bonito quando alguém usa a própria visibilidade para ampliar a visibilidade de outras pessoas.

No fim, acho que esse é o verdadeiro feat do projeto. Não está apenas nas músicas. Está na curadoria. Na intenção. Na coragem de dividir o palco.

Pensa comigo: quando uma obra faz a gente sair procurando quem a tornou possível, ela deixa de ser apenas entretenimento. É algo ainda mais grandioso e significativo.

Ela amplia repertório além da obra. Produz cultura. Produz descoberta. Constrói transformação colocando no palco as entranhas do processo.

Produz significado.


SOBRE A AUTORA

Taise Kodama é sócia e head de design & digital da consultoria de marca e experiência Gad. saiba mais