Os 3 mil CDs de um colecionador anônimo
Uma das grandes contradições da indústria fonográfica é que quem cria a paixão pela música não conhece profundamente as pessoas apaixonadas

No início dos anos 2000, quando eu era executivo do iG e da Brasil Telecom, participei de uma reunião em um gravadora de dimensões universais para discutir a criação de uma loja de MP3.
Era o início da revolução da música digital. A Apple, com sua iTunes Store, começava a ganhar força, ainda com pouca presença de artistas brasileiros. Enquanto isso, a indústria fonográfica tentava entender como combater e sobreviver à pirataria.
Napster, Torrents e outras formas de compartilhamento de arquivos haviam desmontado, em pouco tempo, um modelo de negócios que havia sido construído durante décadas.
A reunião contou com boa parte da liderança da gravadora. Falamos sobre a possível loja, modelos de negócio e, inevitavelmente, sobre a crise que a indústria atravessava.
Mas uma coisa me chamou a atenção.
Em meio àquele cenário preocupante, havia uma enorme comemoração em torno das vendas do DVD mais recente de Ivete Sangalo. Era, de fato, um sucesso. Ainda assim, alguma coisa naquela celebração me parecia estranha.
Talvez porque, enquanto discutíamos uma transformação estrutural na maneira como a música seria distribuída e consumida, a indústria ainda comemorava o enorme sucesso de um produto físico. Parecia um cobertor curto.
A reunião terminou e fiquei conversando com um dos vice-presidentes da gravadora. Disse a ele que havia algo naquela indústria que eu simplesmente não conseguia entender: como era possível produzir algo tão desejado por milhões de pessoas e saber tão pouco sobre quem comprava?
Nunca houve tantos dados disponíveis sobre o comportamento dos fãs e eles nunca foram tão ativos.
Dei meu próprio exemplo: eu tinha cerca de três mil CDs em casa. Provavelmente metade deles havia sido produzida pela companhia que ele liderava. Deveria ser um cliente excepcionalmente valioso para eles, mas ninguém ali fazia ideia de quem eu era.
Eles não sabiam meu nome, não tinham o meu CPF. Não sabiam quais artistas eu acompanhava, quantos shows frequentava, quais discos comprava e nem quanto dinheiro gastava todos os anos com música – e quem me conhece sabe: sempre gastei muito dinheiro com música.
Para aquela gravadora, eu simplesmente não existia. Um Zé Ninguém.
A loja de MP3 acabou não saindo e nunca mais encontrei aquele executivo. Mas aquela conversa ficou comigo e, mais de duas décadas depois, continuo fazendo a mesma pergunta: como uma indústria que vive da paixão das pessoas pode conhecer tão pouco sobre elas?

Historicamente, a indústria fonográfica construiu sua estrutura em torno dos artistas: encontrar talentos, desenvolvê-los, produzir músicas, promover singles e transformar tudo isso em receita. Isso segue fazendo todo sentido, é claro.
Só que é muito estranho enxergar um lapso tão fundamental por parte de uma indústria inteira. Era só olhar para o lado: bancos, cartões de crédito, companhias aéreas, varejistas e empresas de serviços foram construídos ao redor de sistemas sofisticados de CRM (Customer Relationship Management, ou gestão do relacionamento com o consumidor). Isso é básico.
Mais de duas décadas depois, essa história ainda me persegue.
Nunca houve tantos dados disponíveis sobre o comportamento dos fãs e eles nunca foram tão ativos: produzem conteúdo, organizam comunidades, defendem artistas, criam tendências e funcionam, eles próprios, como canais de distribuição.
Leia mais: O futuro da indústria da música está no seu passado: videoclipes
Um artista hoje sabe quantos seguidores possui, quantos ouvintes mensais alcança, quais músicas performam melhor, em quais cidades é mais ouvido e quais conteúdos geram maior engajamento. Isso ainda é pouco demais.
As informações existem, fragmentadas pelas redes sociais, plataformas de streaming, nas empresas de venda de ingressos, no e-commerce, nos eventos, fã-clubes e em uma infinidade de outras interações. Mas são bases de dados de terceiros e as gravadoras se tornam reféns dessa condição.
Essa é uma das grandes contradições dessa indústria e também a raiz da minha indignação histórica: quem cria a paixão não conhece profundamente as pessoas apaixonadas.
como uma indústria que vive da paixão das pessoas pode conhecer tão pouco sobre elas?
Nos últimos meses, tenho conversado com pessoas que estão investindo justamente nesse território, seja por meio de consultorias especializadas ou pelo desenvolvimento de novas plataformas.
A inteligência artificial está reduzindo drasticamente a complexidade para organizar, interpretar e ativar grandes volumes de informação. Começa a ser possível conectar esses dados e construir uma visão muito mais sofisticada e valiosa.
Quem vai construir a infraestrutura e a dinâmica dessa relação entre fãs e artistas? As plataformas? Novas empresas de tecnologia? Os próprios artistas…ou finalmente as gravadoras?