Playground modular leva esperança a campos de refugiados
Playrise cria estruturas de lazer para que crianças que vivem em locais atingidos por desastres tenham onde brincar

No campo de refugiados de Aysaita, na região de Afar, no nordeste da Etiópia, cerca de 40 mil eritreus lutam para atender às necessidades básicas do dia a dia. Para as 10 mil crianças com menos de 10 anos que vivem ali, isso inclui um recurso frequentemente negligenciado: brincar.
Em muitos campos de refugiados pelo mundo, o brincar acaba ficando em segundo plano (compreensivelmente) enquanto organizações humanitárias priorizam itens essenciais como abrigo e alimentação.
Mas estudos mostram que o brincar é fundamental para o desenvolvimento de funções executivas, habilidades motoras e competências sociais. Também é uma ferramenta terapêutica essencial para crianças que vivenciaram traumas.
Esses insights inspiraram a Playrise, uma organização britânica que projeta estruturas de lazer para crianças que vivem em áreas afetadas por desastres.
Alexander Meininger, fundador e diretor da Playrise, conta que a ideia da ONG surgiu no início de 2024. Enquanto observava seus dois filhos pequenos aprenderem por meio da brincadeira, ele acompanhava um fluxo constante de notícias sobre conflitos e guerras em diferentes partes do mundo, como Ucrânia, Gaza, Sudão e Eritreia.
Nesse período, passou a se preocupar cada vez mais com o impacto da falta de acesso a espaços de brincar para crianças deslocadas pela violência.
“Brincar é importante para qualquer criança se desenvolver, mas especialmente para aquelas em situações extremas. Ajuda a recuperar um senso de normalidade, superar traumas e escapar, ainda que por um momento, dos horrores que viveram”, diz Meininger.
Em parceria com o escritório de arquitetura londrino OMMX, especializado no que chama de “arquitetura socialmente responsável”, Meininger passou os últimos dois anos desenvolvendo um protótipo de estrutura modular que pode ser transportada desmontada e montada facilmente no local.
A primeira estrutura da Playrise – com envio previsto para o campo de Aysaita no fim de abril – é altamente reconfigurável, segura para escalar e adaptável a diferentes ambientes. O objetivo é tornar o brincar acessível para quase 50 milhões de crianças deslocadas de suas casas por conflitos e violência.
BRINCAR COMO ESTRATÉGIA DE CURA
Antes de iniciar o processo de design, a equipe da Playrise consultou diversas comunidades de refugiados para entender seus desafios específicos, o ambiente natural e, principalmente, como as próprias crianças queriam brincar.
Para isso, a cofundadora da OMMX, Hikaru Nissanke, Meininger e outros membros do projeto viajaram para o Cairo (onde muitas crianças palestinas buscaram refúgio após a guerra entre Israel e Hamas), além do sul do Egito e do campo de Aysaita.
Em todos os locais, ficou claro que as crianças não queriam apenas uma estrutura fixa. Queriam escalar, construir fortalezas, criar palcos e inventar brincadeiras a partir da própria imaginação.
A solução precisava ser produzida em escala, transportável em formato compacto, montável no local e constantemente adaptável, tanto às ideias das crianças quanto às limitações do terreno.
A melhor resposta, segundo Nissanke, foi criar “um kit de ferramentas para que elas mesmas construam suas próprias formas de brincar, de acordo com o que precisam naquele momento”.
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A flexibilidade também tornou o projeto mais sensível às diferenças culturais, um aprendizado vindo das oficinas realizadas na Etiópia.
“Os pais disseram que veriam benefícios diretos no fato de as crianças construírem e manterem as estruturas, porque isso se traduz em habilidades úteis para cuidar de suas próprias casas, que são extremamente frágeis”, afirma.
UM PLAYGROUND INSPIRADO EM LEGO
Nas fases iniciais do projeto, Meininger e Nissanke imaginaram o sistema modular da Playrise como uma versão gigante de peças de Lego: cada componente precisava ser flexível o suficiente para múltiplos usos, mas resistente para suportar anos de brincadeira.
O primeiro passo foi escolher a madeira como material principal, por ser durável e capaz de permanecer relativamente fria sob o sol intenso. Em seguida, veio o desafio de criar conexões seguras entre as peças.
Com apoio da Play Inspector, especializada em segurança de playgrounds, a equipe descobriu que pequenos orifícios podem prender os dedos das crianças.

A solução foi fazer uma série de pequenos furos ao longo das vigas e desenvolver um sistema de encaixe com tubos, parafusos e arruelas, permitindo que as peças sejam conectadas em praticamente qualquer configuração.
Com a estrutura básica pronta, o time passou a desenvolver componentes adicionais – os “acessórios” do sistema. Para proteger do sol intenso, Nissanke criou “velas” de tecido colorido que podem ser presas entre as vigas, formando áreas de sombra.
Esses tecidos também funcionam como telas para pintura. O kit inclui ainda apoios para escalada, balanços e redes de corda.

“Trabalhei nisso o ano inteiro, vi centenas de imagens e desenhos, mas quando você vê ao vivo, parece um brinquedo gigante”, diz Meininger. “É como olhar para um Lego e pensar: isso é pura alegria.”
A Playrise se prepara para enviar seu primeiro playground modular para Aysaita até o fim de abril. Estruturas em no Cairo e no sul do Egito devem vir na sequência.

Meininger e Nissanke pretendem usar os aprendizados dessas implementações para aprimorar o design. A equipe já trabalha na ampliação dos acessórios, incluindo opções mais acessíveis para crianças que não podem escalar, como tambores e brinquedos sensoriais.
“Tudo o que as crianças fazem é brincar”, diz Meininger. “É assim que elas vivenciam o mundo, aprendem, crescem e se desenvolvem.”
Ele cita ainda a psicóloga infantil Sophia Apdi, que participou de uma mesa-redonda com a equipe: “Ela resumiu perfeitamente: ‘Brincar é a linguagem das crianças.’”


