Por que designers são melhores empreendedores do que pensam

O conjunto de habilidades de UX, quando bem compreendido, é praticamente uma base perfeita para empreender

designers dão bons empreendedores
Créditos: Hirzul Maulana/ Unsplash/ Peshkova/ Getty Images

Vivianne Castillo 5 minutos de leitura

Se você já passou algum tempo relevante em um cargo de design dentro de uma empresa, provavelmente recebeu alguma versão desse feedback ao menos uma vez: você é difícil. Opinativo demais. Não é bom trabalhando em equipe. Questiona demais. Se importa demais com coisas que não são da sua alçada.

Eu ouvi esse tipo de avaliação, quase palavra por palavra, de centenas de designers, em diferentes setores e estágios de carreira. O que sempre chama atenção é como essa descrição, na prática, não aponta para uma fraqueza, mas para um conjunto de instintos empreendedores que as organizações simplesmente não sabem como acomodar.

Os traços apontados como problemáticos no ambiente corporativo – a tendência de questionar premissas, de desafiar briefings antes de executá-los, de se preocupar com implicações sistêmicas quando a liderança quer apenas resultados táticos – são exatamente os mesmos que permitem a empreendedores construir coisas que realmente importam.

A indústria de design passou anos enquadrando esses comportamentos como um problema de gestão. Mas isso não é um problema de gestão. É um problema de encaixe.

PARADOXO INVISÍVEL

O design, como disciplina, nunca foi pensado para ser puramente executório. E os designers que questionam decisões não estão sendo difíceis, e sim fazendo exatamente aquilo para o qual foram treinados: lidar com a complexidade total de um problema, considerar o impacto humano de uma solução proposta e defender abordagens que sirvam às pessoas, e não apenas às métricas.

Assim, quando organizações premiam conformidade em vez de excelência técnica, os designers que não se submetem acabam rotulados como problema.

empreendedores da geração Z usam mais ferramentas de inteligência artificial
Créditos: NeoLeo/ Olena Koliesnik/ iStock

Só que existe um paradoxo: as mesmas qualidades apontadas como preocupações em avaliações de desempenho são frequentemente listadas como desejáveis nas descrições de vagas.

Pensamento sistêmico, se sentir confortável na ambiguidade, ter opinião forte e capacidade de desafiar premissas – é assim que as empresas dizem querer que designers pensem… Até que eles realmente pensem dessa forma em uma direção não autorizada.

Leia mais: 10 dicas para pequenos empreendedores fazerem bonito nas redes sociais

O resultado é uma geração de profissionais condicionada a enxergar seus próprios instintos como falhas. A defesa de ideias vira “conflito”, o rigor vira “perfeccionismo” e os valores viram “falta de pragmatismo”.

Muitos passam anos se adaptando silenciosamente a ambientes que, aos poucos, os reduzem a máquinas de execução. E carregam esse condicionamento até quando finalmente decidem sair.

OS "DIFÍCEIS" SÃO OS QUE FAZEM

Os designers que eu vi fazerem a transição mais bem-sucedida do mundo corporativo para o empreendedorismo quase sempre são aqueles rotulados como difíceis. Não porque ser difícil seja, por si só, uma virtude — mas porque a mesma postura que os tornava difíceis de gerenciar os torna altamente capazes de construir algo próprio.

O conjunto de habilidades de UX (experiência do usuário), quando bem compreendido, é praticamente uma base perfeita para empreender.

A capacidade de pesquisa se traduz diretamente em entender mercados, clientes e necessidades não atendidas. A habilidade de sintetizar informações ambíguas em estruturas claras é essencial nas fases iniciais de um negócio, quando quase nada está definido.

Prototipagem e iteração – duas das competências mais fundamentais de UX – são exatamente o modo como negócios sustentáveis são construídos: não com a execução perfeita de um único plano, mas com aprendizado contínuo a partir de tentativas imperfeitas.

Leia mais: 5 livros escritos por mulheres empreendedoras

A capacidade de adotar a perspectiva do usuário – de projetar com empatia, e não com suposições – forma um tipo diferente de empreendedor. Alguém que constrói com seus clientes, não apenas para eles. Que faz perguntas melhores antes de buscar respostas. Que entende que a qualidade da experiência determina a qualidade da relação.

Os valores que tornavam o ambiente corporativo insustentável – o compromisso com trabalhos que realmente ajudam pessoas, a recusa em comprometer qualidade, a insistência de que decisões de design têm consequências humanas reais – deixam de ser fonte de atrito e passam a ser a base de um negócio próprio.

O QUE É PRECISO APRENDER

Nada disso significa romantizar o empreendedorismo ou sugerir que essa transição seja simples. Construir um negócio próprio exige uma tolerância à incerteza que o ambiente corporativo passa anos ensinando a evitar.

Exige desenvolver competências que o treinamento em UX não cobre: educação financeira, aquisição de clientes, estruturação de negócio e um tipo específico de resiliência psicológica, aquele que vem de não ter chão garantido.

Mas designers que entendem o que realmente compõe seu repertório e que aprendem a enxergar seus instintos como ativos, e não como problemas, entram nesse cenário muito mais preparados do que imaginam.

as mesmas qualidades vistas como preocupações em avaliações de desempenho são listadas como desejáveis nas descrições de vagas.

A comunidade de design tem o hábito de avaliar seus profissionais a partir dos padrões das instituições que os empregam, o que cria uma definição estreita do que é ser “bom”.

Designers são considerados excelentes quando executam com eficiência, navegam a política interna com habilidade e defendem ideias dentro de limites aceitáveis. E são considerados difíceis quando vão além disso.

Uma análise mais honesta reconheceria que os designers rotulados como difíceis são, muitas vezes, os que mantiveram maior integridade sobre o propósito do trabalho. Aqueles que não abriram mão completamente de sua autonomia para a organização e que continuam projetando em função de seres humanos, e não de sistemas.

Se você já ouviu que é um funcionário difícil de gerenciar, vale perguntar: quem se beneficia dessa narrativa? E, depois, o que você poderia construir se parasse de tentar se encaixar em um molde menor.

Para muitos designers, a resposta é algo que a estrutura corporativa nunca conseguiu enxergar… Porque estava ocupada demais tentando conter você.


SOBRE A AUTORA

Vivianne Castillo é fundadora da consultoria Choose Courage Inc. saiba mais