“Querido Pai” transforma fotografia em diálogo 

Na série “Querido Pai”, Danilo Zocatelli Cesco usa maquiagem, memória e os cenários de sua infância para reconstruir a relação com o pai

Créditos: Danilo Zocatelli

Isabella Lura 14 minutos de leitura
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Às vezes, aproximar-se dos pais não significa encontrar as palavras certas para explicar quem somos. Pode significar encontrar uma maneira de mostrar a eles o mundo a partir dos nossos próprios olhos.

Para Danilo Zocatelli Cesco, essa aproximação aconteceu diante de uma câmera, com maquiagem, uma peruca e o pai como personagem de seu universo artístico.

É dessa experiência que nasce “Querido Pai”, série fotográfica criada durante o mestrado de Cesco no Royal College of Art, em Londres. No projeto, o fotógrafo coloca o próprio pai em drag para revisitar a relação entre os dois e investigar temas como masculinidade, identidade queer, memória e pertencimento.

O resultado reúne referências que parecem opostas: a masculinidade do homem do campo e a experiência queer de Cesco. Em uma das fotografias, o pai aparece sobre um trator, com o rosto pintado e uma grande peruca. Em outra, ocupa a igreja que ainda faz parte da história dos dois.

As imagens questionam como um homem pode ocupar esses espaços e rompem com a ideia de que a arte drag precisa representar uma transformação completa de identidade.

O encontro acontece sem que um precise se tornar igual ao outro. O pai continua sendo o homem do campo que Cesco conheceu na infância. O fotógrafo também não abandona a identidade construída longe de casa. A aproximação surge quando os dois aceitam entrar, ainda que por alguns momentos, no universo um do outro.

“É um projeto sobre amor, sobre aceitação, sobre conversa, sobre escuta. É um projeto sobre relacionamento”, resume Cesco.

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Pai de Danilo Zocatelli aparece maquiado e de peruca sobre um trator, segurando um longo tecido vermelho.
Na série “Querido Pai”, Danilo Zocatelli Cesco fotografa o próprio pai em drag nos espaços rurais de sua infância. Crédito: Danilo Zocatelli Cesco/ Série “Querido Pai”

O NASCIMENTO DE UMA IDEIA

Antes de fotografar o pai, Cesco precisou encontrar na fotografia uma forma de olhar para si mesmo.

Formado em gastronomia no Brasil, ele se mudou para a Inglaterra há 15 anos para trabalhar como chef. A fotografia entrou em sua vida quase por acaso, quando um amigo mostrou a uma professora de uma universidade em Londres algumas imagens que Cesco havia feito com o celular.

O encontro terminou com um convite para estudar fotografia. Ele levou dois anos para aceitar.

Durante o bacharelado, Cesco passou a desenvolver trabalhos com comunidades queer. Ao mesmo tempo, trabalhava como chef em uma prisão feminina e masculina em Londres, onde ensinava os detentos a cozinhar. Também desenvolveu um projeto fotográfico a partir dessa experiência.

O trabalho chamou a atenção dos professores, que enxergaram naquela pesquisa um caminho possível para o mestrado. Eles o incentivaram a se candidatar ao Royal College of Art, onde “Querido Pai” nasceu como projeto de pesquisa.

A origem da série, porém, estava em uma inquietação que ia além da fotografia.

Morando na Inglaterra, Cesco percebeu que passava cada vez mais tempo olhando para o que estava ao seu redor e se afastando do lugar de onde havia vindo. Começou a refletir sobre sua relação com o Brasil, com o Paraná e com o sítio onde seus pais vivem.

“Eu tinha essa vontade de começar a olhar de volta para o Brasil, de entender também o Brasil”, conta.

Esse retorno significava olhar para a própria família. Do lado paterno, Cesco cresceu em uma família italiana de nove irmãos, marcada por dialetos, tradições e rituais.

Entre as palavras que permaneceram em sua memória estava “golo”, usada de maneira pejorativa para se referir a homens gays. Ao revisitar essas lembranças, o fotógrafo percebeu que havia se afastado daqueles rituais pela distância geográfica e também porque não conseguia se reconhecer naquele espaço.

A partir daí, passou a pensar na fotografia como uma espécie de espelho. O projeto não seria uma tentativa de transformar o pai para que ele coubesse no universo do filho. Seria uma forma de criar uma imagem capaz de mostrar ao pai quem o filho havia se tornado.

O PAI COMO HERÓI

Entre as fotografias da série, uma das mais importantes para o artista é a imagem do pai sobre um trator, no ambiente rural em que cresceu, segurando uma bandeira.

A fotografia reúne elementos profundamente ligados às memórias de Cesco: a terra, o trator — primeiro veículo que aprendeu a dirigir —, o céu brasileiro e o pai em uma posição que ele nunca havia imaginado vê-lo ocupar.

A imagem também dialoga com “Priscilla, a Rainha do Deserto”, referência da cultura queer utilizada pelo fotógrafo para pensar a representação do pai. A intenção não era simplesmente reproduzir a estética do filme, mas entender o que aquela imagem representava e como poderia ser transformada a partir de sua própria história.

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O pai aparece elevado sobre o trator, quase como em um pedestal. Para o fotógrafo, essa posição ajuda a construir uma imagem de herói.

“Eu acho que é muito sobre isso: poder desconstruir e construir a imagem de alguém com as suas próprias perspectivas e as suas próprias formas de olhar o mundo”, explica Cesco.

No conjunto, a série coloca lado a lado o homem das memórias de infância e a figura criada diante da câmera. O pai continua ligado à terra, ao trator, à igreja, ao futebol e aos rituais familiares. Ao mesmo tempo, passa a ocupar um espaço que antes parecia pertencer apenas ao universo do filho.

“A única intervenção que eu faço é no rosto. Ele não está usando drag. Não é sobre transformar ele. Eu ainda consigo ver meu pai. A roupa que ele está usando foi ele que escolheu. Eu não tive nada para falar. Então, ele ainda tem esse poder sobre ele”, explica Cesco.

UM CONVITE AO MUNDO DO FILHO

Para que o projeto existisse, havia uma condição: o pai precisaria aceitar participar.

Cesco ligou para ele e contou sobre sua trajetória, o mestrado e a importância que aquele trabalho poderia ter para sua carreira. Depois, veio o pedido: o pai precisaria ser fotografado em drag.

Após alguns segundos tentando entender a proposta, ele aceitou, mas fez uma exigência: queria uma “peruca bonita” e outra para a mãe de Cesco.

O pai foi fotografado seis vezes durante as duas semanas em que o filho esteve no Brasil, em novembro de 2023. O processo acabou produzindo algo que ultrapassava a pesquisa acadêmica.

Ao maquiar o pai e vê-lo usando uma grande peruca, Cesco começou a reconhecer nele gestos que também faziam parte de sua própria maneira de se expressar.

Um deles era o jeito de jogar o cabelo. Em outros momentos, o pai precisava afastar a peruca do rosto por causa do calor. Ações que poderiam parecer banais passaram a funcionar como uma linguagem compartilhada entre os dois.

Pai de Danilo Zocatelli usa maquiagem e peruca enquanto rega uma árvore no quintal.
Cesco manteve o pai em suas roupas e atividades cotidianas; a intervenção foi concentrada no rosto e na peruca. Crédito: Danilo Zocatelli Cesco/ Série “Querido Pai”

O projeto também fez o fotógrafo perceber o quanto ainda se policiava quando voltava ao Brasil.

Mesmo depois de anos vivendo sua sexualidade abertamente e de seu pai conhecer seu namorado, Cesco conta que ainda controlava seus gestos e comportamentos para não parecer “feminino” diante da família.

Ao colocar a maquiagem no rosto do pai e performar diante dele da maneira como desejava, o fotógrafo percebeu que também estava criando para si um espaço de liberdade.

UMA HISTÓRIA QUE ACONTECE NO BRASIL

A experiência de Cesco também precisa ser entendida dentro do contexto em que sua história foi construída.

Em 2025, o Brasil registrou 257 mortes violentas de pessoas LGBTQIA+, sendo 237 homicídios e 20 suicídios, segundo o levantamento anual do Grupo Gay da Bahia. O número representa uma morte a cada 34 horas.

Homens gays foram a maioria das vítimas, representando 60,7% dos casos. Mulheres trans e travestis aparecem em seguida, com 24,6%.

O percentual precisa ser lido considerando o tamanho de cada grupo. De acordo com a organização, embora sejam numericamente uma parcela menor da população LGBTQIA+, mulheres trans e travestis enfrentam um risco proporcional de assassinato 19 vezes maior que os demais integrantes da comunidade.

O levantamento também evidencia a dificuldade de dimensionar esse cenário. O GGB reúne informações encontradas na imprensa, em pesquisas na internet e em correspondências enviadas à organização, pois não existe um sistema público que registre de forma sistemática os crimes motivados por LGBTfobia.

Os números representam os casos identificados pela entidade e não necessariamente a totalidade das mortes.

É nesse contexto que “Querido Pai” deixa de ser apenas uma história sobre a relação entre duas pessoas.

A série parte de uma experiência íntima — a de um filho que aprendeu a se policiar para não parecer “feminino” diante da família —, mas alcança uma questão mais ampla: o que acontece quando alguém que passou parte da vida tentando se adequar encontra espaço para existir de outra maneira?

As fotografias não oferecem uma resposta definitiva. Elas criam uma situação em que dois mundos aparentemente distantes precisam se encontrar. Nenhum dos dois precisa abandonar quem é para que a conversa aconteça.

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NOVAS MEMÓRIAS PARA UMA RELAÇÃO ANTIGA

A série permitiu que pai e filho revisitassem lugares que carregavam significados da infância de Cesco.

A igreja é um desses espaços. Quando criança, ele frequentava o local acompanhado pelo pai. Adulto, voltou ao mesmo ambiente para fotografá-lo em drag.

“É muito interessante porque, naquele espaço onde eu sempre fui guiado para segui-lo, ainda estou seguindo meu pai. Ele acaba tomando o controle naquele momento e performa para mim do jeito dele. Eu não o direciono”, explica Cesco.

O campo de futebol da comunidade também virou palco dessa reaproximação. Na infância, Cesco costumava recusar os convites do pai para jogar bola. Durante o projeto, os dois dividiram o gramado pela primeira vez.

“Ele fala que foi a primeira vez que nós jogamos bola porque, nas outras vezes, durante toda a minha infância, eu me recusava a jogar”, relembra.

Pai de Danilo Zocatelli, maquiado e de peruca, chuta uma bola em um campo de futebol.
Durante o projeto, pai e filho dividiram o campo de futebol pela primeira vez. Crédito: Danilo Zocatelli Cesco/ Série “Querido Pai”

A CARTA QUE VIROU PARTE DA OBRA

Cesco voltou à Inglaterra com mais de 2 mil fotografias produzidas durante as duas semanas no Brasil, além de objetos e materiais recolhidos durante o processo.

Ele começou a imprimir as imagens e espalhá-las pelo estúdio. Conversava sobre elas com professores e pessoas próximas, mas ainda sentia dificuldade para compreender o que aquela experiência significava. Até que escreveu uma carta ao pai.

A carta levou cerca de dois minutos para ficar pronta. Cesco diz que escreveu sem voltar atrás, em um processo que descreve como terapêutico.

No dia seguinte, um amigo que morava com ele leu o texto e começou a chorar. Depois, Cesco mostrou a carta ao namorado. Foi quando percebeu que aquele texto poderia ser mais do que uma correspondência particular: ele ajudava a explicar o que estava por trás das fotografias.

Antes de incorporá-la à obra, ligou para o pai, leu a carta e pediu autorização para utilizá-la.

No texto, Cesco retoma lembranças que ajudam a reconstruir a relação entre os dois. Uma delas é o momento em que o pai soube que ele era gay.

“A primeira vez que você me disse que me amava foi quando eu tinha 17 anos. Eu estava morrendo de medo de você”, escreveu.

A carta revelava o que não estava necessariamente visível nas fotografias: o medo que existiu na relação, as lembranças da infância, a sexualidade, a palavra “golo” e a tentativa de reconstruir tudo isso sem apagar o passado.

“Papi, esta carta não é sobre fazer as pazes com o passado. É uma ponte para este momento que construímos aqui”, escreveu Cesco.

A partir daí, a correspondência se tornou a base de “Querido Pai”. Trechos foram incorporados aos títulos das fotografias e, nas exposições, a carta passou a ser disponibilizada ao público.

Ao escrever sobre o pai com maquiagem e uma grande peruca, Cesco explica que não queria transformá-lo em outra pessoa, mas encontrar nele uma imagem na qual também pudesse se reconhecer.

“Desenhar um novo rosto em você é um exercício de liberdade para mim. Você não consegue imaginar como me sinto por dentro ao ver aquele garoto que se culpava por ser gay, que não se tornou engenheiro e que ainda não aprendeu a dirigir se divertindo”, escreve.

O que começou como um texto privado ganhou uma segunda função. Pessoas que visitavam as exposições passaram a levar cópias e, posteriormente, escrever para Cesco contando suas próprias histórias.

A carta já foi traduzida para cinco idiomas, segundo o fotógrafo.

“Ela permite que as pessoas se sintam abertas a falar das experiências delas”, afirma.

DE VOLTA PARA CASA

A circulação internacional da série produziu outro movimento: a necessidade de apresentá-la também no Brasil.

Se o projeto havia nascido, em parte, da vontade de Cesco de olhar novamente para o país de onde veio, levá-lo de volta para casa se tornou uma etapa importante de sua trajetória.

A primeira apresentação no Brasil aconteceu em março, durante o Foto em Pauta, em Tiradentes, Minas Gerais. O trabalho também chegou a São Paulo e, posteriormente, ao Paraná.

Pai de Danilo Zocatelli dirige uma motocicleta por uma estrada rural usando maquiagem e peruca.
Depois de circular internacionalmente, “Querido Pai” voltou ao Brasil e chegou aos espaços ligados à história da família. Crédito: Danilo Zocatelli Cesco/ Série “Querido Pai”

Cesco conta que chegou a visitar a prefeitura de Marialva, cidade onde nasceu e cresceu. Nunca havia entrado no prédio antes.

Também voltou ao colégio estadual onde seus pais estudaram para falar sobre sua trajetória. Mais do que apresentar fotografias, o artista passou a ocupar espaços que fizeram parte de sua história a partir de uma nova posição.

A experiência internacional havia mostrado a ele que o projeto poderia provocar conversas que iam além de sua relação pessoal com o pai.

Em exposições na Europa, pessoas passaram a procurá-lo para falar sobre suas próprias famílias, dificuldades de comunicação e experiências relacionadas à sexualidade.

Foi nesse momento que o fotógrafo percebeu que o trabalho havia adquirido uma dimensão não prevista quando começou a fotografar.

“Eu fui entendendo que precisava ouvir. Criei algo que permite que as pessoas se sintam livres para conversar. Já que criei isso, tenho uma responsabilidade. Eu entendi essa responsabilidade”, afirma Cesco.

UM PROJETO SOBRE RELACIONAMENTO

Apesar de utilizar a estética drag e partir de uma experiência queer, Cesco não define “Querido Pai” como um projeto exclusivamente sobre drag.

Para ele, a arte drag é a linguagem utilizada para criar uma conversa entre pai e filho.

“Eu não transformo meu pai em drag queen. É um projeto que usa a arte drag para criar uma conversação. Existe uma diferença muito grande”, explica.

Uma das principais transformações aconteceu no próprio fotógrafo.

Na abertura da exposição em São Paulo, Cesco estava com o pai, a mãe e as primas enquanto se maquiava, escolhia roupas e se preparava para sair. Eram situações que antes não faziam parte de sua experiência familiar.

“Querido Pai” não procura apagar as diferenças entre os dois. Ao voltar ao lugar onde cresceu, o filho convida o pai a conhecer o mundo construído longe dali. Ao aceitar o convite, o pai também passa a fazer parte desse universo.

Depois de todo o processo, a imagem que permanece para Cesco não é apenas a do pai maquiado, sobre o trator ou dentro da igreja.

É também a do homem que passou a observar em detalhes: o suor no rosto, os olhos apertados diante do sol e os gestos cotidianos.

Na carta, Cesco diz que foi durante esse processo que os dois conseguiram se enxergar de outra maneira.

“Encontramos a nossa paz.”


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais