De mochila nas costas, ratos são treinados para encontrar sobreviventes de terremotos

Equipados com câmeras, microfones e alto-falantes, ratos africanos aprendem a percorrer escombros e chegar a lugares inacessíveis para humanos e robôs.

Rato africano com mochila tecnológica atravessa uma pilha de pneus durante treinamento para operações de resgate.
créditos: ©APOPO

Hunter Schwarz 4 minutos de leitura
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Os ratos não costumam ter uma reputação muito boa. Podem transmitir doenças e são considerados pragas em grandes cidades, como Nova York, que investe milhões de dólares para combatê-los. Mas talvez estejamos subestimando o potencial desses animais. Com treinamento e uma pequena mochila tecnológica nas costas, eles podem ajudar a salvar vidas.

Para auxiliar em operações de resgate após terremotos e desabamentos, a organização sem fins lucrativos APOPO treina ratos-gigantes-africanos, apelidados de RescueRATs, para entrar em espaços que humanos e robôs não conseguem alcançar.

Os animais usam mochilas desenvolvidas especialmente para eles, equipadas com câmeras e sistemas de áudio e vídeo em tempo real. Os dispositivos também permitem comunicação bidirecional, para que as equipes de resgate consigam conversar com sobreviventes encontrados sob os escombros.

“Os ratos-gigantes-africanos são pequenos e leves, por isso conseguem se movimentar sobre escombros instáveis e atravessar espaços estreitos sem deslocá-los”, explica Lily Shallom, gerente de comunicação da APOPO, à Fast Company.

“Eles também são ágeis e rápidos, além de terem excelentes sentidos de olfato e audição, o que os torna especialmente adequados para procurar pessoas em locais de difícil acesso”, acrescenta.

Rato equipado com mochila laranja atravessa uma estrutura de concreto durante treinamento.
Rato do projeto RescueRATs, da organização APOPO, atravessa obstáculos que simulam escombros Crédito: © APOPO

A APOPO, organização sediada na Bélgica, realiza os treinamentos em Morogoro, na Tanzânia. O método utiliza reforço positivo: os ratos recebem recompensas alimentares quando executam corretamente as tarefas.

Primeiro, aprendem a trabalhar com um treinador e a atravessar percursos que simulam áreas cobertas por escombros. Depois, são acostumados a usar as mochilas e treinados para acionar um sinal quando encontram uma pessoa.

Segundo Shallom, os animais aprendem rapidamente, são motivados pela comida e gostam das atividades.

Pessoa segura um rato africano equipado com mochila tecnológica preta e laranja durante treinamento da APOPO.
Os RescueRATs são treinados para usar equipamentos de comunicação e sinalizar quando encontram uma pessoa. Crédito: © APOPO

MOCHILAS DE ATÉ 100 GRAMAS

A APOPO desenvolveu diferentes versões das mochilas desde o primeiro protótipo, criado em 2019.

Inicialmente, o equipamento tinha uma câmera que se projetava para fora, mas os pesquisadores perceberam que ela poderia ficar presa nos obstáculos. Outra versão levava a bateria na parte superior, elevando o centro de gravidade e dificultando o equilíbrio dos ratos.

Quatro dispositivos eletrônicos verdes e laranja, de diferentes tamanhos, dispostos sobre uma mesa
O projeto RescueRATs desenvolve equipamentos compactos para auxiliar na comunicação e no monitoramento dos animais durante as buscas. Crédito: © APOPO

Os modelos atuais pesam no máximo 100 gramas, menos de 10% do peso corporal de um rato-gigante-africano.

A versão mais recente utiliza uma estrutura impressa em 3D e reúne microprocessador, câmera, alto-falante, microfone, lanterna, ventilador de resfriamento e bateria com autonomia de até 35 minutos durante a transmissão de imagens e sons.

Os ratos conseguem seguir o cheiro de seres humanos e diferenciar uma pessoa de objetos que carregam odor humano, como roupas e sapatos.

Ao encontrar alguém, são treinados para puxar um pequeno pingente preso ao colete da mochila. O movimento envia um sinal ao treinador, indicando que uma pessoa foi localizada.

“Eles não substituem os socorristas humanos nem a tecnologia. São uma ferramenta adicional que pode ajudar as equipes de resgate a encontrar sobreviventes mais rapidamente e decidir onde concentrar seus esforços”, afirma Shallom.

COMO LOCALIZAR UM RATO ENTRE OS ESCOMBROS?

Um dos principais desafios tecnológicos do projeto é acompanhar a localização dos animais.

Diagrama de uma rede de comunicação em malha, com dispositivos capazes de transmitir informações por diferentes pontos de conexão.
Esquema de uma rede de comunicação em malha, que permite transmitir informações por diferentes pontos de conexão. Crédito: APOPO

As mochilas não utilizam GPS convencional porque o sistema não funciona adequadamente sob os escombros. Para superar essa limitação, a APOPO pesquisa alternativas como a tecnologia de localização e mapeamento simultâneos, conhecida pela sigla SLAM.

Esse método permite construir um mapa do ambiente enquanto identifica a posição de quem o percorre, utilizando informações captadas por sensores e imagens.

Em 2025, uma equipe de estudantes de engenharia da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, ajudou a desenvolver um dispositivo e um algoritmo que agora servem de ponto de partida para um novo sistema de rastreamento.

A APOPO já treinou seu primeiro grupo de RescueRATs, transferido para a Turquia em junho de 2026 para testes operacionais. Um segundo grupo começou a ser preparado na Tanzânia.

O objetivo é manter equipes de ratos treinados na Turquia, país especialmente vulnerável a terremotos. Em 2023, um dos desastres mais graves da história recente da região deixou mais de 40 mil mortos.

Com treinamento adequado e equipamentos cada vez menores e mais eficientes, esses animais poderão ajudar as equipes de emergência a localizar sobreviventes quando um novo desastre acontecer.


SOBRE O AUTOR

Hunter Schwarz é colaborador da Fast Company e acompanha de perto os pontos de contato entre design e publicidade, branding, negócios,... saiba mais