De mochila nas costas, ratos são treinados para encontrar sobreviventes de terremotos
Equipados com câmeras, microfones e alto-falantes, ratos africanos aprendem a percorrer escombros e chegar a lugares inacessíveis para humanos e robôs.

Os ratos não costumam ter uma reputação muito boa. Podem transmitir doenças e são considerados pragas em grandes cidades, como Nova York, que investe milhões de dólares para combatê-los. Mas talvez estejamos subestimando o potencial desses animais. Com treinamento e uma pequena mochila tecnológica nas costas, eles podem ajudar a salvar vidas.
Para auxiliar em operações de resgate após terremotos e desabamentos, a organização sem fins lucrativos APOPO treina ratos-gigantes-africanos, apelidados de RescueRATs, para entrar em espaços que humanos e robôs não conseguem alcançar.
Os animais usam mochilas desenvolvidas especialmente para eles, equipadas com câmeras e sistemas de áudio e vídeo em tempo real. Os dispositivos também permitem comunicação bidirecional, para que as equipes de resgate consigam conversar com sobreviventes encontrados sob os escombros.
“Os ratos-gigantes-africanos são pequenos e leves, por isso conseguem se movimentar sobre escombros instáveis e atravessar espaços estreitos sem deslocá-los”, explica Lily Shallom, gerente de comunicação da APOPO, à Fast Company.
“Eles também são ágeis e rápidos, além de terem excelentes sentidos de olfato e audição, o que os torna especialmente adequados para procurar pessoas em locais de difícil acesso”, acrescenta.

A APOPO, organização sediada na Bélgica, realiza os treinamentos em Morogoro, na Tanzânia. O método utiliza reforço positivo: os ratos recebem recompensas alimentares quando executam corretamente as tarefas.
Primeiro, aprendem a trabalhar com um treinador e a atravessar percursos que simulam áreas cobertas por escombros. Depois, são acostumados a usar as mochilas e treinados para acionar um sinal quando encontram uma pessoa.
Segundo Shallom, os animais aprendem rapidamente, são motivados pela comida e gostam das atividades.

MOCHILAS DE ATÉ 100 GRAMAS
A APOPO desenvolveu diferentes versões das mochilas desde o primeiro protótipo, criado em 2019.
Inicialmente, o equipamento tinha uma câmera que se projetava para fora, mas os pesquisadores perceberam que ela poderia ficar presa nos obstáculos. Outra versão levava a bateria na parte superior, elevando o centro de gravidade e dificultando o equilíbrio dos ratos.

Os modelos atuais pesam no máximo 100 gramas, menos de 10% do peso corporal de um rato-gigante-africano.
A versão mais recente utiliza uma estrutura impressa em 3D e reúne microprocessador, câmera, alto-falante, microfone, lanterna, ventilador de resfriamento e bateria com autonomia de até 35 minutos durante a transmissão de imagens e sons.
Os ratos conseguem seguir o cheiro de seres humanos e diferenciar uma pessoa de objetos que carregam odor humano, como roupas e sapatos.
Ao encontrar alguém, são treinados para puxar um pequeno pingente preso ao colete da mochila. O movimento envia um sinal ao treinador, indicando que uma pessoa foi localizada.
“Eles não substituem os socorristas humanos nem a tecnologia. São uma ferramenta adicional que pode ajudar as equipes de resgate a encontrar sobreviventes mais rapidamente e decidir onde concentrar seus esforços”, afirma Shallom.
COMO LOCALIZAR UM RATO ENTRE OS ESCOMBROS?
Um dos principais desafios tecnológicos do projeto é acompanhar a localização dos animais.

As mochilas não utilizam GPS convencional porque o sistema não funciona adequadamente sob os escombros. Para superar essa limitação, a APOPO pesquisa alternativas como a tecnologia de localização e mapeamento simultâneos, conhecida pela sigla SLAM.
Esse método permite construir um mapa do ambiente enquanto identifica a posição de quem o percorre, utilizando informações captadas por sensores e imagens.
Em 2025, uma equipe de estudantes de engenharia da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, ajudou a desenvolver um dispositivo e um algoritmo que agora servem de ponto de partida para um novo sistema de rastreamento.
A APOPO já treinou seu primeiro grupo de RescueRATs, transferido para a Turquia em junho de 2026 para testes operacionais. Um segundo grupo começou a ser preparado na Tanzânia.
O objetivo é manter equipes de ratos treinados na Turquia, país especialmente vulnerável a terremotos. Em 2023, um dos desastres mais graves da história recente da região deixou mais de 40 mil mortos.
Com treinamento adequado e equipamentos cada vez menores e mais eficientes, esses animais poderão ajudar as equipes de emergência a localizar sobreviventes quando um novo desastre acontecer.