Samsung defende um futuro com mais ética no campo da IA

O diretor de design da Samsung, Mauro Porcini, defende que ""precisamos da humanidade mais do que nunca para guiar a IA na direção certa, tanto criativa quanto eticamente"

uso de inteligência artificial em dispositivos e eletroeletrônicos Samsung
Crédito: Samsung

Mark Wilson 4 minutos de leitura

Um smartphone Samsung Galaxy Tri-Fold repousa ao lado de algo que ainda não vimos antes. Trata-se de uma tela circular com uma “cabeça” giratória. Batizado de Projeto Luna, o dispositivo tem o charme mecânico de Luxo Jr. e um bip que lembra Wall-E.

“Os convidados chegaram”, sussurra uma voz. Instantes depois, uma orquestra começa a tocar. O Projeto Luna e o Galaxy assumem o papel de maestros de uma série de produtos e conceitos da Samsung, todos compartilhando uma animação pulsante em forma de orbe que fica entre um rosto, uma boca, um olho e o anel luminoso de HAL em "2001: Uma Odisseia no Espaço".

É assim que a Samsung deu as boas-vindas aos visitantes na Semana de Design de Milão (realizada entre os dias 20 e 26de abril), durante a exposição "Design é um ato de amor". Mais do que uma instalação, é um vislumbre do futuro do design da empresa.

A mostra marca a maior declaração de design da Samsung desde a contratação de seu primeiro diretor global de design estrangeiro, Mauro Porcini, no ano passado.

Crédito: Samsung

“A ideia é transmitir uma vibe, uma sensação do tipo de linguagem de design que queremos usar”, diz Porcini, ressaltando que o Projeto Luna e muitos outros produtos apresentados são conceitos, ainda que bastante plausíveis. “São coisas que podem acontecer em um futuro próximo”, acredita.

A exposição revela a tese da Samsung para a próxima geração de experiência do usuário com IA: enquanto os smartphones continuarão sendo o centro da IA pessoal, veremos cada vez mais uma IA compartilhada se espalhar pelos ambientes da casa.

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Na visão da empresa, isso significa que a IA poderá surgir na TV, na geladeira ou em outros dispositivos, saltando de tela em tela como os bruxos de Harry Potter transitam entre quadros mágicos.

IA EM TODOS OS AMBIENTES

Na instalação em Milão, Porcini combinou produtos já existentes da Samsung – como as caixas Music Studio e as TVs Frame – com novos conceitos pensados desde o início para a era da IA. Tudo aparece integrado ao cotidiano: na sala, no quarto, na cozinha, em uma convivência fluida.

O grande destaque é o Projeto Luna. Sua proposta é funcionar como um companheiro de IA dedicado à casa, preenchendo lacunas quando não houver outros dispositivos inteligentes por perto.

Crédito: Samsung

A Samsung também apresentou outros dispositivos alinhados a essa visão. Um deles é uma caixa de som quadrada, minimalista, com um disco de vinil exposto girando na lateral. Um objeto analógico à primeira vista, mas que ganha vida com uma interface luminosa, equipada com IA e equalização dinâmica, quando necessário.

A abundância de IA no ecossistema da Samsung reforça a tese de Porcini de que a tecnologia tende a se tornar uma commodity. O diferencial, portanto, estará no design da experiência em torno da IA. E esse design vai ter que entregar valor real para se destacar em meio à padronização crescente.

uso de inteligência artificial em dispositivos e eletroeletrônicos Samsung
Crédito: Samsung

Para ele, o diferencial da Samsung está em fazer com que a IA sirva às pessoas, ampliando a inteligência emocional e a imaginação humana.

A partir daí, a empresa pode usar IA para ajudar usuários a “viver mais” (com foco em saúde e bem-estar), “viver melhor” (com mais tempo livre), “viver intensamente” (ampliando formas de expressão digital) e “continuar vivendo” (preservando conhecimento e memórias).

POR QUE NÃO UM DESIGN ÚNICO

Outro pilar da visão de Porcini é que forma e função devem seguir o significado. Ele aponta que já fazemos isso no dia a dia, ao organizar aplicativos e fotos no celular de acordo com nossas preferências.

Agora, a ideia é que a Samsung abrace esse comportamento, mesmo que isso signifique reduzir o controle rígido sobre sua própria identidade visual.

produtos exibidos pela Samsung na Semana de Design de Milão 2026
Crédito: Samsung

Liberdade de expressão é parte essencial do que nos torna humanos, argumenta. Por isso, em vez de impor uma única linguagem de design, a empresa aposta na diversidade de estilos. Sem seguir um padrão único, Porcini quer provocar uma “explosão” de produtos expressivos, que desafiem as formas tradicionais da tecnologia.

Com o tempo, isso pode resultar em um ecossistema mais diverso – quase “boêmio” –, no qual diferentes dispositivos coexistem. E o elemento que os conecta não será o design físico, mas a camada de IA.

“Queremos nos surpreender com o design da próxima TV e sentir algo com isso”, diz. “Queremos inseri-la no ambiente físico e alinhar tudo a essa ideia de uma IA que precisa ser domada pela humanidade.”

estande da Samsung na Semana de Design de Milão 2026
Crédito: Samsung

Embora a filosofia soe ambiciosa, a oportunidade é concreta. A Samsung já domina uma fatia significativa do mercado global: responde por cerca de um quinto dos smartphones, um quarto dos eletrodomésticos e um terço das TVs vendidas no mundo.

Ou seja: a empresa já está profundamente inserida no cotidiano das pessoas. Se conseguir articular uma abordagem mais ética e centrada no usuário para a IA, ela terá ainda mais espaço dentro das casas.

Mas há um alerta: após enfrentar processos e críticas sobre a coleta de dados em TVs, a Samsung sabe que qualquer deslize, seja em políticas ou interfaces, pode transformar aquele “mágico” salto entre telas em algo menos encantador e mais invasivo, como um hóspede indesejado que observa tudo.


SOBRE O AUTOR

Mark Wilson é redator sênior da Fast Company. Escreve sobre design, tecnologia e cultura há quase 15 anos. saiba mais