Sustentabilidade, custos e cidades: os dilemas da arquitetura em 2026

A Fast Company ouviu arquitetos de alguns dos principais escritórios do mundo para prever quais forças devem moldar o setor em 2026

Yann LeCun, pesquisador de IA
Crédito: Ivy Many/ Getty Images

Nate Berg 6 minutos de leitura

Para quem projeta o ambiente construído, é essencial adotar uma visão de longo prazo. Anos (ou até décadas) podem ser investidos no projeto e na construção de um único empreendimento. As melhores obras podem continuar de pé por séculos.

Mas o negócio de projetar edifícios também está sujeito às turbulências e incertezas de cada momento histórico – inclusive este, particularmente instável.

Olhando para um futuro de curto prazo, a Fast Company ouviu arquitetos de alguns dos principais escritórios dos Estados Unidos e do mundo para prever quais forças devem moldar o setor em 2026 e onde podem surgir pontos de luz.

A pergunta feita a um painel de designers e líderes da arquitetura foi direta:

Quais desafios os arquitetos terão de enfrentar em 2026 e quais podem ser as novas áreas de oportunidade?

COLABORAÇÃO É ESSENCIAL

Habitação acessível e recursos comunitários de apoio estão em Falta – projetos que ofereçam proximidade com transporte público, infraestrutura social e recursos culturais, como restaurantes e entretenimento, estarão em alta demanda.

Entender o papel que um prédio desempenha dentro de uma comunidade mais ampla é uma parte vital do processo de planejamento que muitas vezes fica em segundo plano. A colaboração precisa ir além das prefeituras e das equipes de design, integrando de fato as necessidades das comunidades.

as competências dos arquitetos estão se expandindo para incluir diferentes funções e demandas.

Este ano trará muitos dos mesmos desafios que já estamos enfrentando: mais pressão para entregar projetos mais rápido, sem comprometer a qualidade, entender o que realmente significa um edifício de alto desempenho e agilizar aprovações de órgãos públicos.

Este último é um setor em que a IA pode ser uma ferramenta valiosa para apoiar inovação e eficiência. Também há uma oportunidade crescente de maior parceria entre a academia e a prática arquitetônica.

É fundamental intensificar essa colaboração, especialmente porque as competências dos arquitetos estão se expandindo para incluir diferentes funções e demandas.

Nick Leahy, co-CEO e diretor executivo da Perkins Eastman

RESILIÊNCIA É O NOVO PADRÃO

2026 é o ano em que projetar para a resiliência deixa de ser diferencial e passa a ser obrigatório. A inovação estará tanto nos sistemas quanto na função, na forma e na estética.

Vamos pensar mais em carbono incorporado e em desenvolver maneiras de entregar edificações de baixo carbono sem custos adicionais. Os clientes não vão mais aceitar a ideia de que ‘sustentável é mais caro’.”

Oportunidades: reutilização e reinvenção – a segunda vida de um prédio ou distrito. Conversão de escritórios obsoletos em residências e hotéis, sempre que viável, especialmente no caso de prédios antigos e charmosos em áreas onde as pessoas querem viver.

Projetos de dados e energia vão continuar relevantes e empolgantes para os arquitetos

Ao mesmo tempo, novos edifícios corporativos serão de “luxo A++”, projetados com novas formas de amenidades voltadas ao bem-estar e à socialização. Nos subúrbios, shoppings podem se transformar em distritos de uso misto, virando incubadoras ou espaços cívicos, pensados em torno de saúde e qualidade de vida.

Estacionamentos podem dar lugar a ruas cheias de charme e a zonas especiais ativas 24 horas por dia. A moradia para os trabalhadores também será uma grande oportunidade, preenchendo a lacuna entre o luxo e o mercado padrão.

Projetos de dados e energia vão continuar relevantes e empolgantes para os arquitetos – não pela novidade, mas pela inteligência espacial e pelo planejamento cuidadoso exigidos para uma realização bem-sucedida.

Trent Tesch, diretor da KPF

PROJETAR DE FORMA SUSTENTÁVEL FICOU AINDA MAIS DIFÍCIL

Um dos desafios mais significativos para o mercado de construção dos EUA em 2026 será manter o impulso de soluções de design sustentável e regenerativo diante de ventos contrários, econômicos e políticos.

O mercado norte-americano sempre foi guiado por uma mentalidade de "menor custo inicial", enquanto o design sustentável aposta no retorno ao longo do ciclo de vida da edificação.

é preciso ir além do discurso puramente sobre ROI e bem-estar.

Obstáculos sempre existiram, mas agora a barra está ainda mais alta com mudanças no programa Energy Star, cortes em subsídios federais para energia limpa, reduções em programas de resiliência climática e outros retrocessos.

Diante disso, arquitetos e designers precisam ir além do discurso puramente de retorno sobre o investimento e de bem-estar, demonstrando como a sustentabilidade mitiga riscos, garante conformidade regulatória e impulsiona a resiliência financeira de longo prazo.

David Polzin, diretor executivo de design da CannonDesign

VENTOS CONTRÁRIOS

Na Practice for Architecture and Urbanism (PAU), continuamos a incorporar inteligência artificial em aspectos do nosso fluxo de trabalho, mas apenas para complementar – nunca substituir – o talento e o julgamento da nossa equipe.

Leia mais: Frank Gehry, o mago que mudou a forma e a tecnologia da arquitetura

Em 2026, os arquitetos provavelmente continuarão enfrentando desafios econômicos. O ritmo intenso de consolidação do setor por meio de fusões e aquisições segue forte, levantando a questão de se, no futuro, a arquitetura se tornará uma disciplina dividida principalmente entre butiques e grandes corporações.

Vishaan Chakrabarti, fundador da PAU

MUITO ALÉM DOS EDIFÍCIOS

Em 2026, a volatilidade climática, a desigualdade habitacional, o colapso da infraestrutura e a incerteza econômica vão deixar de ser pano de fundo para se tornar forças ativas moldando cada decisão de um arquiteto.

Seremos chamados a fazer mais do que entregar edifícios; espera-se que ajudemos a restaurar a confiança em sistemas – políticos e econômicos – que falharam repetidamente com comunidades e com o meio ambiente.

O desafio será manter a responsabilidade com ideais ambientais e cívicos.

Precisamos navegar por expectativas mais elevadas, entregando projetos com benefícios sociais, ambientais e econômicos concretos, ao mesmo tempo em que lidamos com prazos mais apertados e menos recursos.

O desafio central será manter a responsabilidade com ideais ambientais e cívicos dentro de modelos de entrega que não foram desenhados para recompensar nenhum dos dois.

Claire Weisz, sócia-fundadora da WXY architecture + urban design

DECISÕES MELHORES, MAIS CEDO

Os arquitetos estão trabalhando sob pressão de todos os lados: os riscos climáticos se intensificam, a acessibilidade habitacional segue sem solução e o setor ainda enfrenta limitações de mão de obra e capacidade.

Ao mesmo tempo, os clientes esperam respostas cada vez mais precoces, baseadas em dados, que demonstrem como um projeto vai cumprir metas de sustentabilidade e entregar desempenho de longo prazo.

Os arquitetos estão trabalhando sob pressão de todos os lados.

O desafio já não é apenas projetar bem, mas lidar com uma complexidade crescente e com trade-offs sem desacelerar os projetos. Isso impulsiona a necessidade de eliminar a fragmentação de informações entre equipes e fases do projeto.

O desafio definitivo para arquitetos e designers em 2026 será tomar decisões confiáveis e defensáveis logo no início, quando elas têm maior impacto nos resultados ambientais, de custo, cronograma e desempenho de um empreendimento.

Amy Bunszel, vice-presidente executiva de soluções para arquitetura, engenharia e construção da Autodesk


SOBRE O AUTOR

Nate Berg é jornalista e cobre cidades, planejamento urbano e arquitetura. saiba mais