Tênis de luxo palestino é bordado por mulheres na Cisjordânia
A cooperativa de Masafer Yatta transforma um bordado transmitido por gerações em uma fonte de renda e símbolo de preservação cultural

Se você visitar uma casa palestina, pode encontrar um padrão geométrico colorido decorando almofadas ou toalhas de chá. Há três mil anos, mulheres de toda a região das colinas do sul de Hebron, na Cisjordânia, aprendem a arte do tatreez, uma forma de bordado em ponto cruz transmitida de geração em geração.
Os motivos, que frequentemente apresentam estrelas e ciprestes e a paleta de cores em tons de marrom, azul e vermelho, procuram evocar a beleza da paisagem mediterrânea.
“Nós bordamos bolsas, vestidos, lençóis, capas de livros”, diz Kifah Adra, líder da Cooperativa de Tecelagem Feminina de Masafer Yatta, uma cadeia de pequenas aldeias na região. “Todas as nossas casas estão cheias de bordados.”
O povo palestino enfrenta dificuldades em meio ao conflito e à ocupação militar, e o imperativo mais imediato é proteger vidas humanas. Mas, para Adra e outros palestinos cujas comunidades enfrentam ameaças existenciais, também é importante preservar tradições culturais para garantir que seu legado e sua história não sejam apagados.
É essa a filosofia que impulsiona a Resolute RGL, uma marca de moda palestina que quer levar o tatreez a um público global. A empresa foi cofundada em março de 2025 por Basel Adra, jornalista e documentarista palestino, e sua mãe, Kifah, artesã especializada que há muitos anos lidera a cooperativa.
A eles se juntou um grupo de ativistas palestinos e internacionais – Maria Chacour, Nicholas Jacob e Joseph Levin – que trazem sua experiência em design e operações para o negócio.
Eles lançaram uma coleção de tênis de luxo (com preços entre US$ 250 e US$ 350) decorados com padrões de tatreez, bordados à mão por 250 mulheres da cooperativa. A ideia mais ampla é usar esses produtos para humanizar o povo palestino e preservar seu legado artístico.

Agora, em um marco para a marca, a Resolute está expandindo sua presença para os Estados Unidos, levando seus produtos a um público mais amplo por meio de experiências pop-up em Nova York, inclusive nas Nações Unidas durante a Climate Week.
A VISÃO PARA A COOPERATIVA
As bases da Resolute foram lançadas em 2003, quando Kifah criou uma cooperativa com outras três mulheres em sua terra ancestral, Masafer Yatta. Nessa região rural e remota, a ocupação militar israelense restringe a circulação das pessoas e dificulta a construção de infraestrutura como escolas e universidades.
Kifah percebeu que as mulheres, em particular, tinham poucas opções quando se tratava de educação formal ou emprego tradicional. As meninas começam a aprender tatreez por volta dos 10 anos, como um rito de passagem, e Kifah teve a ideia de transformar esse artesanato em um negócio que permitisse às mulheres ganhar a vida e conquistar certa independência.

Durante anos, a cooperativa gerou receita vendendo vestidos bordados, tapeçarias e artigos de decoração para ativistas visitantes, voluntários estrangeiros e pesquisadores de direitos humanos que visitavam as colinas do sul de Hebron.
No entanto, à medida que os bloqueios militares se intensificaram e viajar pela Cisjordânia se tornou cada vez mais perigoso, o número de visitantes caiu.

Foi então que o filho de Kifah, Basel, e seus parceiros ativistas da comunidade tiveram a ideia de transformar o negócio. Em vez de esperar que apoiadores internacionais visitassem Masafer Yatta, eles poderiam usar a moderna infraestrutura do comércio eletrônico para levar os produtos ao mundo.
Juntos, decidiram criar um produto que combinasse artesanato centenário com estilo de vida moderno: um tênis sofisticado para o dia a dia, com discretos painéis de tatreez.
Para financiar essa visão, lançaram uma campanha no Kickstarter programada para coincidir com a noite do Oscar, em março de 2025, quando Basel concorria a um prêmio por seu documentário, "No Other Land".

O filme foi eleito Melhor Documentário e Basel recebeu o Oscar usando um par de tênis Haifa, da Resolute. Naquela noite, o projeto viralizou nas redes sociais. No lançamento, eles venderam mais de seis mil pares de tênis, gerando receita e impulso suficientes para transformar o projeto em uma marca de moda sustentável.
AJUDANDO MULHERES A TRABALHAR COM SEGURANÇA
Com a expansão para os Estados Unidos, a Resolute oferece uma fonte de renda para milhares de mulheres em Masafer Yatta e na região mais ampla de Hebron. E, graças ao profundo conhecimento que Kifah tem da vida na região, ela construiu uma cadeia de fornecimento baseada na realidade cotidiana, nas restrições de circulação e na segurança das artesãs.
Cada par de tênis exige de 14 a 24 horas de bordado à mão, enquanto as mulheres trabalham em cada painel. Depois de concluírem os painéis bordados, a Resolute os recolhe na Cisjordânia e os envia para fábricas parceiras em Portugal, onde mestres sapateiros aplicam o tatreez em tênis de couro e camurça de alta qualidade.

Mas administrar uma marca de moda global a partir de Masafer Yatta significa enfrentar o perigo todos os dias. No dia em que conversei com Basel, ele descreveu os acontecimentos recentes na aldeia. “Somente nas últimas duas semanas, duas comunidades inteiras em Masafer Yatta foram apagadas por tratores israelenses”, diz.
Apesar dessa destruição estrutural, a comunidade se recusa a abandonar seu lar. Basel diz que permanecer significa

encontrar qualquer maneira possível de construir uma vida e sobreviver. E, para as 250 mulheres que bordam o tatreez, cada peça concluída é um ato de resistência, uma prova de vida quando tudo ao redor está sendo destruído.
Essas mulheres da cooperativa são as principais acionistas da Resolute, e a renda que recebem beneficia diretamente suas comunidades. Agora, a Resolute está chegando ao cenário global em Nova York e em outras partes dos Estados Unidos.
Em Masafer Yatta, Kifah espera que os tênis representem mais do que moda de luxo. “Esperamos que nossa comunidade e nossa aldeia sejam reconstruídas e melhoradas. E que a voz das mulheres chegue a lugares onde antes não chegava”, diz Kifah.