Tinta inteligente promete acabar com o mofo – até no banheiro
O sistema absorve e libera umidade por conta das propriedades físicas do material, que armazena a umidade em poros de escala nanométrica

Parece uma tinta comum, mas um novo revestimento chamado Lilypad Paint tem uma habilidade escondida: retirar a umidade do ar. Funciona como um desumidificador – só que sem consumir energia.
Aplicada na parede do banheiro, por exemplo, ela pode absorver o vapor d’água depois do banho. A tinta armazena a umidade em poros de escala nanométrica e, em seguida, a libera lentamente à medida que os níveis de umidade no ambiente diminuem.
Sob a tinta, uma camada de primer personalizada “atua como um porteiro inteligente, garantindo que o vapor não acabe se acumulando na parede”, explica Derek Stein, fundador e CEO da Adept Materials, startup responsável pelo produto.
A tecnologia nasceu das pesquisas de Stein como professor de física na Universidade Brown. Ao trabalhar com estudantes no projeto de uma casa movida a energia solar, ele se deparou com um problema crescente: à medida que os prédios se tornam mais eficientes do ponto de vista energético, a qualidade do ar pode piorar.
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“Quando deixamos os prédios muito vedados termicamente, eles passam a reter umidade e ar”, explica Stein. Uma casa nova pode consumir menos energia para aquecimento e resfriamento, mas mais para ventilação. Se o sistema não funcionar perfeitamente, o resultado pode ser mofo.
Stein então começou a testar novos materiais capazes de regular a umidade dentro das construções. Chegou a uma estrutura simples, de duas camadas. É “como um material que regula a umidade do espaço e ainda orienta o fluxo dentro da parede”, diz. O design remove a umidade da parede e, ao mesmo tempo, impede que ela penetre.

Em conversas com o setor da construção civil, Stein percebeu que havia demanda por uma solução como essa. Em 2018, ele deixou a universidade e lançou a startup Vaporwisp para levar a tecnologia ao mercado.
A aplicação vai além da construção: a tecnologia pode ser usada em embalagens para conservar alimentos por mais tempo ou em roupas com controle de umidade.
A tinta dá à umidade um lugar para ir e um caminho para voltar.
“Por que construtoras estão investindo nisso? Não é só por causa da tinta. Muitos dos problemas operacionais delas estão relacionados à umidade”, afirma Stein.
A tinta foi um ponto de partida lógico, em parte porque é usada tanto por construtores quanto por consumidores que fazem reformas por conta própria. E, ao contrário do drywall – produto de baixa margem de lucro e sem marca forte –, tinta é algo que o consumidor procura pela marca.
Em centenas de testes de laboratório, a equipe comprovou que o sistema absorve e libera umidade conforme o esperado. Em dois ambientes idênticos equipados com sensores de umidade, um recebeu a Lilypad e o outro, tinta comum. Após uma série de medições, a nova tinta demonstrou impedir que a umidade penetrasse nas paredes.

O processo funciona enquanto a tinta estiver aplicada. Ou seja, o desempenho está ligado às propriedades físicas do material, não a aditivos químicos que se desgastam com o tempo. “A Lilypad funciona porque dá à umidade um lugar para ir e um caminho para voltar”, explica Stein.
Quando a umidade sobe, a água adere temporariamente às superfícies microscópicas dentro da tinta. Quando o ar seca, essa umidade é naturalmente liberada de volta ao ambiente.
É o mesmo processo que faz o espelho do banheiro embaçar e depois clarear. A diferença está na escala: em um galão de Lilypad, essas superfícies invisíveis somam cerca de um milhão de vezes a área de um espelho.
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Depois de validar o controle de umidade, a empresa otimizou o produto como tinta. O acabamento precisava ser impecável. O revestimento foi projetado para deslizar na parede com a mesma fluidez das principais marcas do mercado. No lançamento, está disponível apenas na cor branca.
“Ela foi pensada para ser acessível”, afirma Stein. “Minha esperança é que, embora muitas pessoas a usem em reformas sofisticadas, também haja a oportunidade de levá-la para casas populares.”