Um Transformer? Não. É o novo robô de US$ 650 mil da Unitree

A Unitree Robotics apresentou o GD01, um robô com quase três metros de altura, capaz de alternar entre os modos bípede e quadrúpede

novo robô da Unitree parece um Transformer
Crédito: Unitree/ Reprodução YouTube

Jesus Diaz 4 minutos de leitura

Nesta terça-feira (12 de maio), Wang Xingxing, fundador da Unitree Robotics, subiu na cavidade torácica de um robô de metal com três metros de altura, caminhou e destruiu uma parede de tijolos de concreto. Um soco. Parede derrubada.

A reação da mídia chinesa foi instantânea: “a Unitree realmente construiu um Gundam!”.

Foi um exagero, mas há um fundo de verdade. O GD01 parece a primeira versão de algo muito maior. Não em tamanho, mas em escala de atuação.

A China está travando uma ofensiva total na IA incorporada – “cérebros digitais” com corpos físicos que percebem e agem no mundo real. Isso está senso adotado, ao mesmo tempo, na vida cotidiana, na logística, na indústria pesada, em cuidados médicos e em aplicações militares. 

Por trás do espetáculo deste novo robô gigante, um ecossistema industrial inteiro já está remodelando silenciosamente a mineração, a infraestrutura de manufatura, terminais aeroportuários e redes elétricas de alta tensão do país. Estamos no início desta mudança, e suas consequências práticas estão apenas começando a surgir.

Construído a partir de um esqueleto de liga de titânio e alumínio, com uma carcaça de fibra de carbono. o GD01 foi projetado e fabricado quase inteiramente dentro da Unitree, uma empresa que, ao lado da também chinesa AgiBot, emergiu como uma das principais fabricantes de robôs do mundo.

O PRIMEIRO DE MUITOS

O GD01 pesa 500 quilos e custa cerca de US$ 574 mil. A empresa o chama de “o primeiro mecha transformável produzido em massa do mundo”, um título que é preciso. 

Embora alguns amadores já tenham construído mechas (robôs gigantes operados por um piloto), essas unidades não foram projetadas para o trabalho, mas para exibição. E nenhum deles tinha as capacidades extraordinárias e a destreza que o GD01 demonstra.

O robô alterna entre dois modos de movimento: ereto sobre duas pernas ou sobre quatro patas. O modo quadrúpede funciona exatamente como se espera: o centro de gravidade é abaixado, o peso é distribuído por quatro pontos de contato e a máquina permanece estável em terrenos acidentados que fariam um robô bípede tombar.

Crédito: Unitree

As imagens mostradas no vídeo de lançamento rodam em velocidade normal, sem edição. Um sistema de IA integrado gerencia a consciência espacial e a coordenação de membros em tempo real necessária para realizar isso sem que o piloto precise conduzi-lo manualmente. 

No modo bípede, ele funciona como qualquer outro robô humanoide que você já tenha visto.

A Unitree afirma que o alvo do GD01 são “mercados de alto valor” no momento: turismo cultural, uso privado, resgate de emergência e “operações industriais especiais”. Mas o formato do que vem a seguir é óbvio. 

Crédito: Unitree

Uma estrutura de exoesqueleto pilotada que pode andar, se transformar e atravessar paredes é o ancestral direto de máquinas que poderiam operar canteiros de obras, realizar manutenção pesada em pontes e represas, trabalhar dentro de usinas nucleares ou poços de minas desmoronados e mover cargas pesadas em portos industriais. 

Dada a profundidade com que o Exército de Libertação Popular está inserido em empresas chinesas como a Unitree, uma evolução militar desta plataforma, autônoma ou copilotada, armada ou não, não é nenhum absurdo de imaginação.

DOMINANDO O MERCADO

O GD01 é o produto mais chamativo de um portfólio que está deixando os competidores ocidentais de robótica para trás. Em 2025, as empresas chinesas foram responsáveis por quase 90% das vendas globais de robôs humanoides, de acordo com a consultoria Omdia

Segundo a própria empresa, a Unitree enviou mais de 5,5 mil robôs humanoides (contando apenas entregas reais para clientes finais), tornando-se a maior fornecedora mundial de robôs humanoides do ano. No mesmo período, as concorrentes americanas Tesla, Figure AI e Agility Robotics conseguiram entregar cerca de 150 unidades cada.

novo robô da Unitree parece um Transformer
Crédito: Unitree

A diferença de preço conta o resto da história. A Unitree vende seus modelos bípedes básicos G1 e R1 diretamente para compradores internacionais através do AliExpress.

Os principais clientes estão na América do Norte, Europa e Japão. Os preços do R1 começam abaixo de US$ 5 mil em algumas configurações. Elon Musk estimou publicamente que seu Tesla Optimus vai custar entre US$ 20 mil e US$ 30 mil.

Além disso, os humanoides chineses já estão trabalhando em infraestruturas globais. A Japan Airlines, em parceria com a GMO AI & Robotics, está realizando testes com o robô G1 da Unitree no aeroporto de Haneda, em Tóquio, para manusear fisicamente bagagens e carga no pátio, com a fase de testes prevista até 2028.

Em dezembro de 2025, a CATL, a maior fabricante de baterias do mundo, lançou o que chama de a primeira implantação em larga escala de robôs humanoides em uma fábrica comercial, em sua unidade em Luoyang, na China. 

Na semana passada, a State Grid Corp. da China deu início a um plano de US$ 1 bilhão para implantar uma força de trabalho humanoide para manter sua rede elétrica de forma autônoma.

Não há dúvida de que a IA incorporada será a indústria de crescimento mais rápido nos próximos anos, assumindo todos os aspectos de nossas vidas. O mundo ocidental não pode se dar ao luxo de ficar de fora da corrida tecnológica mais importante desde a Revolução Industrial.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produ... saiba mais