É impossível contar a história da internet brasileira sem falar de Aleksandar Mandic, que faleceu nesta quinta-feira, 06, aos 66 anos. Ao construir sua própria carreira, o empreendedor ajudou, simultaneamente, a pavimentar o desenvolvimento da web no país muito antes de a bolha estourar: ainda no início da década de 1970, quando decidiu que iria fazer um curso técnico em tecnologia e inovação.

Um de seus primeiros empregos foi na Siemens. Lá, ficou encantado com a possibilidade de enviar mensagens de um computador no Brasil para outra máquina na Alemanha. Ele começou a desenvolver o sistema Bulletin Board System em sua própria casa, com um HD de 60 MB. Em 1990, ele lançaria a Mandic BBS.

Em uma apresentação na TDWC em maio de 2020, Mandic relembrou como fazia a central telefônica de Pinheiros cair enquanto tentava desenvolver o processo. “Os HDs na época eram de 2 MB e 5MB. Eu consegui ter no meu apartamento 90 linhas telefônicas.  Cheguei ao pico de ter 1400 linhas telefônicas, mas aí já era escritório. Era o maior usuário noturno de linhas telefônicas no Brasil. Vira e mexe, a central telefônica de Pinheiros caía. Vieram me procurar da antiga Telesp, para saber o que acontecia naquela região, que todo mundo estava ligando para o mesmo número ao mesmo tempo. Acabou que eles me deram de presente algumas linhas para poder resolver o problema de congestionamento dessa central. Esse foi o sistema pré-internet: um sistema em que era possível usar alguns serviços usando a linha telefônica.”

Em 1995, ele disse que contou com a sorte do uso comercial da internet passar a ser permitido no Brasil. “E eu tinha tudo: os usuários, os cadastros e então era só mudar a chave da linha telefônica para o link de internet.” Em 2000, tornou-se sócio fundador do iG, um dos principais portais gratuitos da internet brasileira e responsável, em grande parte, por ter popularizado o e-mail no país.

SURFANDO AS ONDAS DA WEB

Ao longo dos anos, o empreendedor de origem sérvia – seu pai nasceu na Sérvia e sua mãe na Bielorrússia – foi voltando sua atenção e investimentos para onde caminhava a evolução do digital. Depois de ter vendido a Mandic no final da década de 90 para a argentina O Site (e de ter exercido o cargo de vice-presidente do iG até setembro de 2001) reabriu a Mandic em 2002, com a oferta de e-mails corporativos. A operação cresceu e acabou estendendo os serviços com produtos de computação na nuvem.

Exatamente uma década depois ele vendeu a empresa para o Riverwood Capital por R$ 100 milhões, e adquiriu participação no fundo de investimentos, tornando-se conselheiro da empresa – em abril, a britânica Claranet comprou a participação majoritária da Madic, que atualmente atende a 4 mil clientes em serviços na nuvem.

Inquieto, Mandic trocou a tranquilidade da aposentadoria para seguir dando vazão à criatividade: em 2013 inventou um app para uso pessoal que funcionaria como uma espécie de base de dados para as senhas das redes de wi-fi de lugares públicos que fossem acessadas por ele. Nascia o Wi-Fi Magic, que um ano depois já ultrapassava 15 milhões de usuários no mundo todo. Segundo ele, o sucesso do app aconteceu de forma orgânica, sem ações de marketing e mídia.

A trajetória de Mandic foi permeada por premiações e homenagens, mas talvez a mais inusitada delas tenha sido quando inspirou um personagem da sitcom americana Silicon Valley. No episódio, George Mandic, CEO da empresa Alvarado Sales Group, se nega a receber os protagonistas da série que estavam em busca de investidores para um app de compressão e compartilhamento de espaço em smartphones.

FADADA AO ESQUECIMENTO

Em uma de suas últimas entrevistas, concedida no final de 2019, Mandic fez uma previsão sobre a obsolescência da internet ao Estadão: “A internet tende a ser esquecida, como o que aconteceu com a corrente alternada do Tesla. Hoje, ninguém dá bola para a luz, a não ser quando falta. É isso o que vai acontecer com a internet. Nós entulhamos os canos, tudo virou digital. Até o dinheiro está mudando. Era escambo, virou metal, adotou o papel, se tornou plástico e, agora, está virando digital.”

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.