Autoridades financeiras querem os “dados climáticos” das empresas. E não há como maquiá-los

Crédito: Fast Company Brasil

Tim Mohin e Kristina Wyatt 5 minutos de leitura

O Dia da Terra deste ano foi diferente. No mesmo dia 22 de abril do ano passado, países, empresas e instituições financeiras haviam feito promessas de zero emissões de carbono em quantidade recorde. Mas agora os investidores estão exigindo divulgações climáticas, e os reguladores estão seguindo o exemplo. Eles não querem mais apenas grandes declarações aspiracionais sobre o quão “verdes” as empresas são. Estão pedindo dados, estratégias e planos. A era do greenwashing está chegando ao fim, porque as preocupações ambientais cruzaram um limite para os principais relatórios financeiros. No mês passado, a Comissão de Valores Mobiliários (SEC, na sigla em inglês) dos EUA emitiu uma proposta pedindo que as empresas públicas divulgassem informações concretas sobre sua exposição financeira ao risco climático e as estratégias para lidar com esse risco. Mas há mais do que risco. Há também oportunidade. O CEO da BlackRock, Larry Fink, enfatizou isso em sua carta de 2022 aos CEOs. Segundo ele, as próximas mil startups unicórnios no valor de US$ 1 bilhão ou mais “não serão mecanismos de busca ou empresas de mídia social, mas sim inovadores sustentáveis ​​e escaláveis.” A proposta da SEC convida, mas não exige, que as empresas abordem em seus registros as possibilidades materiais relacionadas ao clima. No entanto, não se trata de um convite ao greenwashing. Qualquer discussão de oportunidades ou possibilidades precisará ser apoiada por fatos. A HISTÓRIA A pressão foi crescendo com o tempo. Em 2010, a SEC emitiu orientações para que as empresas divulgassem “riscos materiais de mudança climática”. Algumas responderam, mas não muitas. Então, em 2015, o Acordo Climático de Paris foi acatado por todas as nações do planeta, criando um caminho para limitar o aquecimento global a 1,5 graus Celsius. No mesmo ano, o G20 (grupo das 20 das economias mais desenvolvidas do mundo) estabeleceu a Força-Tarefa sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD), criando uma estrutura global para relatar riscos climáticos.

as próximas mil startups unicórnios não serão mecanismos de busca ou empresas de mídia social, mas sim inovadores sustentáveis ​​e escaláveis.
As coisas começaram a se mover na velocidade da luz em 2020. Em janeiro, a carta de Larry Fink aos CEOs proclamou “uma reformulação fundamental das finanças”, apontando a sustentabilidade como o novo padrão de investimento. Em maio, o subcomitê de investidores da SEC declarou que a comissão deveria reavaliar os relatórios sobre mudanças climáticas. Em fevereiro e março de 2021, a SEC solicitou informações públicas das divulgações sobre mudanças climáticas. Em resposta, mais de 550 cartas de comentários foram enviadas – sendo que três em cada quatro delas apoiava regras obrigatórias de divulgação climática. No final do ano, o presidente da comissão, Gary Gensler, orientou a equipe a “desenvolver uma regra obrigatória de divulgação de riscos climáticos”, que agora foi proposta. DIVULGAÇÃO CONSISTENTE, CONFIÁVEL E COMPARÁVEL Os relatórios de sustentabilidade não são algo novo. A maioria das grandes empresas os publica, atualmente. Mas eles tendem a conter informações apenas a título de exemplo ou declarações aspiracionais, sem dados concretos ou verificados. Isso não atende muito bem aos investidores. Também não permite que as empresas que estão tomando medidas significativas para combater as mudanças climáticas se destaquem e brilhem. Tudo isso deve mudar com as novas propostas regulatórias. O QUE AS EMPRESAS DEVEM FAZER AGORA? A proposta da SEC foi caracterizada como “a iniciativa de divulgação mais abrangente e complicada em décadas”. Embora possa ser complexo, há tempo para se preparar para as novas regras.
  • Coloque sua liderança em ordem e verifique se há lacunas
O primeiro passo é garantir que o conselho e os membros da alta administração estejam pensando nos riscos financeiros relacionados ao clima. Em muitos casos, isso envolverá educação específica, para ajudá-los a entender o que as mudanças climáticas podem significar para a empresa e como construir uma estratégia para lidar com riscos e oportunidades. Em seguida, faça um balanço do que a empresa já vem fazendo. Como a maioria publica informações de sustentabilidade, é provável que haja um programa em vigor. Revise suas práticas atuais de relatórios para avaliar as lacunas e crie um plano de trabalho para preenchê-las.
  • Meça sua pegada de carbono
As regulamentações emergentes e a pressão dos investidores apontam para uma mesma direção: as empresas precisam calcular suas emissões de gases de efeito estufa. A maioria começará com as de Escopo 1 e 2 (emissões diretas e indiretas da geração de energia elétrica comprada). As do Escopo 3 (emissões indiretas da cadeia de valor) são uma parte significativa da pegada total, além de mais difíceis de medir. A maioria das empresas provavelmente adotará uma abordagem passo a passo, começando com os Escopos 1 e 2 e com dados do Escopo 3 de alto nível, para depois ir passando para dados do Escopo 3 mais detalhados.
  • Desenvolva uma estratégia climática com metas
O próximo passo é construir uma estratégia para enfrentar os riscos climáticos. Estes riscos podem ser físicos, com potencial de impactar operações em áreas sujeitas a condições climáticas severas, inundações repentinas ou incêndios florestais. Podem ser ainda de longo prazo, como seca, aumento do nível do mar ou diminuição da fertilidade da terra. Os riscos climáticos também podem resultar da transição para uma economia de baixo carbono. Por exemplo: as empresas devem considerar os impactos de potenciais impostos sobre o carbono no cálculo de seus resultados. Por outro lado, como Larry Fink apontou, quem apresentar boas soluções poderá ganhar muito dinheiro. Qualquer estratégia que se preze tem objetivos. As metas climáticas são normalmente declaradas como X quantidade de carbono reduzida até o ano Y. Recentemente, muitas organizações estabeleceram metas de “carbono zero”. Os esforços para fazer essa transição para bens e serviços de baixo carbono serão uma parte importante da estratégia das empresas para atingir esses objetivos. Certamente, as compensações de carbono também vão influenciar isso tudo. A regra proposta pela SEC, combinada com regulamentações internacionais e demandas de investidores, deixa claro que as empresas devem agir agora para lidar com os riscos relacionados ao clima. Exigirá tempo e esforço, mas a experiência mostrou que passar por todo esse processo pode criar valor substancial para as empresas e seus investidores. E, muito mais do que um exercício de conformidade, essas mudanças são essenciais para o nosso futuro.

SOBRE O(A) AUTOR(A)

Tim Mohin é diretor de sustentabilidade da Persefoni e autor de “Changing Business from the Inside Out”. Kristina Wyatt é vice-conselh... saiba mais