ESG morreu. Ainda bem

O que sobreviveu não foi o nome, mas o compromisso de sustentar empresas, empregos e pessoas

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Ligia Camargo 3 minutos de leitura

Faz alguns anos, era impossível ler um relatório anual sem esbarrar na sigla ESG. Hoje o termo perdeu força, governos passaram a questioná-lo e um número crescente de empresas evita usá-lo.

O ESG morreu? A resposta hoje é sim, e ainda bem.

O que morreu não foi a implementação de iniciativas de sustentabilidade, mas a forma muito ampla como a sigla foi disseminada no início.

A primeira década do ESG teve um único objetivo: convencer o mercado de que clima, capital humano, diversidade, governança e cadeias produtivas não eram iniciativas “boazinhas” ou apenas uma pauta moral, eram risco financeiro.

Esse trabalho está feito. A pergunta virou outra: como incorporá-los à tomada de decisão todos os dias?

Esse amadurecimento coincidiu com uma virada macroeconômica sem paciência para discurso vago: dinheiro caro, juros altos premiando eficiência e geopolítica no centro da mesa. Num mundo mais caro e instável, promessa genérica perde espaço para execução.

Quando capital era abundante, dava para financiar iniciativas cujo principal retorno era reputacional. Hoje não. Cada projeto precisa provar que reduz risco, aumenta produtividade ou protege receita.

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O mercado parou de recompensar intenção e passou a cobrar resultado. Eficiência energética deixou de ser bandeira ambiental para virar resposta à volatilidade de preços. Gestão hídrica, rastreabilidade de fornecedores e diversidade em posições de decisão deixaram de ser só argumentos éticos. Ficaram econômicos.

A própria reação contra o ESG acelerou essa mudança. Metas vagas e uma disseminação muito ampla do termo alimentaram um ceticismo justo: greenwashing nunca foi só um problema de comunicação, foi uma distorção de incentivo, em que falar rendia mais do que praticar. 

O QUE SOBREVIVEU

Mas isso não significa que comunicar deixou de importar. Comunicar bem continua sendo parte essencial de como o mercado inteiro avança e empresas sérias seguem comunicando suas ações de sustentabilidade, porque isso também é impulsionar a agenda. 

O que muda é o rigor: menos promessa solta, mais avanço técnico concreto e mais embasamento no que se comunica. Isso não é abandono da agenda. É sua consolidação como parte do core do negócio.

As empresas que vão se destacar não serão as que publicam o relatório mais bonito ou as que lacram no melhor headline, mas sim as que operam com menos carbono, mais resiliência climática, capacidade real de atrair talento e comunicando isso com precisão, não com slogan.

O mercado parou de recompensar intenção e passou a cobrar resultado.

As transformações mais profundas raramente acontecem sob holofotes. Acontecem quando saem da pauta e viram prática. Mas silêncio não é prova de compromisso. Às vezes é prova do contrário.

A pergunta que fica não é o que morreu, é o que sobreviveu. Sobreviveram as decisões certas, tomadas pelos motivos certos, não para virar comunicação, não para ocupar holofotes. Uma decisão de investimento em sustentabilidade vale pelo que ela é, não pela narrativa que nasce dela depois. 

No fundo, é isso que a palavra sempre quis dizer: sustentar não é discursar, é garantir que algo continue de pé ao longo do tempo. A vida da empresa, os empregos que ela sustenta, a vida das pessoas que dependem dela.

ESG morreu. Ainda bem. O que sobreviveu foi exatamente o que devia sobreviver. Não o nome, mas o compromisso de sustentar.


SOBRE A AUTORA

Ligia Camargo é diretora de Sustentabilidade do Grupo Heineken. saiba mais