Tiago Trindade: “A IA não vai para a rua”
O fundador da Digital Favela acredita que a IA pode ampliar possibilidades criativas, mas defende que repertório, vivência e conexão com as comunidades continuam sendo os motores da criação

A 73ª edição do Cannes Lions, principal festival global de criatividade, marketing e comunicação, acontece entre os dias 22 e 26 de junho de 2026 em um momento em que a inteligência artificial ocupa o centro das discussões da indústria. Ao mesmo tempo em que novas tecnologias transformam a forma como marcas, agências e creators produzem conteúdo, cresce o debate sobre autenticidade, relevância cultural e conexão humana.
Confira aqui a nossa cobertura completa do Cannes Lions 2026
Para Tiago Trindade, fundador da Digital Favela, a resposta para esse desafio está fora das telas. Em entrevista à Fast Company Brasil para o especial Cannes Lions 2026, ele fala sobre comunidades, creators, periferias e explica por que o futuro da criatividade depende da combinação entre inteligência artificial e inteligência de rua.
FC Brasil - O Festival vem passando por transformações significativas para acompanhar as mudanças dos meios. Qual expectativa para os temas centrais desta edição do Cannes Lions 2026 e sua representatividade para a indústria?
Tiago Trindade - Esse é meu quarto ano em Cannes, um deles como júri e um como speaker. E cada ano, vivo um festival diferente. Acredito que 2026 vai consolidar debates que já vem crescendo em nosso dia a dia: um deles, claro o uso da IA. No meu caso, como aplicar isso na rotina dos nossos creators e entregas criativas.
Também tenho expectativa que pautas mais regionais e de entendimento de comunidades sejam debatidas e colocadas.
E, pra mim uma pauta que falo todos os dias, precisa estar em destaque, é o Impacto Criativo. Que é quando usamos a criatividade não apenas pra comunicar ou vender um produto, mas pra gerar transformação, inspirar pessoas e criar conexões verdadeiras entre marcas e sociedade.
FC Brasil - Como você enxerga a evolução da criatividade frente às ferramentas de IA generativa disponíveis hoje e até que ponto a IA é uma parceira criativa e quando ela vira risco para a originalidade e a autoria?
Tiago Trindade - Eu vejo a IA como uma grande parceira de aceleração. Ela ajuda a pesquisar, organizar, testar caminhos e ganhar velocidade.
Mas criatividade continua sendo humana.
A IA não vai pra rua. Independente de qual seja.
Ela frequenta a feira, não pega transporte público, não vive o que vivemos, não sente as mudanças culturais acontecendo a cada minuto.
O risco surge quando se coloca ao lado, um profissional criativo e uma ferramenta que não vivem a rua. O resultado é uma ideia sem verdade e identidade. Por isso acredito que o diferencial continua sendo repertório, vivência e ponto de vista.
FC Brasil - Como as agências estão requalificando equipes para operar num ecossistema com IA, dados e criatividade integrada?
Tiago Trindade - Vejo as agências e criativos investindo em novas competências ligadas à IA, dados e tecnologia, mas além de dominar ferramentas, os profissionais precisam viver o mundo fora da tela. Precisam observar como a cultura acontece na vida real.
As grandes ideias ainda nascem da observação humana, da escuta ativa e da curiosidade sobre o mundo.
O futuro é presente da criatividade está na combinação entre Inteligência Artificial e Inteligência de Rua.
E quem consegue o equilíbrio estará mais próximo das ideias que fazem diferença.
FC Brasil - As marcas estão cada vez mais exigindo vendas. Como equilibrar campanhas de performance orientadas por dados com iniciativas de brand building mais arriscadas e criativas?
Tiago Trindade - Em nosso dia a dia da Digital Favela, temos um mantra: se uma marca anunciar para a periferia e não tiver resultado, dificilmente ela volta.
E o principal resultado que grandes marcas colheram ao trabalharem com a gente, foram marcas que sustentaram a comunicação a longo prazo. É isso que gera identificação, engajamento e vendas.
É uma busca constante do equilíbrio entre criar campanhas originais e criativas se orientando com verdades, dados e insights que colhemos todos os dias.
FC Brasil - Diante da alta concentração de audiência nas big techs e o grande espaço ocupado por creators, como as agências e anunciantes podem desenvolver valor para as marcas?
Tiago Trindade - O valor está na autenticidade e na construção de comunidade.
Precisam olhar para o criador de conteúdo como alguém que construiu confiança e relevância com uma audiência. E essa confiança só existe quando há verdade.
Por isso acredito cada vez mais em creators e comunidades que usam, acreditam e se identificam com os produtos que promovem. A audiência percebe rapidamente quando uma relação é genuína ou apenas comercial.
E quando falamos de comunidade, ninguém entende mais disso do que a periferia.
A favela sempre soube criar pertencimento, conexão e influência muito antes das plataformas digitais existirem.
FC Brasil - Olhando para a próxima década, qual é a maior oportunidade e o maior risco para a indústria da comunicação?
Tiago Trindade - A maior oportunidade é usar a tecnologia para ampliar a criatividade humana e aproximar as marcas das pessoas.
O maior risco é a padronização. Todo mundo usando as mesmas ferramentas, os mesmos dados e produzindo comunicações cada vez mais parecidas.
As marcas que vão se destacar serão aquelas que conseguirem criar com verdade, construir comunidades e gerar impacto criativo. Porque, no fim, as pessoas se conectam com histórias, valores e experiências que fazem sentido pra suas vidas.
Confira aqui a nossa cobertura completa do Cannes Lions 2026.