Aquele que (não) está em Cannes

Sem dinheiro para participar do Cannes Lions, um copywriter criou um perfil no Google Maps da Croisette e transformou a ausência em uma campanha que chamou a atenção da indústria.

Ilustração mostra o copywriter Rafter Manguiat sobre um mapa de Cannes, em referência à campanha em que criou um perfil no Google Maps para divulgar seu portfólio durante o Cannes Lions.
créditos: Google Maps e magnific.com

Isabella Lura 3 minutos de leitura

Sem condições financeiras de custear a viagem e a estadia durante o evento, Rafter Manguiat, copywriter publicitário filipino que atualmente vive na Alemanha, decidiu fazer aquilo que todo criativo sabe fazer de melhor: transformar uma limitação em uma ideia. Ele criou um perfil no Google Maps para divulgar seu portfólio na Riviera Francesa.

O Cannes Lions International Festival of Creativity chegou na sua 72 edição neste ano. Considerado o "Oscar da Publicidade", o festival reúne anualmente algumas das mentes mais criativas e inovadoras da indústria para premiar e promover conexões. 

Confira aqui a cobertura completa do Cannes Lions 2026

Mas estar em Cannes não é uma realidade para todo mundo. Entre passagens, hospedagem e o valor dos ingressos, participar do festival pode custar muito mais do que jovens profissionais conseguem pagar. No caso de Manguiat, ele dividiu com a reportagem da Fast Company Brasil que o custo chega a ser três meses de salário.

UMA IDEIA NASCIDA DA LIMITAÇÃO 

Perfil criado por Rafter Manguiat no Google Maps durante o Cannes Lions.
Sem conseguir viajar para o Cannes Lions, Rafter Manguiat criou um perfil no Google Maps da Croisette para divulgar seu portfólio. Crédito: Rafter Manguiat

Rafter criou um perfil no Google Maps em plena Croisette, a avenida mais famosa do festival, com o nome The Copywriter (Not) in Cannes. Como brinca Rafter, milhares de participantes recorrem ao aplicativo para achar "o rosé mais próximo", bebida que se tornou uma grande piada interna e símbolo informal do networking do evento.

Mas o perfil ia muito além de um simples ponto no mapa. Rafter reuniu vídeos de cases desenvolvidos ao longo da carreira, projetos paralelos e um link para seu portfólio. Para reforçar a brincadeira, utilizou imagens em que aparecia inserido no Street View da Croisette, criando a impressão de que estava, tecnicamente, em Cannes. A ação foi realizada com orçamento zero. 

A motivação para isso veio de um desafio. Seu mentor, Jimmy Smith, lenda da W+K e um dos criativos por trás da icônica campanha Nike Freestyle, o incentivou a criar algo grande o suficiente para chamar a atenção da indústria. Como inspiração, relembrou o famoso Google Job Experiment, de Alec Brownstein. Na época, o redator comprou anúncios no Google para que diretores de criação de grandes agências vissem seu nome sempre que pesquisassem a si mesmos.

Rafter recriou essa lógica ao se inserir simbolicamente no Google Maps de Cannes, fazendo com que a indústria também pudesse “encontrá-lo” sem que ele precisasse estar fisicamente no festival. 

A CONQUISTA DE UM ESPAÇO

O copywriter fez uma campanha para Crédito: Rafter Manguiat

O resultado superou a brincadeira. Em apenas cinco dias, o perfil acumulou mais de 23 mil visualizações orgânicas, registrou um aumento de 1.642% nas visitas e recebeu dezenas de avaliações cinco estrelas. Entre os comentários estavam nomes de peso da indústria, como Lorenz Langgartner, diretor de criação executivo da The Drum e Shruthi Subramanian, reconhecida pela D&AD; e os vencedores do Grand Prix deste ano.

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A iniciativa também ganhou destaque no Instagram do Breaking & Entering Media, alcançando cerca de 215 mil visualizações em apenas 24 horas, além de render contatos profissionais, respostas de recrutadores e entrevistas de emprego. 

FORA DE CANNES, DENTRO DA CONVERSA 

Comentários no Google Maps do Copyyritter Rafter Manguiat em Cannes
Rafter Manguiat achou um jeito de se fazer presente na Riviera Francesa, em Cannes

Mais do que uma brincadeira, a iniciativa evidencia uma realidade da publicidade contemporânea. Os eventos mais importantes da indústria são, muitas vezes, inacessíveis justamente para os jovens profissionais que mais precisam deles para construir uma rede de contatos.

O festival acabou, e Rafter sabe que a repercussão da ação tende a diminuir com o tempo. Sem um crachá para entrar no Cannes Lions, ele encontrou outra forma de ser visto pela indústria, e lembrou que, nesse cenário, a criatividade ainda é o que conta. Uma boa ideia pode ser o que dá acesso, mesmo quando a presença física ou os recursos não estão disponíveis 


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Cásper Líbero. É. dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar ideias... saiba mais