Gabriela Borges: “A criatividade relevante continua sendo humana”

Neste pré-Cannes Lions 2026, a presidente da Publicis Brasil acredita que a inteligência artificial amplia possibilidades, mas criatividade, repertório e contexto continuam sendo diferenciais humanos.

Retrato de Gabriela Borges, presidente da Publicis Brasil, em arte gráfica da cobertura especial Cannes Lions 2026 da Fast Company Brasil.
Gabriela Borges fala sobre criatividade, inteligência artificial e construção de marca antes do Cannes Lions 2026.

Gabriela Borges 4 minutos de leitura

A 73ª edição do Cannes Lions, principal festival global de criatividade, marketing e comunicação, acontece entre os dias 22 e 26 de junho de 2026 em meio ao avanço da inteligência artificial e à transformação dos modelos de comunicação. Em um cenário marcado pela automação, pela fragmentação da atenção e pela busca por relevância cultural, cresce a discussão sobre o papel da criatividade humana na construção de marcas.

Confira aqui a nossa cobertura especial do Cannes Lions 2026

Para Gabriela Borges, presidente da Publicis Brasil, a tecnologia amplia possibilidades, mas não substitui repertório, contexto e sensibilidade. Em entrevista à Fast Company Brasil para o especial Cannes Lions 2026, ela fala sobre inteligência artificial, criatividade, construção de marca e os desafios de manter a diferenciação em um ambiente cada vez mais automatizado.

FC Brasil - O Festival vem passando por transformações significativas, para acompanhar as mudanças dos meios. Qual expectativa para os temas centrais desta edição do Cannes Lions 2026 e sua representatividade para indústria?

Gabriela Borges - O Cannes Lions vem refletindo uma mudança muito clara da nossa indústria: saímos de uma lógica centrada em canais e campanhas para um modelo muito mais conectado a negócio, cultura e tecnologia.

Para 2026, espero que alguns temas ganhem ainda mais protagonismo: o uso da inteligência artificial não apenas como ferramenta, mas como infraestrutura da comunicação; a integração entre criatividade, dados e commerce; e, principalmente, o papel das marcas na construção de relevância cultural em um cenário de excesso de conteúdo e atenção escassa.

O festival segue sendo um termômetro importante porque deixa de premiar apenas ideias criativas e passa a reconhecer soluções que geram impacto concreto — seja em comportamento, cultura ou resultado de negócio.

Leia também: Criatividade, impacto e tecnologia: quem levará o Leão de 2026?

FC Brasil - Como você enxerga a evolução da criatividade frente às ferramentas de IA generativa disponíveis hoje e até que ponto a IA é uma parceira criativa e quando ela vira risco para a originalidade e a autoria?

Gabriela Borges - A inteligência artificial já deixou de ser uma promessa e virou infraestrutura do nosso trabalho. Ela amplia a capacidade criativa, acelera processos e permite explorar territórios que antes seriam inviáveis em escala.

A IA é uma parceira quando potencializa ideias, testa caminhos e personaliza experiências. Mas, se usada de forma superficial, pode levar a uma homogeneização da criatividade.

A criatividade relevante continua sendo humana

Ela nasce da cultura, do repertório e da sensibilidade de entender o contexto. O maior risco no uso da IA em um ecossistema criativo está no uso sem intenção.

FC Brasil - Como as agências estão requalificando equipes (criativos, planners, mídia) para operar num ecossistema com IA, dados e criatividade integrada?

Gabriela Borges - As agências vivem uma das maiores transformações das últimas décadas. Hoje, não faz mais sentido pensar em disciplinas isoladas: criatividade, mídia, estratégia, etc. estão cada vez mais integradas.

Isso exige profissionais mais híbridos, com capacidade analítica, repertório cultural e entendimento de negócio.

Mais do que aprender ferramentas, o desafio é desenvolver uma mentalidade integrada e orientada a impacto real.

FC Brasil - As marcas estão cada vez mais exigindo vendas. Como equilibrar campanhas de performance orientadas por dados com iniciativas de brand building mais arriscadas e criativas?

Gabriela Borges - Não se trata de uma escolha entre performance ou marca, mas de um equilíbrio entre os dois lados.
Os dados trouxeram eficiência no curto prazo, mas marcas fortes continuam sendo o principal motor de crescimento no longo prazo.

A criatividade conecta esses mundos: ideias fortes performam melhor e constroem marca ao mesmo tempo.

FC Brasil - Diante da alta concentração de audiência nas Big Techs e o grande espaço ocupado por creators, como as agências e anunciantes podem desenvolver valor para as marcas?

Gabriela Borges - Na verdade, o que temos hoje é a dispersão das audiências a partir da proliferação das plataformas. Isso e o crescimento da creator economy mudaram a lógica da comunicação. Relevância hoje depende de contexto, linguagem e autenticidade.

Plataformas e creators são meios — o valor está na estratégia e na construção consistente de narrativa de marca.


FC Brasil - Olhando para a próxima década, qual é a maior oportunidade e o maior risco para a indústria da comunicação — e o que as marcas devem fazer hoje para se preparar?

Gabriela Borges - A maior oportunidade está na capacidade de integrar criatividade, dados e tecnologia para gerar impacto real.
O maior risco é a perda de diferenciação em um cenário de automatização e excesso de conteúdo.
As marcas que vão se destacar são aquelas que equilibram eficiência com identidade, propósito e consistência.


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