Cannes 2026 diz que a IA amadureceu. E a pergunta que fica é: amadureceu pra quê? 

Na 73ª edição do Cannes Lions, a indústria celebrou a implementação da inteligência artificial. Mas a pergunta mais importante é se ela vai ampliar a criatividade ou apenas baratear o mesmo de sempre.

Ilustração sobre IA no Cannes Lions 2026 mostra homem diante de vários caminhos, representando as escolhas da publicidade diante da inteligência artificial.
Créditos cyano66 via Getty, e magnific.com

Gabriel Borges 5 minutos de leitura

Acompanhando a edição 2026 do Festival de Cannes dá pra perceber que muitas  conversas sobre IA orbitam uma mesma frase: "a IA amadureceu, saiu da ansiedade e  entrou na implementação." Mas quando o consenso fica tão evidente assim, será que não  é justamente um motivo pra desconfiar? 

Não me entenda mal, a trégua é real e até saudável. Ano passado sobravam aquelas frases  de efeito avisando o pessoal de comunicação e marketing que a IA colocaria todo mundo  na rua, e esse ano o tom finalmente baixou. Saímos do "vão roubar nosso lugar" para um  "calma, dá pra trabalhar junto com a IA", o que é ótimo. Só que "implementação" virou a  palavra da vez do festival, e essa palavra esconde uma pergunta difícil: implementar pra  quê? 

Confira aqui a cobertura completa do Cannes Lions 2026

E quando você olha de perto, essa implementação que tanto estão falando não tem  apenas um lado. Na verdade, são três. E ninguém parece muito a fim de enxergá-los. 

PRIMEIRO MOVIMENTO: BARATEIA, MAS NÃO AMPLIA

O primeiro é o atalho. É a da estimativa que rodou o festival inteiro, de cortar até um terço  do custo de produção, e a do outdoor que recebeu os publicitários no aeroporto  prometendo montar uma campanha antes mesmo da esteira de bagagem funcionar. É a IA  pra fazer o mesmo de sempre, só que mais rápido e mais barato. E olha, não tem nada de  errado em ser mais barato, o problema é quando baratear é o fim da linha, quando a  economia toda vira margem em vez de ampliar novas possibilidades. 

SEGUNDO MOVIMENTO: LIBERANDO POSSIBILIDADES

O segundo é o alcance, e essa é a parte que me animou de verdade. Numa das falas,  alguém soltou a frase que devia ter sido manchete: o ponto não é velocidade, é acesso. Contaram de estúdios de animação que saíram de 30 segundos de trabalho pronto por dia  para três minutos e meio, e de times de cinco, seis pessoas pegando projeto que antes  nem sonhavam. Repare que a graça não está na conta de chegada, mas em quem  passou a poder entrar na sala: aquele primeiro longa que não seria financiado nunca,  agora existe. 

A gente vai usar IA para ir para longe ou para o mesmo lugar barato de sempre?

Teve até quem comparasse o momento ao começo do cinema, quando os cineastas  descobriram o close, o corte seco, o movimento de grua. A novidade não foi automatizar  o chato, foi perguntar o que antes era impossível. Percebe a diferença de tamanho? Uma ambição quer fazer o mesmo gastando menos; a outra quer fazer o que não cabia no  orçamento, no prazo, na imaginação, na capacidade de ninguém. 

TERCEIRO MOVIMENTO: A ÂNCORA QUE REVELA O QUE A MARCA REALMENTE É

E o terceiro, aquela em que quase todo mundo tropeça sem perceber, é a âncora. Quanto  mais a máquina assume o "como", mais o "o quê" e o "porquê" passam a decidir o jogo.  Ouvi de palco que a IA amplifica vozes, mas não origina nenhuma, e achei a frase  certeira, porque o tal pânico do festival com busca em IA, no fundo, era outra coisa: o  modelo lê a incoerência da sua marca de volta pro cliente, em tempo real, em público.  Quer dizer, a máquina só é tão boa quanto a verdade humana que você entrega pra ela  montar. Isso não é a tecnologia comendo o craft, é a tecnologia finalmente deixando o  craft ser a única coisa que diferencia. 

Atalho, alcance e âncora. O esperto de Cannes não é quem usou a IA pra entregar a  mesma peça correndo, é quem usou com bom senso e honestidade pra ir até onde os  recursos, humanos, financeiros, de tempo, simplesmente não alcançavam, e fez isso sem  soltar a mão do que faz aquilo ser dele. 

OPENAI VS ANTHROPIC: DUAS CASAS, DUAS AMBIÇÕES

Claro que nem tudo é poesia, e a própria estrela da festa veio defender o atalho em escala  industrial. A OpenAI desembarcou pela primeira vez em Cannes, numa villa no porto,  vendendo anúncio dentro da resposta do ChatGPT e lembrando que boa parte das  perguntas ali já chega com intenção de compra. Vale a menção honrosa ao porquê da  pressa: tem um IPO no horizonte, e um negócio de anúncios bilionário precisa nascer  antes dele. Nada mais legítimo. 

Só que, do lado oposto do mesmo tabuleiro, a Anthropic (a do Claude, queridinho do  momento) fez o movimento mais interessante e bem mais quieto, aparecendo com  presença mínima e plantando bandeira justamente no que escolheu não fazer, a ponto de  tirar sarro disso no intervalo do Super Bowl pra cravar que não bota anúncio dentro da IA.  

Duas casas de IA, duas posturas: uma correndo pra monetizar a atenção, a outra fazendo  questão de dizer onde não vai. E achei revelador que a mais ambiciosa, no bom sentido,  tenha sido justamente a que recusou o atalho mais óbvio. 

ENTRE ANSIEDADE, AMBIÇÃO E ACOMODAÇÃO

No fim, fico com a sensação de que Cannes 2026 não foi o ano em que a IA saiu da  ansiedade para a implementação. Foi o ano em que ela podia ter saído da ansiedade  para a ambição, e boa parte da indústria parou no meio do caminho, satisfeita em  fazer o de sempre custando menos. 

A máquina vai longe, isso já deu pra ver. A pergunta que sobra, e que eu devolvo pra você, é  mais humana do que técnica: a gente vai usar tudo isso pra ir mais longe, ou só pra  chegar mais barato no mesmo lugar de sempre?


SOBRE O AUTOR

Gabriel Borges, o GB, é co-fundador da agência de comunicação Ampfy e entusiasta da interseção entre tecnologia, negócios e comportame... saiba mais