O algoritmo tem alma?
O que a IA busca aprender com o mercado de beleza e bens de consumo em Cannes, explica a head de vendas do Google, Patrícia Moreira

A última vez que pisei na Riviera Francesa para o Cannes Lions foi em 2014. Naquela época, o festival vivia uma efervescência tecnológica marcante: o Innovation Lions completava seu primeiro ano, sinalizando uma mudança de era onde a tecnologia e a utilidade real passavam a ser o centro da criatividade. Começávamos ali uma onda profunda de transformação digital, inteiramente baseada em colocar as necessidades reais do cliente no centro de tudo.
Leia aqui a nossa cobertura completa do Cannes Lions 2026
Doze anos depois, estou de malas prontas para retornar. Mas, desta vez, o crachá mudou: volto como líder das verticais de Home, Personal Care, Beleza e Moda no Google. E o paralelo entre aquele início de transformação em 2014 e o cenário atual não poderia ser mais fascinante.
Aquela obsessão pelo cliente que começou a redesenhar o mercado há uma década hoje atinge sua maturidade máxima no varejo e no ecossistema de beleza. De um lado, vemos o amadurecimento de marcas nativas digitais — como a e.l.f. Beauty nos palcos de Cannes este ano, ou marcas brasileiras como WePink e Principia —, que trouxeram novos estímulos de agilidade e comunidade para o setor. De outro, assistimos à impressionante evolução das grandes potências globais e nacionais — gigantes consolidadas que não apenas abraçaram a digitalização, mas elevaram o patamar do mercado ao unir essa agilidade tecnológica à força de seus legados, poder de escala e compromisso com a sustentabilidade.
Se em 2014 falávamos em usar o digital para iniciar uma transformação, em 2026 o grande espetáculo está em ver como todo o ecossistema de bens de consumo — das potências consagradas às marcas nativas — está operando na velocidade da cultura, agora potencializado pela inteligência artificial (IA).
Nas minhas verticais, as expectativas para os debates deste ano giram em torno dessa coexistência saudável e inovadora:
- Agilidade e Escala na velocidade do algoritmo: O mercado de beleza aprendeu a ouvir as comunidades em tempo real. Minha expectativa em Cannes é ver como a IA generativa está ajudando tanto marcas nativas quanto os grandes portfólios globais a acelerar o ciclo de inovação, mantendo a profundidade de pesquisa e a segurança que o consumidor exige.
- A Hiperpersonalização como Novo Padrão: Moda e beleza são extensões da nossa identidade. O debate deste ano precisa ir além do e-commerce transacional. Quero acompanhar como as marcas estão usando dados para criar experiências inclusivas e preditivas que entendem a diversidade de tons de pele, tipos de cabelo e desejos de quem compra, respeitando a singularidade de cada indivíduo.
- Eficiência com Impacto em Home & Personal Care: Em cuidados com a casa e cuidados pessoais, buscamos ritual, conveniência e, acima de tudo, responsabilidade social e ambiental. O marketing aqui migra para a utilidade pura — resgatando o espírito original daquele Innovation Lions de 2014: como a tecnologia pode tirar fricções do dia a dia e gerar impacto positivo para as pessoas e para o planeta?
Voltar a Cannes sob a lente da Fast Company e do Google é o privilégio de observar a história do marketing se desdobrar em ciclos. Em 2014, o desafio era digitalizar os negócios. Em 2026, o jogo mudou: a liderança pertencerá a quem souber usar a Inteligência Artificial não apenas como ferramenta de eficiência, mas como co-piloto da criatividade e da empatia em escala, transformando dados e legado em conexão humana real.
A cobertura está só começando. Nos vemos no Palais!