POR FRANÇOISE TERZIAN

Daqui para frente, o horizonte aponta para bancos digitais superespecializados. E isso não significa que a briga se dará apenas entre as fintechs puras, mas de entrantes de fora desse setor, com base grande de clientes e relacionamento duradouro, como varejistas, empresas de telefonia e de tecnologia que estão começando a distribuir serviços e produtos financeiros.

Com a premissa de querer ser o banco digital dos restaurantes, o iFood, delivery online de comida com 44,6 milhões de pedidos por mês, lançou no ano passado uma conta digital gratuita para os donos de 236 mil casas cadastradas em sua plataforma. “Eles têm essa lacuna hiperespecializada onde conseguem crescer muito. Afinal, o restaurante, depende muito do serviço do iFood, principalmente com a pandemia, para escoar refeições via delivery”, analisa Bruno Diniz, co-fundador da Spiralem.

O problema: muitos desses pequenos e médios restaurantes têm dificuldades para acessar crédito, por exemplo. E é aí que o iFood entra com sua conta digital desenvolvida pela MovilePay, fintech do Grupo Movile (investidor do iFood), que reúne diversos serviços em uma única carteira – operações bancárias, de crédito e adquirência (oferta de POS e pagamento via QR Code). Além disso, será possível realizar transações via PIX. E os planos do iFood não param por aí. A empresa já antecipou que pretende oferecer outros serviços financeiros para esses estabelecimentos.

Combinar o produto principal a serviços financeiros é algo muito poderoso hoje. O caminho da oferta financeira com a não financeira é a estratégia que deve mover muitas fintechs a partir de agora. “Se o iFood chegar e falar que te dá um desconto na taxa cobrada pelo serviço de delivery se você movimentar sua vida financeira com eles, esse argumento já trará muito apelo a muito restaurante”, prevê Diniz.

Também no ano passado, a Claro lançou o Claro Pay, app de serviços financeiros que dá acesso a uma conta digital e permite fazer de pagamentos a recargas de celular. O lançamento já teve oferta de bônus aos clientes. A TIM também fez uma parceria estratégica com o C6 Bank, o que marcou a entrada da operadora na oferta de serviços financeiro no Brasil. O objetivo é atingir os 55 milhões de usuários da operadora.

Diferentemente dos gigantes voltados ao B2C, o nicho tem trazido cada vez mais gente para esse universo. Outros exemplos são a Target Conta Digital, que se intitula “o banco na boleia” e é voltado para caminhoneiros. E o Donus, conta digital dos bares gratuita da Ambev, que oferece cartão de débito sem anuidade e maquininha com repasse em até um dia. Hoje, a fabricante de bebidas atende 700 mil estabelecimentos pelo país. Uma parte desses de pequenos e médios bares e restaurantes também não têm conta bancária e nem cartão. Com o Donus, a Ambev chega em áreas nas quais os bancos não conseguem penetrar.

Outra tendência, aponta Diniz, é a das de fintechs invisíveis, aquelas voltadas à infraestrutura como open banking. Elas atuam como facilitadoras para que outras empresas ingressem em novos ramos com sua ajuda. Na mira dos fundos de venture capital, muitas delas já receberam aportes, como é o caso do FitBank, que atua como banking as a service e atraiu o JP Morgan.

Outro exemplo é a Conductor, plataforma especializada em meios de pagamento e banking as a service. Por meio de uma infraestrutura de APIs aberta, ela atende as principais fintechs, bancos e varejistas a partir da criação de bancos digitais.”Prover capacidade para que outras empresas possam atuar no mercado financeiro também é um ambiente muito quente”, avalia Diniz.

SOBRE A AUTORA

Françoise Terzian é jornalista especializada em negócios e colaboradora da Fast Company Brasil