Lá no longínquo ano de 2008, três belo-horizontinos criaram uma startup que pretendia ganhar a estatura de um PayPal. Era a Moip, fundada por Igor Senra, Daniel Fonseca e Leonardo Mendes.

Na época, eles perceberam que, ao contrário de outros mercados, a internet não estava ajudando os pequenos e médios comércios a ganharem mais penetração. As transações online exigiam dezenas de contrato, três integrações de tecnologia e conta em seis bancos.

Decidiram, então, focar no mercado de pagamentos online com foco nos pequenos negócios. E, ao longo dos anos, acompanharam a expansão de startups como Enjoei, entre muitas outras. “Aí o propósito encontrou a gente, vimos que não tínhamos de ser o PayPal, mas ajudar essas empresas a irem para a frente”, diz Igor Senra, CEO da Cora.

Em 2016, o acionista majoritário da empresa decidiu vender a Moip para a companhia alemã por R$ 165 milhões. Mesmo depois, os fundadores continuaram no dia a dia do negócio, mas aos poucos perceberam que o foco nas PMEs era algo que ocorria somente no Brasil: era chegada a hora de o país seguir os outros mercados e perseguir companhias de grande porte.

No final de 2018, eles deixaram a empresa e começaram a pensar qual seria o próximo passo, mas ainda com as PMEs em mente. O cenário de meios de pagamento mudara muito em uma década: de quatro players o segmento já contava com mais de 400.

Foi ali que nasceram os primeiros esboços da Cora. Inspirados por três dos 17 objetivos da ODS (Objetivos de Desenvolvimento Sustentável) da ONU – trabalho decente, crescimento sustentável e infraestrutura – encontraram respaldo para criar um serviço financeiro que desse acesso a crédito para startups e empresas de médio porte.

“Diferentemente de outros lugares do mundo, o Brasil tem uma despesa administrativa muito maior. Nossa intenção foi criar um produto baseado em tecnologia, que dispensasse agência e excedentes de custo. E, assim, os bancos se viriam obrigados a reduzir as margens deles”, conta Senra.

E, ao mesmo tempo, eles queriam ajudar os clientes a crescer para, em dez anos, aumentar o PIB per capita do Brasil de US$ 15 mil para US$ 21 mil.

No início, o foco da startup estava nos advogados, contadores e prestadores de serviços para outras empresas. A partir daí começaram a construir um produto para esses profissionais que recebiam via transferência ou boleto.

Hoje, o banco digital oferece, além de conta digital e cartão de débito, ferramentas de gestão para os empreendedores, fruto de uma integração com empresas de contabilidade digital e softwares de gestão como Qipu e Agilize.

Em maio, a fintech lançou o PIX Cobrança, uma modalidade para PJs que funciona como uma espécie de boleto bancário por meio de QR Code, que permite adicionar informações como multas, juros e descontos. A empresa também lançou um boleto híbrido, que traz o QR Code no documento.

“O PIX é uma das ferramentas do Banco Central para aumentar a competitividade do segmento, pois ainda existe um monopólio de informação muito grande”, comenta Senra.

Na avaliação do executivo, as mudanças por vir com o open banking é positiva para a criação de um legado por parte das fintechs. “Se a gente considerar a indústria bancária como um jogo de xadrez, a conta bancária é o tabuleiro. Cada serviço do banco é uma peça. Agora, o banco que tem todas as peças está sendo pressionados em cada uma das linhas de serviços. Crédito imobiliário, crédito consignado, existem fintechs que estão focadas em cada um desses verticais, se tornando cada vez melhores”, avalia.

Atualmente, a Cora atende mais de 99 mil clientes. Em abril de 2019, recebeu um aporte de US$ 10 milhões na fase seed, comandado pela Kaszek Ventures. Em abril deste ano, veio o aporte de R$ 150 milhões em Series A, liderado pelo Ribbit Capital.

“Temos três indicadores que medem a qualidade do nosso atendimento: notas de NPS, clientes ativos e retenção”, comenta Senra. Prestadores de serviços de saúde e corretoras de imóveis também são segmentos de clientes que estão compondo o mix de clientes da fintech.

Com os aportes, o plano é melhorar a experiência para esses nichos de clientes e impulsionar, até o final do ano, a concssão de crédito, que hoje está em fase piloto.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.