POR ROBERTO DE LIRA

Nem é preciso procurar muito. Basta digitar a expressão “educação financeira” em qualquer busca na internet para trombar com os mais diversos (às vezes controversos) conteúdos sobre o tema. Blogs, influencers, sites de grandes bancos e corretoras, fintechs, sites noticiosos, associações de classe, empresas varejistas e aplicativos de fintechs de crédito e de pagamentos explodem na tela do computador, oferecendo desde planilhas de controle de receitas e despesas, passando por dicas dos ativos do momento até promessas de como ficar milionário.

Em meio a tanta informação, como escolher a melhor? O educador financeiro Leandro Benincá, que foi CEO do aplicativo Organizze, reconhece que é um problema um leigo se localizar nesse ambiente, especialmente porque algumas dicas são conflitantes. “É bom sempre se perguntar o que o especialista está ganhando para falar aquilo. Ele pode estar ganhando com o seu prejuízo”, alerta Benincá, lembrando da existência de opções binárias no mercado, instrumentos que podem trazer ganhos até para ativos em queda.

Ele também sugere que o interessado procure a verdade dos fatos, uma vez que histórias sobre “como atingir o sucesso” se multiplicam. “É bom verificar se as histórias que as pessoas contam são reais, saber se a pessoa faz o que ela fala, como aplica os ensinamentos na vida dela”, explica. Quem ouve esse conselho se lembra imediatamente do “caso Bettina”, influencer que num vídeo da Empiricus alegou ter começado com um investimento de R$ 1,5 mil e ter acumulado mais de R $1 milhão três anos depois.

A terceira dica básica, segundo o educador, é observar se a pessoa está pedindo calma e paciência. “O mercado financeiro está aí há muito tempo. A Bolsa não vai quebrar, a ação não vai fugir. Pode existir uma outra oportunidade”, afirma.

A preocupação com o nível de conhecimento faz sentido. Uma pesquisa global da Standard & Poor’s de 2015 feita em 140 países colocou os brasileiro numa nada honrosa 74ª posição em educação financeira. Apenas 28% dos entrevistados responderam corretamente perguntas básicas sobre inflação, juros simples e composto e diversificação de investimentos. A média de respostas certas nas economias mais avançadas, como Canadá, Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido e Japão, chega a 55%.

Dois anos depois, em 2017, a empresa de informações de crédito Boa Vista Serviços, havia feito um estudo no Brasil e apurou que 34% dos consumidores reconheciam não ter controle de seus ganhos e gastos. E que 46% dos que admitiam ter procurado informações desse tipo recorreram a sites específicos sobre educação financeira.

Um artigo de dois especialistas da própria Boa Vista traçou um panorama histórico da educação financeira no Brasil. Segundo Fernando Cosenza Araújo e Flavio Estevez Calife, o tema passou por três fases no país. Na primeira, quando o Brasil enfrentava seu período de hiperinflação, as orientações financeiras eram direcionadas para consumidores com renda disponível, preocupados principalmente com o destino de seus investimentos. Na segunda, que começou logo após a estabilidade monetária conquistada com o Plano Real, o consumo passou a ser peça-chave do crescimento do país e o maior símbolo de ascensão social. A maior oferta de crédito levou então à alta no endividamento e da inadimplência, tornando a educação financeira numa ferramenta de socorro aos endividados. Estaríamos então, segundo os autores, entrando numa terceira fase, quando há uma preocupação com o planejamento como caminho sustentável para a prosperidade.

A maneira de chegar ao consumidor é similar em vários canais, mas a eficácia nem tanto. O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) e o Guia dos Bancos Responsáveis (GBR) divulgaram no final do ano passado um estudo mostrando que tanto os bancos tradicionais, como Bradesco, Itaú e Santander, quanto os digitais (Nubank e Original, por exemplo) possuem ferramentas de educação financeira como blogs, cartilhas, newsletters, vídeos, workshops e cursos presenciais e online.

No entanto, nem nos bancões, nem nas fintechs os consumidores têm o costume de acessar essas áreas. Nos dois casos, as respostas negativas chegaram a 75%. E existe uma desconfiança de que esses conteúdos sirvam mais como iscas para oferecer mais crédito.

Será uma questão de formato e de narrativas modernas? Iniciativas diferentes e mais interativas têm surgido (pelo menos) desde 2015. A jornalista Nathalia Arcuri lançou o blog MePoupe, que depois se estendeu para várias redes sociais. O canal do Youtube tem mais 5,9 milhões de inscritos. Nos vídeos, Nathalia aparece muitas vezes com uma colher de pau na mão e dá conselhos sobre como economizar no dia a dia, como empreender, e como gerenciar o dinheiro a ponto de poder fazer aplicações no mercado financeiro. O MePoupe teve até um reality transmitido pela Band, no qual pessoas endividadas recebiam orientação para mudar suas vidas.

Benincá, que hoje presta serviços também para a corretora Messem, possui um canal no Instagram com quase 50 mil seguidores e lançou uma comunidade chamada Um a Menos na Poupança que já tem mais de 700 alunos inscritos. Ele afirma que só consegue fazer conteúdo a partir de suas próprias experiências. “Eu conto o que eu fiz e eu já fiz muita besteira. Daí, cito as alternativas. Prefiro ensinar pela experiência”.

Bancos, corretoras e fornecedoras de crédito nascidas no ambiente digital apostam muito na linha de “mais conhecimento, melhores investidores”. Aplicativos de carteiras digitais têm a vantagem de mostrar o saldo das contas na primeira tela e possuem “alertas” de risco para as despesas.

A Warren foi além e optou por criar um núcleo só para a educação financeira e criou até um glossário em seu blog para ajudar. “Consideramos o dinheiro como uma jornada. As melhores decisões financeiras começam pelo conhecimento. E as pessoas não têm essa informação na escola ou até no primeiro emprego. No primeiro salário que recebem, não entendem nem como pagar uma conta”, relata Tiago Kaplan, diretor da Warren Educação. A Warren oferece cursos de “desintoxicação financeira” muito baseados em ensinamentos do livro “Papo de Grana”, escrito por seu fundador, Tito Gusmão.

A fintech Neon, por sua vez, é divulgadora e incentivadora do Desafio das 52 semanas, criado no Facebook em 2013 por uma despachante norte-americana que não conseguia guardar dinheiro nem para emergências. O desafio consiste em depositar numa conta bancária ou de poupança um valor correspondente a cada semana do ano. Seria US$ 1 na primeira semana, US$ 2 na segunda, até chegar aos US$ 52 na última semana do ano. Ao final, o poupador teria US$ 1,378 mil na conta. O princípio vale para qualquer unidade monetária, incluindo o real. “Isso ensina a investir com recorrência. Temos pessoas orgulhosas postando em redes sociais e queremos deixar isso mais visível no app”, revela o diretor de Produtos, Daniel Mazini.

Na Creditas, há um esforço no sentido de ensinar a tomada de crédito responsável e consciente, afirma Otávio Machado, business partner e coordenador de Cultura e Desenvolvimento. “O crédito não é um fim, mas uma ferramenta para concretizar algo que se almeja”, defende. A fintech tem um canal específico no site chamado de Exponencial, com newsletter e oferta de planilhas, entre outros conteúdos.

SOBRE O AUTOR

Roberto de Lira é jornalista e colaborador da Fast Company Brasil