POR FRANÇOISE TERZIAN

Cerca de sete anos depois do nascimento do NuBank, a maior fintech do Brasil e da América Latina, o país vive hoje uma nova, mais madura e agressiva onda. Todos querem, de alguma forma, abocanhar uma fatia desse bilionário bolo inicialmente formado por empresas tecnológicas voltadas ao mercado financeiro. Quem ainda não é uma fintech, quer ser ou ter uma.

Ex-diretores de instituições financeiras, jovens gênios do universo da tecnologia, bancos tradicionais, varejistas do mundo físico e virtual, apps de transporte e de delivery de comida, utilities de gás e energia elétrica, operadoras de telecomunicações e até mesmo fabricantes de cerveja. Quem não parte para a aquisição, tem investido na criação de um braço de fintech dentro de casa. Do iFood à Ambev, da Claro e da TIM à Cosan, dentre tantas outras.

Esse interesse é justificável. Pode ainda parecer estranho para algumas pessoas, mas o próximo banco digital que muitos começarão a usar poderá ser de um varejista. Afinal, as barreiras de entrada no mercado financeiro literalmente caíram. O cenário anda tão movimentado e concorrido que os especialistas brincam existir, literalmente, uma fintech a cada esquina. O último levantamento apontava para 800 fintechs em operação em solo nacional, mas esse número não para de crescer.

A maioria das fintechs enfrenta exatamente os mesmos desafios: ganho de eficiência e rentabilização do negócio. “Nunca foi tão fácil montar um banco digital. Mas essa facilidade não significa que o negócio será perene”, alerta Bruno Diniz, co-fundador da Spiralem (empresa de consultoria focada em inovação para o mercado financeiro) e professor de fintech na FGV e no MBA da Universidade de São Paulo (USP). Em uma espécie de seleção natural feita pelo próprio mercado, o cenário agora é outro se comparado há sete anos.

“Fintech deixou de ser um negócio apenas de pequenos idealistas. Nesse mercado que só cresce, o que se vê é a entrada e o avanço dos tubarões”, avisa Luis Ruivo, sócio líder de consultoria para serviços financeiros da PwC. Até porque, ao contrário do que se pensa, não é tão fácil ganhar dinheiro com serviços financeiros. É preciso engajar o cliente e ter muita escala.

Para Chen Weichi, sócio de Consultoria em Transformação Digital e Inovação da EY, o mercado brasileiro sai agora do formato das fintechs puras de pagamento, em saturação, para agregar novos produtos e serviços.

FUSÕES E AQUISIÇÕES

Depois de um ano de captação recorde para as fintechs brasileiras em 2020 (de acordo com o Inside Fintech Report, do Distrito Dataminer), ganha força a tese de que 2021 também será marcado por uma sequência de fusões e aquisições. “Vai ter consolidação. Ser monoproduto é muito bom para começar e surpreender, mas é difícil rentabilizar”, diz Weichi.

O ano de 2020 rendeu aportes de mais de US$ 1,9 bilhão para as startups do segmento financeiro. No campo das fusões e aquisições, ocorreram movimentos como a aquisição da Antecipa e da Fliper pela XP, a compra da Easyinvest pelo Nubank e da Hub Prepaid pela Magazine Luiza.

Em março deste ano, a Geru e a Rebel anunciaram uma fusão, originando a Open Co, maior fintech de crédito pessoal sem garantia do país. A operação recebeu, no mesmo mês, um aporte de R$ 150 milhões em rodada comandada pelo IFC (International Finance Corporation) e pelo Goldman Sachs.

O DESAFIO DA EXPERIÊNCIA PERSONALIZADA

Quantos apps de pagamento você tem no celular? Quantos você se lembra de usar? “Uma hora ele vai se tornar esquecido, até porque não tem custo”, afirma Weichi. Agora, ao multiplicar por milhões de usuários, ele questiona quantos, efetivamente, acessam a carteira por mês. Não adianta acessar uma única vez.

A pandemia, conta ele, pôs um freio no dinheiro que estava indo fácil para as fintechs. Antes da Covid-19, há quem dissesse que nem ousava comprar uma fintech dados os valores exorbitantes dos negócios. Hoje, muitas valem bem menos que antes. E é aí que as grandes permanecerão e as pequenas, com problemas de caixa, começarão a buscar saídas para resolver seus problemas financeiros.

É sabido que o que gera rentabilidade é engajar o cliente. “Tem como se esquecer do WeChat?”, questiona. O serviço multiplataforma da chinesa Tencent com mais de 1 bilhão de usuários combina serviço de mensageria, redes sociais, pagamento, compras e também namoro. Ele é tudo e, graças à chuva de dados do usuário, consegue ir além e personalizar ofertas e uma boa experiência.

SOBRE A AUTORA

Françoise Terzian é jornalista especializada em negócios e colaboradora da Fast Company Brasil