São inúmeros os debates e previsões sobre quando e como as máquinas substituirão o trabalho humano. No entanto, existem outras questões latentes no presente que precisam ser avaliadas: quantos trabalhos humanos são realizados a serviço da tecnologia e são invisibilizados? E qual o papel dos usuários no uso de apps e plataformas: são consumidores ou trabalham para as tecnologias?

Esses questionamentos, somados ao contexto da desigualdade do mercado de trabalho no Brasil, foram os pontos de partida para o estudo “Tecnologias da Esperança”, realizado pelo GNT em parceria com a Inesplorato. Ao olhar para a relação com o trabalho ao longo da história, a pesquisa ouviu nomes como o líder indígena Ailton Krenak e Nelsa Nespolo, criadora da Cooperativa Têxtil Justa Trama, com o intuito de mapear caminhos possíveis para relações mais humanas, igualitárias e equilibradas com o trabalho.

“O Brasil é um país muito desigual e a relação histórica humana com o trabalho é muito diversa. Na pandemia pudemos perceber ainda mais essa diferença, quando muitas pessoas não tinham nem sequer a escolha de fazer ou não home office e precisavam sair de casa para trabalhar”, afirma Iara Poppe, especialista de marketing do GNT. Ela acrescenta que, quando se fala de trabalho no país, o estudo considera as transformações digitais, mas não adianta mudar as plataformas sem questionar mentalidades e comportamentos.

O SIGNIFICADO DO TRABALHO AO LONGO DA HISTÓRIA

O estudo relembra que o trabalho já foi sinônimo de punição e, com a Reforma Protestante, ganhou status de salvação. Foi somente a partir da Revolução Industrial que o trabalho ganhou a conotação de carreira. Em meados da década de 1960, o trabalho passou a ter a camada de amadorização e, com a Revolução Digital, começou a carregar o acúmulo de funções.

E é aí que entra a noção da ‘plataformização’: a promessa do tempo flexível e da liberdade em relação a um patrão, mas que também pode evidenciar relações de precarização do trabalho, muitas vezes absorvidas sem questionamentos e por questões de sobrevivência. Além dessa flexibilização, o estudo chama atenção para a sobrecarga de funções das mulheres, que se agravou ainda mais com a pandemia, e para a automação, que exige um olhar para as micro tarefas feitas por humanos no mundo dos algoritmos, para que não se repita a lógica de trabalhos precarizados do passado.

TECNOLOGIAS HUMANAS

Iara comenta que o estudo buscou expandir a compreensão de que tecnologia não é apenas o aplicativo ou o celular, mas também caminho, solução humana e processo. “Solidariedade e cooperação são tecnologias. Filosofias e conhecimentos ancestrais são tecnologias. Relações mais sustentáveis do humano com a natureza – e humano também é natureza – são tecnologias. Por meio delas podemos aprender, reaprender e compartilhar. São elas que, em momentos tão complicados, nos dão esperança e nos fazem agir, sair da inércia e entender que o futuro não é um lugar dado, ele depende das escolhas que fazemos no presente. Portanto, temos papel ativo na construção desse futuro que desejamos”, comenta.

Em um sentido mais macro da palavra tecnologia, a pesquisa aponta quais são as seis ‘Tecnologias da Esperança’:

Tecnologias Solidárias: no cooperativismo, o trabalhador se reconecta com o fruto do seu trabalho;

Tecnologias Periféricas: capacidade das comunidades em inovar e criar alternativas internas próprias para sobreviver e se desenvolverem;

Algoritmos para Pessoas: desmistificar o imaginário sobre algoritmos, visibilizar e combater práticas injustas, transformar a dinâmica de quem utiliza e quem ganha com eles;

Capitalismo das Partes Interessadas: a luta por mais equidade de gênero, raça, e classe diretamente atreladas às decisões de negócio;

Tecnologias Ancestrais: conhecimentos contra-hegemônicos para combater a manutenção do racismo.

Bem-Viver: termo que designa uma nova era geológica, que aprende com os povos originários e renova a relação com o planeta, visando a própria sobrevivência humana.

A íntegra do estudo está disponível na Plataforma Gente. O material será transformado em documentário, com previsão de lançamento ainda este ano.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.