A infância não cabe no expediente

Talvez a pergunta deste mês das crianças seja o que estamos dispostos a garantir a elas: tempo, segurança, espaços para brincar e adultos presentes

crianças precisam da atenção e do tempo dos adultos
Créditos: Valerii Evlakhov/ Z A C/ Adobe Stock

Luana Aquino 2 minutos de leitura
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Discutir o futuro do trabalho exige olhar para além da produtividade. Em uma sociedade que transforma tempo em desempenho, a infância revela uma questão essencial: que condições estamos criando para viver, cuidar e conviver?

Perto dos “enta”, tenho assistido à infância da minha filha enquanto reencontro pedaços da minha. Dobrar papel, preparar receitas sem compromisso com o resultado ou observar uma formiga são experiências que não precisam gerar entregas. Mas esses momentos dependem de tempo, rede de apoio, jornadas compatíveis com a vida e espaços públicos acessíveis.

A infância também é uma questão urbana. Calçadas seguras, praças e áreas verdes determinam se as crianças podem explorar a cidade ou se suas experiências ficam restritas a ambientes privados. Em 2024, a ONU estabeleceu 11 de junho como o Dia Internacional do Brincar, reconhecendo a importância dessa experiência para o desenvolvimento infantil.

O cuidado também tem consequências econômicas. O estudo "Motherhood penalty: The Brazilian peculiarity" (A punição da maternidade: a peculiaridade brasileira, em tradução livre), publicado em 2024 na revista "Social Sciences & Humanities Open", estimou perdas salariais de aproximadamente 25% para mães de crianças na primeira infância e 10% quando os filhos já estão em idade escolar.

A maternidade, portanto, também expõe desigualdades na organização do trabalho e na distribuição das responsabilidades de cuidado.

A tecnologia acrescenta outra camada. Segundo a pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, 92% dos brasileiros de nove a 17 anos utilizaram a internet nos três meses anteriores ao levantamento.

Mão adulta segura a mão de uma criança diante de uma cadeira branca e elementos coloridos.
Créditos: Getty Images, Unsplash

Em pesquisa com quase 280 mil adolescentes de 44 países e regiões, a Organização Mundial da Saúde identificou aumento nos sinais de uso problemático de redes sociais: de 7%, em 2018, para 11%, em 2022.

Os dados não tornam toda experiência digital prejudicial, mas reforçam a importância de garantir alternativas de convivência fora das telas.

No debate sobre inteligência artificial, automação e flexibilidade, a pergunta não deveria ser apenas quanto tempo economizamos, mas o que faremos com ele. Sem mudanças na cultura organizacional, a eficiência pode gerar mais metas e disponibilidade permanente, em vez de ampliar a autonomia.

Cidades inovadoras e empresas modernas precisam considerar as necessidades de quem vive, trabalha e cuida. Isso significa investir em espaços públicos seguros, políticas de cuidado e jornadas que respeitem a vida além do expediente.

Leia mais: Maternidade e o mito do equilíbrio entre vida pessoal e profissional

Talvez a pergunta deste mês das crianças não seja o que vamos oferecer a elas, mas o que estamos dispostos a garantir: tempo, segurança, espaços para brincar e adultos presentes?

A infância não é apenas preparação para o futuro. Crianças têm direitos no presente. Garantir condições para que vivam plenamente essa etapa é responsabilidade das cidades, das empresas e de toda a sociedade.


SOBRE A AUTORA

Luana Aquino é jornalista e head de comunicação do STATE, com experiência em impresso, digital e TV. Atua na construção de marcas com ... saiba mais