Como a lógica masculina ainda predomina nas empresas
Menstruação, menopausa, andropausa e envelhecimento deixaram de ser tabu nas empresas e revelam a necessidade de repensar jornadas, inclusão e sustentabilidade no trabalho

Nos últimos anos, palavras que antes não tinham lugar nas conversas do ambiente de trabalho passaram a fazer parte das agendas de RH: menstruação, endometriose, perimenopausa, menopausa, câncer de mama e, mais lentamente, andropausa masculina ou câncer de próstata.
Essas não são tendências passageiras. Elas sinalizam uma mudança profunda na forma como entendemos o trabalho e as pessoas que o realizam.
Durante décadas, o trabalho foi estruturado em torno de uma ficção, a do trabalhador “neutro”, um indivíduo abstrato presumido como totalmente disponível, consistente, racional e imune às limitações físicas.
Mas essa neutralidade nunca foi real. Como Caroline Criado Perez demonstrou em seu brilhante livro Mulheres Invisíveis, muitos sistemas e ambientes foram projetados considerando o corpo masculino como padrão.
E isso inclui os locais de trabalho. Consequentemente, a expectativa implícita é que as mulheres se adaptem a um modelo que nunca foi concebido para elas, às estruturas organizacionais, bem como às ferramentas e equipamentos.
No entanto, as pessoas não deixam seus corpos na porta ao entrarem no ambiente de trabalho. Ciclos hormonais, gravidez, recuperação pós-parto, menopausa e andropausa não são questões “privadas” sem consequências profissionais.
Elas afetam os níveis de energia, a carga cognitiva, a disponibilidade e, às vezes, as trajetórias de carreira a longo prazo. Sua invisibilidade histórica teve um custo enorme (embora amplamente ignorado) tanto para os indivíduos quanto para as organizações.
SAÚDE, GÊNERO E REALIDADE SOCIAL
É fundamental observar que a saúde sob a perspectiva de gênero não se resume apenas a diferenças biológicas. Ela também revela a própria estrutura do trabalho.
As mulheres, por exemplo, apresentam taxas mais elevadas de distúrbios musculoesqueléticos, em parte porque estão sobrerrepresentadas em trabalhos repetitivos e são mais propensas a assumir uma parcela desproporcional de trabalho doméstico e de cuidados não remunerados.
O trabalho nunca é vivenciado isoladamente. Ele está inserido na vida real, com o acúmulo de fadiga, limitações e vulnerabilidades. Nesse sentido, a saúde sob a perspectiva de gênero situa-se na interseção entre a biologia e a sociologia do trabalho.
TABUS PERSISTENTES
Os tabus estão mudando aos poucos. Menstruação, endometriose e menopausa estão mais visíveis no debate público do que há uma década. No entanto, em muitas organizações, o silêncio ainda é a norma.
Muitas mulheres continuam cautelosas em falar abertamente sobre o assunto, plenamente conscientes do risco de serem reduzidas a estereótipos sexistas.
Os temas masculinos são tão invisíveis, senão mais. A andropausa, ou seja, o declínio gradual da testosterona associado ao envelhecimento, é menos reconhecida socialmente do que a menopausa.
Sua invisibilidade reforça o mito de que apenas os corpos das mulheres são um “problema”. Na realidade, o envelhecimento afeta a todos. À medida que a força de trabalho envelhece e as carreiras se estendem, as organizações se deparam cada vez mais com trajetórias de saúde mais diversas, desiguais e não lineares.
Existe uma tensão estrutural aqui. Reconhecer a saúde sob a perspectiva de gênero pode desencadear consequências não intencionais.
Pode reforçar preconceitos ao retratar as mulheres como menos estáveis. Em alguns casos, mesmo políticas bem elaboradas — como licença para endometriose ou perda gestacional – são subutilizadas porque os funcionários temem o estigma. Em culturas que permanecem implicitamente sexistas, os direitos formais não se traduzem automaticamente em uso efetivo.
UMA ABORDAGEM MAIS UNIVERSAL
É por isso que uma abordagem puramente baseada em categorias tem suas limitações. Uma perspectiva mais eficaz pode ser uma abordagem mais universal da vulnerabilidade.
Em vez de segmentar os trabalhadores em grupos fixos (“mulheres”, “idosos”, “cuidadores”), pode ser mais preciso focar nos “momentos” da vida. A vida profissional é pontuada por interrupções previsíveis e imprevisíveis: doenças, luto, separação, responsabilidades de cuidado, esgotamento, períodos de recuperação.
Essas situações são comuns e recorrentes. Hoje, a maioria dos trabalhadores são cuidadores de uma forma ou de outra. E haverá cada vez mais deles com o envelhecimento da população.
Ao mesmo tempo, as carreiras se prolongam e as transições se multiplicam. Portanto, o modelo industrial de trabalho estável, contínuo e homogêneo já não reflete a realidade.
O DESIGN UNIVERSAL NO TRABALHO
É aqui que a ideia de design universal se torna útil. Originalmente desenvolvida nos estudos sobre deficiência, ela propõe projetar sistemas partindo dos usuários com maiores limitações.
Na prática, o que melhora a acessibilidade para pessoas com deficiência geralmente melhora a usabilidade para todos. Aplicada ao trabalho, essa lógica nos convida a repensar horários, trajetórias de carreira, flexibilidade e períodos de recuperação – não como exceções, mas como características estruturais. O objetivo é a robustez por meio da inclusão.
E precisamos pensar de forma diferente sobre a idade.
Tudo isso também exige que repensemos a forma como encaramos a idade. Por trás da saúde com perspectiva de gênero, existe outro ponto cego: o preconceito etário.
Ainda tendemos a tratar a idade cronológica como um indicador de capacidade. No entanto, a idade é um indicador fraco de saúde, energia ou engajamento.
Com o aumento da expectativa de vida, a variação dentro dos grupos etários está se ampliando. Um trabalhador de 60 anos pode ser plenamente capaz — ou significativamente limitado. A média diz cada vez menos.
A longo prazo, o modelo do “trabalhador ideal” é insustentável. Esse funcionário totalmente disponível, sempre saudável e sem amarras nunca representou a realidade.
Mas as mudanças demográficas estão tornando essa ficção ainda menos viável. As organizações agora devem gerenciar a diversidade de condições como uma norma estrutural.
Por isso, saúde com perspectiva de gênero não é um tema de nicho. É um ponto de partida para uma questão mais ampla: quão sustentável é o trabalho em seu formato atual? Reconhecer os diferentes corpos, idades e momentos da vida é a condição essencial para a resiliência organizacional.