Como usar IA para conseguir emprego sem sabotar sua candidatura

A tecnologia mudou a forma de buscar emprego, aumentou a concorrência e exige dos candidatos novas estratégias para se destacar

ilustração com fundo azul, quatro cadeiras (três PB e uma pink) e, em primeiro plano, um homem com terno no degrau de uma escada vermelha e usando um binóculo para observar
Olga Tsikarishvili eIPGGutenbergUKLtd via Getty images

Kelvin Chan 4 minutos de leitura

Para muitos candidatos buscando emprego, pode parecer que nunca houve um momento tão difícil para encontrar trabalho.

A contratação para empregos administrativos tem sido particularmente fraca, parte do que os economistas chamam de mercado de trabalho “com poucas contratações e poucas demissões”, no qual as empresas, em grande parte, mantêm seus funcionários enquanto a contratação segue lenta, dificultando que trabalhadores mais jovens consigam um emprego permanente.

A tecnologia também está transformando o processo de recrutamento. Sistemas automatizados permitem que candidatos se candidatem a mais vagas com facilidade, mas esses mesmos sistemas também tornam ainda mais difícil se destacar.

De acordo com dados da plataforma de recrutamento Greenhouse, o recrutador médio tem 3,5 vezes mais currículos para analisar do que há alguns anos.

Por outro lado, a Inteligência Artificial tem oferecido novas maneiras de candidatos se destacarem, como aprimorar currículos ou ajudar na preparação para entrevistas. Veja algumas orientações de especialistas sobre como usar a tecnologia a seu favor.

COMO USAR A IA PARA MELHORAR SEU CURRÍCULO

Manter o currículo atualizado continua sendo essencial. A Inteligência Artificial pode ajudar a reformular textos e cartas de apresentação, mas especialistas alertam para um risco: a padronização.

Segundo Daniel Zhao, economista-chefe do Glassdoor, muitos recrutadores já identificam materiais claramente produzidos com IA, o que dificulta diferenciar um candidato dos demais.

A recomendação é usar a tecnologia de forma mais estratégica. Daniel Chait, CEO da Greenhouse, sugere utilizar a IA para personalizar candidaturas, analisando relatórios da empresa ou descrições de vagas para ajustar o currículo e a carta de apresentação de forma específica.

O QUE É MITO E O QUE É REALIDADE

Muita gente acredita que existem truques para fazer um currículo passar pelos sistemas automatizados de triagem. Uma ideia antiga é inserir palavras-chave em texto branco, invisíveis para humanos, mas legíveis para sistemas.

No entanto, os sistemas atuais já não funcionam dessa forma, afirma Chait.

“Não existe palavra-chave secreta que você possa inserir; isso é apenas perda de tempo.”

O CURRÍCULO NÃO É MAIS SUFICIENTE

Você não deve confiar apenas no currículo para conseguir um emprego.

“O currículo ainda é uma parte importante do processo, mas não é suficiente. É preciso mais do que isso”, disse Pat Whelan, gerente de produto do LinkedIn.

Com a presença crescente da IA no ambiente profissional, Whelan afirma que candidatos devem demonstrar habilidades relacionadas à tecnologia.

O LinkedIn firmou parcerias com plataformas de IA, como Lovable e Relay.app, para certificar que usuários possuem proficiência, por exemplo, para desenvolver aplicativos com base em preferências.

Ainda assim, especialistas destacam que mais importante do que certificações específicas é dominar habilidades básicas em IA e ter capacidade de adaptação.

“Com a tecnologia evoluindo tão rápido, focar apenas em certificações não é tão importante quanto entender benefícios, riscos e se adaptar rapidamente”, disse Zhao.

FIQUE ATENTO ÀS REGRAS DAS EMPRESAS SOBRE IA

As regras do recrutamento estão mudando rapidamente, e empregadores já começam a incluir orientações sobre o uso de IA nos processos seletivos.

Empresas como Target, SAP, Zscaler e até órgãos públicos britânicos definem diretrizes claras. Em geral, é permitido usar IA para formatação de currículos, explicação de conceitos e geração de ideias. Já o uso para inventar experiências, habilidades ou responder testes no lugar do candidato é considerado inadequado.

O processo, da candidatura à entrevista final, deve refletir de forma fiel suas habilidades, experiência e raciocínio.

USE A IA PARA TREINAR ENTREVISTAS

Se você chegou à etapa de entrevistas, a inteligência artificial pode ajudar na preparação.

Chait recomenda usar a IA para reunir informações sobre a empresa, o setor, a vaga e até o perfil do recrutador. Também é útil simular perguntas de entrevista, o que ajuda a construir respostas mais consistentes.

NÃO USE IA COMO “COLA” NA ENTREVISTA

Existem ferramentas de IA voltadas para ajudar candidatos durante entrevistas e testes online, mas especialistas recomendam evitar esse tipo de recurso.

Essas ferramentas costumam sugerir respostas em tempo real, mas o uso geralmente fica evidente para o entrevistador.

Segundo Chait, há relatos de candidatos que pausam antes de responder, indicando que estão lendo respostas geradas por IA.

“Você não está enganando ninguém”, afirmou.

PREPARE-SE PARA ENTREVISTAS COM IA

Uma tendência emergente é o uso de inteligência artificial nas primeiras etapas de entrevistas. Empresas já utilizam bots em chats, chamadas de áudio ou até avatares em vídeo.

Embora ainda em fase inicial, a expectativa é que esse modelo se torne mais comum. Estar confortável com esse formato pode aumentar suas chances de avançar nos processos.

ATENÇÃO AOS GOLPES DE EMPREGO

A inteligência artificial também tem sido usada em fraudes de emprego.

Candidatos devem desconfiar de vagas falsas, muitas vezes divulgadas por e-mail ou mensagens, que utilizam o nome de empresas conhecidas e pedem acesso a links suspeitos.

A recomendação é sempre verificar a vaga diretamente no site oficial da empresa ou em plataformas confiáveis.

Caso o candidato acesse links fraudulentos, pode acabar fornecendo dados pessoais, documentos ou informações bancárias a golpistas.

Por outro lado, empresas também estão mais rigorosas na verificação de identidade, especialmente em contratações remotas. É comum que solicitem confirmação por meio de documentos ou até selfies para validar a identidade do candidato.

Nesse cenário, usar a tecnologia com responsabilidade e atenção pode fazer a diferença na busca por uma oportunidade.


SOBRE O AUTOR

Kelvin Chan é jornalista de negócios da Associated Press. saiba mais