Instagram é o novo LinkedIn da geração Z

Pesquisa mostra que a geração Z busca conselhos de carreira no YouTube e no Instagram, e usa as redes sociais para avaliar empresas antes de se candidatar.

Montagem com perfis de profissionais em cards semelhantes a posts do Instagram sobre fundo azul com rostos em destaque
Créditos: Magnific, Prostock-Studio via Getty images, Jonathan Goncalves, Nayla Bernardes e Ilyas Chabli via Pexels

Lindsay Dodgson 7 minutos de leitura

A combinação de discursos motivacionais vazios, os conteúdos genéricos gerados por inteligência artificial (IA) e as postagens que dão aquela polida na carreira trouxe uma aversão ao LinkedIn. Por isso, muitos profissionais que buscam avançar na carreira, especialmente a geração Z, começaram a migrar para outros espaços.

Uma nova pesquisa da Zety, uma plataforma de criação de currículos, revelou que o YouTube e o Instagram são agora as principais plataformas onde trabalhadores da geração Z buscam conselhos de carreira, citados por 80% e 73% dos entrevistados, respectivamente. O LinkedIn ficou para trás: apenas 26% dos 919 trabalhadores da Geração Z pesquisados ​​o apontaram como sua fonte principal.

O relatório também constatou que 74% utilizavam o Instagram para networking profissional e 69% conseguiram um emprego ou estágio por meio da plataforma, um dado surpreendente para um aplicativo originalmente criado para compartilhar fotos com amigos.

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O Instagram não está exatamente substituindo o LinkedIn, mas vem assumindo, cada vez mais, múltiplos papéis simultâneos: recrutador, coach de carreira, espaço para networking, site corporativo e plataforma de avaliações de empregadores.

Para as empresas, atrair talentos da geração Z pode depender cada vez mais de habilidades tradicionalmente associadas aos criadores de conteúdo, como demonstrar publicamente, e com transparência, a cultura da organização.

Jasmine Escalera, coach de carreira que escreveu o relatório, afirmou à Fast Company que a geração Z está redefinindo a ideia de trabalho. Enquanto os millennials cresceram ouvindo que a performance profissional típica do LinkedIn era o caminho para avançar na carreira e fazer networking, os mais jovens tendem a encarar o trabalho de outra maneira.

“Eles estão construindo essas definições no mesmo lugar de onde tiram todo o resto: as redes sociais”, diz Escalera. “A geração Z cresceu no Instagram. Então faz sentido que o lugar onde eles passam tempo também seja onde buscam informações sobre trabalho.”

COMO A GERAÇÃO Z INVESTIGA A EMPRESA ANTES DE SE CANDIDATAR

Profissionais mais jovens estão usando as redes sociais para investigar empresas antes de se candidatarem a uma vaga. De certa forma, tentam reequilibrar um processo seletivo que historicamente favoreceu os empregadores.

Christina Muller, assistente social clínica licenciada e especialista em saúde mental no trabalho, afirma que tem observado cada vez mais jovens usando o Instagram como ferramenta de triagem profissional.

Leia também: Talvez a Geração Z tenha razão sobre trabalho

Tenho visto menos networking e mais ‘netpicking’”, diz Muller à Fast Company. “Eles usam o Instagram como ferramenta para avaliar se uma organização combina com eles, se conseguem realmente se imaginar trabalhando ali.”

A geração Z cresceu no Instagram, faz sentido que eles busquem ali informações sobre trabalho depois de mais velhos.

É útil contar com uma ferramenta de carreira que responde a perguntas como: Qual é a verdadeira cultura da empresa? Como os líderes tratam seus funcionários? As pessoas parecem felizes?

“Eles viram as gerações anteriores lidarem com a exaustão extrema (burnout) e com desafios de saúde mental”, diz Muller. “E estão realmente reagindo a isso, dizendo: ‘Quero mais intencionalidade na minha carreira. Não quero apenas trabalhar em uma empresa por 20 anos, ser uma engrenagem na máquina, aparecer todo dia e ser infeliz’.”

Tishayla Williams, psicóloga organizacional e especialista em cultura corporativa, contou à Fast Company que notou, nos últimos três anos, um número maior de organizações sem fins lucrativos, startups e marcas de consumo usando o Instagram para anunciar vagas, muitas vezes incentivando os candidatos a enviar uma mensagem direta ou comentar para obter mais informações.

De muitas maneiras, as redes sociais agora desempenham o papel que antes cabia a recrutadores, feiras de carreira e sites corporativos. O Instagram oferece às pessoas “um vislumbre dos bastidores que nem sempre se consegue no LinkedIn”, diz ela, já que as empresas fazem postagens mais espontâneas sobre quem trabalha lá e o que realmente acontece no dia a dia da organização. Williams afirma que, dessa forma, os candidatos em potencial conseguem ter uma noção melhor dos valores da empresa, dos compromissos com diversidade, equidade e inclusão (DEI) e das decisões da liderança, tanto pelas postagens quanto pelos comentários feitos nelas.

“Eles tentam descobrir se realmente se veem trabalhando lá antes mesmo de se candidatarem”, diz Williams. “Um perfil no LinkedIn me informa o cargo de alguém. O Instagram me dá uma noção melhor de como é, de fato, trabalhar em determinado lugar.”

Pessoa usando celular para pesquisar oportunidades de trabalho e informações sobre empresas em redes sociais.
Redes como Instagram e YouTube passaram a influenciar como jovens profissionais pesquisam vagas e avaliam empresas. GerCréditos: zzayko/ Azman/ Getty Images

AUTENTICIDADE IMPORTA MAIS DO QUE APARÊNCIA

A mudança também pode ser uma reação à natureza altamente editada das plataformas profissionais de networking. O LinkedIn, com seu tom positivo, pode até parecer um respiro em comparação a outras redes sociais, onde comentários tóxicos e brigas culturais são frequentes. Mas alguns especialistas acreditam que a plataforma pode soar desconectada do que os jovens profissionais procuram.

“Acho que essa geração mais jovem está dizendo: ‘essa performance do LinkedIn não combina comigo’”, afirma Muller. Eles preferem ver algo imperfeito a uma imagem excessivamente polida.

“Há mais abertura para falar sobre desafios de saúde mental, sofrimento psíquico e o desejo de trabalhar em uma empresa alinhada ao bem-estar”, diz Muller. “Algo que seja prioridade de verdade, não apenas um benefício bonito no discurso.”

"Um perfil no LinkedIn me mostra o cargo de alguém, o Instagram dá uma noção de como é trabalhar no lugar"

Nos últimos tempos, o LinkedIn passou a reunir mais relatos pessoais sobre busca por emprego e demissões. Mas, segundo Muller, integrantes da geração Z ainda tendem a enxergar esse tipo de exposição como parte do jogo de contratação, e não necessariamente como algo autêntico.

“Eles estão reagindo de várias formas e exigindo mais”, afirma.

A ascensão de conteúdos gerados por IA pode estar acelerando essa tendência. À medida que as plataformas profissionais ficam mais cheias de posts polidos, formulaicos e parecidos entre si, os trabalhadores passam a identificar com mais facilidade conteúdos genéricos ou automatizados, especialmente os profissionais mais jovens, que são nativos digitais.

Às vezes, a “voz de LinkedIn” se tornou tão evidente que nem é preciso usar inteligência artificial. As pessoas ainda assim soam como uma versão mais cafona e artificial de si mesmas.

“Você não vê tanto a voz e a personalidade da pessoa”, diz Muller. “Acho que isso afasta muito a geração Z, porque eles consideram isso essencial não só para si mesmos, mas também para o que esperam de um empregador e de uma organização.”

AS EMPRESAS QUE VÃO CONQUISTAR A GERAÇÃO Z

Empresas que querem atrair a próxima geração de talentos enfrentam um desafio. As organizações que conseguem conquistar os profissionais mais jovens costumam ser aquelas dispostas a mostrar o que acontece nos bastidores: como líderes se comunicam, como funcionários colaboram, como a flexibilidade funciona na prática e se a cultura corresponde ao marketing.

Williams acredita que essa expectativa só vai crescer na próxima década.

“Credibilidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional, flexibilidade e valores organizacionais vão importar tanto quanto a remuneração para muitos jovens profissionais”, afirma Escalera, da Zety, concorda. Empregadores que querem atrair a geração Z precisam encontrá-la onde ela está.

“A geração Z está procurando trabalho e empresas alinhadas a seus valores usando as redes sociais”, diz. “E, se você está nesse espaço, é uma ótima forma de mostrar quem é, o que defende e como pode apoiar essa nova geração de trabalhadores.”

O LinkedIn não vai desaparecer. Mas os jovens profissionais estão prestando atenção nas empresas que se adaptam a um mundo em que a comunicação autêntica deixou de ser um diferencial e passou a ser uma etapa essencial para convencer os melhores talentos a clicar em “candidatar-se”.


SOBRE A AUTORA

Lindsay Dodgson é uma escritora de cultura digital que mora em Londres e já escreveu sobre tudo, desde startups a golpes, incluindo ca... saiba mais