Geração Z quer trabalhar — mas está redefinindo o que espera do trabalho
Pesquisa do Observatório Fundação Itaú mostra que 70% dos jovens de 16 a 29 anos já trabalham ou estagiam e revela as condições que influenciam suas escolhas profissionais

Muito se fala nas redes sociais sobre a Geração Z que não quer trabalhar.
No entanto, 70% dos jovens brasileiros de 16 a 29 anos já estão inseridos no mercado de trabalho ou fazem estágio. Os dados fazem parte da pesquisa “Juventudes e o Mundo do Trabalho”, realizada pelo Observatório Fundação Itaú, com apoio técnico do Datafolha e do Instituto Locomotiva. O levantamento reuniu 1.816 jovens de 16 a 29 anos em etapas qualitativa e quantitativa. A etapa quantitativa foi realizada entre 11 e 23 de maio de 2026.
Os resultados indicam uma geração que questiona as condições sob as quais está disposta a construir uma carreira. Ao todo, 62% afirmam que aceitariam ganhar menos para trabalhar em um local mais saudável, com menos estresse e pressão psicológica. Na prática, esse limite aparece nas decisões profissionais: 69% já deixaram um emprego por vontade própria.
Para Ana Maria Fernandes Cardoso, coordenadora do Observatório Fundação Itaú, os números revelam uma juventude com uma presença significativa no mercado de trabalho.
"A pesquisa traz essa maioria de jovens que já estão no mercado. Muitos deles não estão no primeiro emprego, já tiveram outras experiências profissionais", explica Ana.
QUEM SÃO ESSES JOVENS?
Os 70% que trabalham ou estagiam não formam um grupo homogêneo.
A pesquisa revela trajetórias distintas: 32% conciliam emprego e estudos, enquanto 39% se dedicam exclusivamente ao trabalho. Para parte dos entrevistados, a vida profissional precisa dividir espaço com outras responsabilidades, como a formação e os cuidados com a casa.
A possibilidade de conciliar trabalho e estudo está relacionada à condição socioeconômica. Nas classes A e B, 48% mantêm uma jornada dupla; já entre as classes D e E, esse percentual cai para 16%. A diferença mostra como a renda interfere nas possibilidades de formação e inserção profissional.
"Estamos falando de uma juventude profundamente diversa”, relata Ana.
A desigualdade aparece também na divisão das responsabilidades domésticas. Metade da juventude brasileira (50%) é responsável por cuidar da casa. Entre as mulheres, o percentual chega a 60%, em comparação com 40% dos homens. Além disso, um terço das mulheres enfrentou dificuldades para permanecer no emprego devido às demandas com os filhos, muitas vezes por falta de rede de apoio.
As barreiras também estão fora de casa. Para 28% dos entrevistados, o deslocamento e a distância até o trabalho estão entre os principais obstáculos para conseguir ou manter uma vaga. A raça também atravessa essas trajetórias: o levantamento mostra que 73% dos jovens brancos estão ocupados, enquanto o percentual é de 69% entre a juventude preta. Essa distância aumenta entre aqueles que conseguem conciliar trabalho e estudo: 38% dos jovens brancos, contra 29% dos jovens negros.
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O EMPREGO IDEAL VAI ALÉM DO SALÁRIO
O emprego formal ocupa um lugar importante nas expectativas dessa geração. Atualmente, 30% dizem preferir o emprego com carteira assinada (CLT) como o modelo ideal de trabalho.
Para Ana, a ideia de que essa juventude evita o compromisso com empresas tradicionais é, em grande parte, uma construção da sociedade. "Isso acaba sendo um mito. O jovem quer estar ali. A formalidade é considerada muito como um porto seguro", explica.
No entanto, a segurança não parece ser suficiente para garantir a permanência. Os jovens também consideram a qualidade do ambiente em que trabalham. Entre os principais motivos apontados pelos 69% que já deixaram um emprego por vontade própria estão a falta de respeito ou o tratamento inadequado de líderes ou chefes (43%), as jornadas exaustivas ou o acúmulo de funções (36%) e o excesso de cobrança ou pressão por resultados (32%).
Nesse cenário, pedir demissão de um ambiente considerado inadequado não significa necessariamente rejeitar o trabalho. Pode ser uma forma de estabelecer limites para essa relação.
ELES NÃO ESPERAM O FUTURO ACONTECER
A preocupação com a trajetória está presente na forma como a geração planeja os próximos anos. Ao todo, 68% já possuem um planejamento, indicando que boa parte não encara a carreira apenas como uma sucessão de empregos, mas como algo a ser construído a longo prazo.
Para 91% dos entrevistados, os cursos técnicos e profissionalizantes são o caminho mais rápido para conseguir um emprego, e 88% acreditam que essa modalidade os prepara melhor para os desafios da vida profissional do que a educação convencional.
“Veem, por exemplo, no ensino técnico um caminho muito importante para se manterem no mercado e conseguir aprimorar suas habilidades”, relata Ana.
A valorização da experiência prática também aparece na relação com o aprendizado: nove em cada dez jovens (90%) dizem aprender mais na prática profissional do que nos estudos. O planejamento não se limita à carreira: 88% esperam proporcionar uma condição de vida superior à que seus pais viveram.
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UM FUTURO ENTRE OPORTUNIDADES E INCERTEZAS
O futuro será construído em um mercado de trabalho cada vez mais atravessado pela inteligência artificial. A pesquisa mostra que 97% dos jovens utilizam a internet e ferramentas digitais para aprender coisas novas e se desenvolver profissionalmente.
Ao mesmo tempo, 90% acreditam que a IA substituirá muitos empregos nos próximos anos, e metade (50%) teme perder seu espaço para a automação. A tecnologia aparece, portanto, como ferramenta de desenvolvimento e fonte de insegurança. Ana observa que “as pessoas com mais baixa escolaridade e de classes sociais mais baixas acabam temendo um pouco mais esse uso”.
Na visão da coordenadora, o desafio das empresas está em acompanhar uma geração que chega ao mercado buscando segurança e, ao mesmo tempo, condições mais saudáveis de permanência e oportunidades de desenvolvimento. Ampliar vagas de estágio e aprendizagem, aproximar a formação da prática e considerar as desigualdades de raça, gênero, renda e território são caminhos apontados pela pesquisa e pela análise da coordenadora.