As habilidades que continuam valendo em um futuro incerto
Antecipar mudanças, imaginar possibilidades e transformar ideias em ação são capacidades que podem ser aprendidas e fortalecidas ao longo da carreira.

A maioria dos cursos de design e negócios ensina os alunos a resolver problemas que já existem. Mas, em um mundo que muda em velocidade supersônica, as habilidades mais urgentes não envolvem apenas solucionar problemas. Elas nos ajudam a perceber, navegar e moldar aqueles que surgirão a seguir.
Depois de três anos ministrando o curso View from the Future, na Stanford d.school, e aprendendo ao lado de profissionais que trabalham nos limites de suas áreas, identificamos um padrão marcante.
Os líderes que prosperam em períodos de ruptura não dependem apenas de conhecimentos técnicos estáticos. Eles recorrem a um conjunto de habilidades duradouras: posturas fundamentais para antecipar mudanças, imaginar cenários e projetar novas possibilidades. Essas capacidades se fortalecem ao longo da carreira — e podem ser aprendidas.
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HABILIDADES PARA ANTECIPAR
Explorar o futuro exige cultivar uma postura de antecipação ativa e aprender a distinguir o provável do possível.
A maioria das organizações enxerga o amanhã pela lente dos “futuros prováveis”. Parte da realidade atual e a projeta um pouco adiante: tendências avançam, tecnologias amadurecem e comportamentos mudam em trajetórias previsíveis.
Essa abordagem pode ser útil para o planejamento trimestral, mas nos mantém presos ao universo daquilo que já conseguimos conceber. Ir além dele requer uma combinação de curiosidade radical e disposição para atravessar a ambiguidade.
Os líderes que estudamos vão muito além do conhecimento restrito a uma única área. Eles se interessam por assuntos variados e procuram conexões entre fenômenos aparentemente distantes.
O futuro não está esperando para ser previsto. Está esperando para ser projetado.
Essa curiosidade os ajuda a identificar sinais discretos e desconectados de tendências emergentes antes que elas cheguem ao debate dominante.
Pense no fenômeno dos “Modern Luddites”, ou “luditas modernos”, expressão cunhada por Nelly Mensah e Cynthia Selin. Trata-se de um movimento crescente entre as gerações mais jovens para recuperar da tecnologia o controle sobre a própria vida.
Sua chegada já era anunciada pela fadiga de IA, pela reação contra as Big Techs e pelo status social cada vez maior de estar offline. Meses depois, vimos o fenômeno se manifestar em diferentes lugares: de formandos da geração Z vaiando referências à IA em cerimônias de graduação a uma rebelião analógica contra vidas cada vez mais automatizadas.
Quem percebeu sua chegada estava olhando em várias direções, não apenas para a frente.
Antecipar mudanças como essas requer abertura suficiente para que os sinais certos apareçam, sem buscar cedo demais uma resposta única e confortável.
Os profissionais mais sofisticados que conhecemos não tentam prever exatamente para onde as coisas vão. Eles acompanham as lacunas, consideram várias possibilidades ao mesmo tempo e começam a construir em direção a elas.
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Leonardo Giusti, diretor de Design da Archetype AI, exemplifica essa postura. Enquanto o setor de tecnologia debate se a IA é principalmente software ou hardware, ele se concentra no território ambíguo entre os dois, que chama de “Physical AI”, ou “IA física”: sistemas que percebem e interpretam o mundo continuamente, em vez de esperar por um comando.
Concentrar-se nesse espaço intermediário é relevante porque é ali que novas possibilidades começam a ganhar forma.
HABILIDADES PARA IMAGINAR
O escritor de ficção científica Bruce Sterling certa vez definiu o futurismo como a “arte da repercepção”: a capacidade de olhar para algo que já existe e enxergá-lo de maneira fundamentalmente diferente, questionando o que é familiar para revelar uma possibilidade inteiramente nova.
O que aprendemos é que isso não se trata de um dom místico, mas de uma postura que pode ser praticada.
Se a antecipação ilumina os limites do possível, é a imaginação que dá vida, forma e concretude a essas ideias.
O futuro pertence a quem consegue criar primeiro a imagem ou a história.
A artista especulativa e “arquiteta do corpo” Lucy McRae personifica essa capacidade. Ela literalmente criou o próprio cargo para refletir seus talentos interdisciplinares, já que as funções existentes não davam conta de suas habilidades.
Trabalhando na interseção entre bioengenharia e corpo humano, Lucy produziu o curta-metragem conceitual Swallowable Parfum, que apresenta uma cápsula ingerível capaz de liberar fragrância pela pele.
Em uma era de abundância digital, fazer algo com as próprias mãos se torna mais valioso, não menos.
A tecnologia ainda não existe, mas o filme era tão vívido que despertou o interesse comercial de grandes empresas de cosméticos. Ela fez um futuro ainda inviável parecer real o bastante para levar pessoas a agir.
Esse tipo de imaginação depende, sobretudo, de um ponto de vista pessoal bem desenvolvido — uma lente que reflita gosto individual, experiência profunda e discernimento conquistado com esforço.
Em um mundo cada vez mais inundado por conteúdos gerados por IA, sua maneira particular de enxergar é a única coisa que não pode ser reproduzida. A habilidade técnica pode garantir uma primeira entrevista, mas é um ponto de vista próprio que torna uma contribuição verdadeiramente única.
HABILIDADES PARA PROJETAR
Os profissionais que atravessam períodos de ruptura com mais desenvoltura se sentem à vontade para dar forma rapidamente às ideias.
Eles tornam o pensamento tangível em diferentes meios — um esboço rápido, uma amostra rudimentar de material ou um cenário encenado — antes que a solução esteja pronta.
Em uma era de abundância digital, fazer algo com as próprias mãos se torna mais valioso, não menos.
A prática revela pontos cegos, acelera a experimentação e faz as equipes avançarem mais depressa do que conversas intermináveis. Esse conhecimento adquirido pela experiência também é uma das capacidades mais difíceis de automatizar.
Mas dar forma a uma ideia é apenas metade do trabalho. Também é preciso criar condições para que perspectivas genuinamente diferentes entrem em contato de maneira produtiva.
A inovadora cívica Jennifer Brandel construiu sua carreira em torno dessa busca pela construção de sentido entre pessoas diferentes. Seu trabalho vai da reinvenção da participação pública no jornalismo à exploração do que chama de “Interstitium”: o tecido conjuntivo que mantém as comunidades resilientes.
Ao ser questionada sobre qual ensinamento poderia melhorar nosso futuro coletivo, Jennifer deu uma resposta surpreendentemente simples: “Saia de casa e descubra como conviver com os outros.”
À medida que a automação assume o trabalho transacional, a capacidade humana de criar pontes e reunir pessoas diferentes se torna nosso recurso mais valioso.
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O que mantém tudo isso unido é uma prática de design estratégico: saber o que se pretende aprender, não apenas o que se pretende construir.
Os profissionais que atravessam períodos de ruptura com mais desenvoltura não são aqueles que enxergam com maior clareza o que está por vir. São os que têm mais clareza sobre aquilo que valorizam e sobre o futuro que estão tentando construir.
PARA ALÉM DO MAPA
Três anos ensinando ao lado de pessoas que trabalham nos limites das profissões do futuro nos mostraram que não existe um único plano para o que vem a seguir.
E essa é exatamente a postura que precisamos cultivar na próxima geração de líderes: não um mapa estático, mas uma maneira de se movimentar.
Como refletiu um aluno ao final do trimestre acadêmico: “Antes, eu via o futuro como uma marcha determinista rumo à eficiência perfeita. Agora, percebo que podemos escolher quais valores nos guiarão em direção ao futuro.”
O futuro não está esperando para ser previsto. Está esperando para ser projetado.
Líderes, educadores e criadores têm muito mais poder de ação nesse processo do que imaginam. Esse poder nasce do desenvolvimento intencional das habilidades duradouras que transformam a incerteza em oportunidade.
São habilidades para perceber o que é possível, enxergar o que é desejável e criar aquilo que acaba de se tornar viável. São práticas de atenção, síntese e experimentação.
Práticas de design que nos ajudam a construir um futuro desejável, em vez de simplesmente aceitar aquele que nos entregam.