A IA prometeu aliviar o trabalho. Quem mais a usa relata o contrário

Pesquisa global do Wellhub mostra que profissionais que mais dominam a inteligência artificial relatam maior sobrecarga e mais sintomas de burnout, apesar de se sentirem mais seguros no emprego.

Homem em escritório diante de computadores, com efeito de mosaico digital na imagem.
Créditos: magnific.com

Camila de Lira 6 minutos de leitura
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Quanto mais os trabalhadores dominam a inteligência artificial, maior é a parcela dos que dizem estar trabalhando mais. Entre os profissionais que usam a tecnologia de forma avançada, 40% afirmam que a IA aumentou sua carga de trabalho. Entre os iniciantes, o índice é de 15%.

Os números fazem parte do Panorama do Bem-Estar Corporativo 2027, pesquisa global do Wellhub que ouviu 5.021 trabalhadores de dez países, incluindo o Brasil. No total, 30% dos entrevistados afirmam que a IA aumentou sua carga de trabalho, em vez de reduzi-la.

A sobrecarga também aparece na saúde mental. Entre os usuários avançados, 24% relatam sintomas de burnout diariamente, contra 16% dos iniciantes.

“A tecnologia multiplica a capacidade, mas não multiplica o nosso cérebro”, afirmou Ricardo Guerra, CEO do Wellhub no Brasil, durante a apresentação da pesquisa, acompanhada pela Fast Company Brasil em São Paulo.

A frase resume uma das contradições da adoção de IA nas empresas. As ferramentas permitem produzir mais e executar tarefas em menos tempo. Mas isso não significa que o trabalho esteja diminuindo. Em muitos casos, o tempo economizado abre espaço para novas demandas.

QUEM MAIS USA IA TAMBÉM TRABALHA MAIS

Para entender essa diferença, a pesquisa dividiu os trabalhadores em três grupos: iniciantes, que representam 26% dos entrevistados; adeptos, 32%; e pioneiros, 41%.

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Os pioneiros usam IA como parte central de suas atividades e ajudam colegas a fazer o mesmo. São profissionais mais familiarizados com as ferramentas e que, por isso, também acabam assumindo novas responsabilidades.

Gráfico do Wellhub mostra que 30% dos entrevistados concordam que a IA aumentou sua carga de trabalho, sendo 11% plenamente e 19% que concordam.
Para 30% dos trabalhadores ouvidos pelo Wellhub, a inteligência artificial aumentou a carga de trabalho, em vez de reduzi-la. Crédito: Reprodução/Wellhub.

Guerra contou que passou por uma experiência parecida. Com o auxílio da inteligência artificial, começou a produzir materiais que antes solicitava à equipe de comunicação, como releases.

“Eu mesmo vivi um pouco disso”, disse o executivo. “De repente, eu estou mandando um release pronto para ele”, contou, referindo-se a um profissional de sua equipe de comunicação.

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“Eu estou fazendo um trabalho que não é meu porque a ferramenta me permite”, completou.

A facilidade de executar uma tarefa não elimina necessariamente o esforço envolvido. Para o executivo, passar rapidamente de um assunto para outro, assumir funções diferentes e lidar com um volume maior de informações também pode gerar cansaço.

“A gente tem uma fadiga que vai além do volume de trabalho”, afirmou.

Há ainda o trabalho de ajudar outras pessoas a adotar a tecnologia. Segundo o relatório, os funcionários mais experientes frequentemente assumem esse treinamento informal, que se soma às suas atividades habituais.

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O impacto aparece também nas relações entre colegas. Entre os pioneiros, 47% concordam que a IA reduziu as interações genuínas no trabalho. Entre os iniciantes, o índice é de 22%.

Os resultados apontam uma associação entre o domínio da tecnologia e o aumento da sobrecarga. A pesquisa, porém, não permite concluir que o uso da inteligência artificial seja responsável diretamente pelos sintomas de burnout.

MAIS PREPARADOS, MAIS SEGUROS

O uso intenso da IA também tem um lado positivo. Os trabalhadores mais avançados se sentem mais preparados para as transformações do mercado e mais seguros em relação ao próprio emprego.

Entre os pioneiros, 53% afirmam que sua segurança profissional melhorou em comparação com o ano anterior. O percentual é de 22% entre os iniciantes.

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A diferença aparece na percepção de preparo: 67% dos pioneiros dizem se sentir capacitados para trabalhar de forma eficaz com a IA, contra apenas 19% dos iniciantes.

Para Guerra, esses números também levantam uma discussão sobre desigualdade. O acesso às ferramentas e à capacitação não é igual para todos. Trabalhadores mais preparados podem aproveitar novas oportunidades, enquanto outros correm o risco de ficar para trás.

“Quem não se sente preparado tem dificuldade de dar os primeiros passos”, afirmou.

O executivo comparou esse processo ao domínio do inglês, que pode funcionar como uma barreira de entrada para determinadas posições no mercado de trabalho.

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“Quando se coloca o inglês na entrevista de emprego, na necessidade de entrar na empresa, você exclui uma parte da população”, disse Guerra.

A responsabilidade de preparar os profissionais, portanto, não pode ficar apenas com os próprios trabalhadores.

NÃO BASTA OFERECER IA. É PRECISO MUDAR O TRABALHO

O estudo mostra que as políticas das empresas fazem diferença na maneira como os funcionários enfrentam as mudanças.

Entre trabalhadores de organizações com políticas claras e bem comunicadas de IA, 77% dizem se sentir resilientes e capazes de acompanhar as transformações. Nas empresas sem essas orientações, são 39%.

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Apesar disso, 34% dos entrevistados afirmam que suas empresas não possuem uma política formal de inteligência artificial.

Gráfico do Wellhub compara o aumento da carga de trabalho associado à IA: 15% dos iniciantes, 28% dos adeptos e 40% dos pioneiros.
Quanto maior o domínio da IA, maior a parcela dos trabalhadores que relatam aumento da carga de trabalho. Crédito: Reprodução/Wellhub.

O cuidado com os funcionários também pesa na retenção. Entre os pioneiros em IA, 87% afirmam que deixariam uma empresa que não priorizasse o bem-estar.

Guerra chamou atenção para a distância que ainda existe entre o discurso das organizações e a rotina dos trabalhadores.

Durante a apresentação, relatou reclamações de funcionários de empresas que promovem programas de saúde mental e equilíbrio, mas continuam marcando reuniões às 20h ou 21h, enviando mensagens e fazendo ligações até às 22h.

“Não acredito que a empresa está falando disso”, reproduziu o executivo, ao descrever a reação de um trabalhador diante da contradição entre o discurso de bem-estar e as cobranças fora do expediente.

Na avaliação de Guerra, a confiança na liderança é tão importante quanto a pressão enfrentada pelos funcionários. “Onde não tem confiança gera mais ansiedade do que onde só tem alta pressão”, afirmou, ao comentar resultados de outra pesquisa sobre o ambiente corporativo.

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Ele também questionou como as organizações lidam com gestores que entregam resultados, mas adotam comportamentos considerados tóxicos.

“Esse é o primeiro que tem que sair da porta da empresa”, afirmou. Segundo Guerra, manter esse tipo de liderança pode estimular outros funcionários a reproduzir as mesmas práticas.

A discussão ganha uma nova dimensão com a inteligência artificial. As empresas podem investir em ferramentas para aumentar a produtividade e oferecer benefícios para cuidar da saúde mental dos funcionários. Mas, se cada tarefa concluída mais rapidamente abrir espaço para uma nova cobrança, a promessa de trabalhar menos continuará distante da realidade.

O Panorama do Bem-Estar Corporativo 2027 foi realizado pelo Wellhub, em parceria com a QuestionPro, entre 12 e 19 de junho de 2026, com 5.021 trabalhadores de dez países. Os resultados apresentados são globais, e não específicos do Brasil.


SOBRE A AUTORA

Camila de Lira é editora-chefe da Fast Company Brasil e jornalista formada pela ECA-USP. Cobre tecnologia, inteligência artificial, in... saiba mais