Mais do que robôs, funcionários da Amazon e Walmart temem IA no RH

uso de IA em armazéns
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Pavithra Mohan 5 minutos de leitura

Em fevereiro, April Watson bateu a cabeça enquanto armazenava produtos em um centro logístico da Amazon nos arredores de Atlanta. Ela sofreu uma concussão e foi informada por um neurologista de que precisaria trabalhar com restrições e em um ritmo mais lento do que o normalmente exigido.

Apesar de ter apresentado documentos médicos deixando clara a necessidade de reduzir o ritmo de trabalho, Watson levou mais de um mês para conseguir as adaptações necessárias no emprego — tudo porque não recebeu o formulário médico correto do assistente interno de IA da Amazon e não conseguiu contato fácil com um funcionário humano do RH.

Nesse meio-tempo, Watson foi sinalizada por cometer erros no trabalho e precisou participar do que a Amazon chama de “sessão de orientação documentada” com seu gerente.

“Eu disse ao meu gerente de operações: ‘Achei que todos quisessem que eu trabalhasse mais devagar porque estou me recuperando’. E ele respondeu: ‘Essa não é uma escolha nossa. Isso é a Amazon’.”

Nos últimos quatro anos, Watson afirma que a automação mudou gradualmente a forma como trabalhadores como ela se comunicam com o departamento de recursos humanos e reportam problemas no ambiente de trabalho.

Procurada pela Fast Company, uma porta-voz da Amazon declarou: “Nossos funcionários têm várias formas de obter suporte — desde RH presencial e gerentes até ferramentas digitais que podem responder perguntas rapidamente. Em algo tão importante quanto uma acomodação médica, trabalhamos diretamente com cada pessoa para garantir que recebam o que precisam.”

Em dezembro, a organização sem fins lucrativos de defesa dos trabalhadores United for Respect entrevistou funcionários da Amazon e do Walmart para entender melhor como IA e automação estão transformando a natureza do trabalho nessas empresas.

Os resultados não foram exatamente surpreendentes: o medo da substituição de empregos continua sendo uma das principais fontes de estresse para trabalhadores do varejo e de armazéns nas duas companhias.

Entre mais de 200 entrevistados, 60% disseram temer que a IA elimine seus empregos nos próximos um ou dois anos, enquanto 49% apontaram perder o trabalho para um robô como um de seus três maiores medos diante do aumento do uso de IA no ambiente profissional.

Mas um dado chamou atenção: 62% dos trabalhadores disseram estar especialmente preocupados com o fato de decisões de RH estarem sendo cada vez mais terceirizadas para sistemas automatizados.

“Acho que isso revela muito sobre a forma como a tecnologia está sendo implementada no varejo, e especificamente como Amazon e Walmart estão adotando IA em seus ambientes de trabalho”, afirma Bianca Agustin, codiretora executiva da United for Respect.

A Amazon nunca escondeu seus investimentos em robótica, tecnologia que já está transformando seus centros logísticos. À medida que a empresa adiciona mais robôs e automação, relatos indicam que a Amazon poderá reduzir a contratação de centenas de milhares de trabalhadores nos próximos anos.

O Walmart, por sua vez, vem falando sobre sua estratégia de simplificar seus agentes de IA, implantando “superagentes” focados em quatro áreas: clientes, funcionários, engenheiros e fornecedores.

A rede também teria alterado sua abordagem de remuneração para funcionários de lojas e trabalhadores da linha de frente, deixando de oferecer aumentos padronizados baseados em tempo de serviço.

Agora, o Walmart considera uma série de fatores ligados ao desempenho — da frequência ao desempenho geral da loja — e, segundo Agustin, a empresa utiliza algoritmos para determinar esses aumentos salariais.

Em comunicado à Fast Company, a Amazon afirmou que a pesquisa da United for Respect “não chega nem perto de representar as vozes de nossos 1,5 milhão de funcionários em todo o mundo. O que realmente ouvimos de nossa força de trabalho é que robótica e IA estão tornando seus empregos mais seguros, menos fisicamente exigentes e mais interessantes — e é nisso que estamos focados.”

O Walmart remeteu à sua declaração de procuração corporativa e destacou que a companhia tem sido “aberta e proativa ao discutir como IA e automação estão transformando” seus negócios, incluindo sua força de trabalho.

A pesquisa da United for Respect revela que ambas as empresas já começaram a automatizar funções de RH de formas perceptíveis para os funcionários. Na Amazon, por exemplo, trabalhadores como Watson agora se comunicam majoritariamente com o RH por meio de um assistente de IA, em vez de falar diretamente com gerentes de RH presentes nos armazéns.

À medida que essa mudança avança, muitos funcionários parecem sentir falta de conexões mais humanas. De fato, 56% dos trabalhadores da Amazon e Walmart entrevistados disseram se preocupar com o fato de o aumento do uso de IA resultar em menos contato com gerentes e colegas.

Cerca de 54% dos entrevistados também afirmaram que a adoção de IA levou à redução de equipes — em linha com uma transformação mais ampla que vem ocorrendo no mercado de trabalho, enquanto empresas de tecnologia cortam funcionários ao mesmo tempo em que ampliam investimentos em inteligência artificial.

“Muitos trabalhadores das duas empresas falaram sobre equipes reduzidas e disseram que a situação piorou agora que as companhias usam IA para fazer escalas”, afirma Agustin.

No caso da Amazon, a United for Respect apresentou uma proposta que será considerada na próxima assembleia de acionistas da empresa. O texto pede a criação de um conselho consultivo de IA composto por trabalhadores da linha de frente e especialistas independentes.

O objetivo é lançar luz sobre como os trabalhadores já estão sendo afetados por decisões automatizadas — e poderão ser ainda mais impactados no futuro — à medida que a IA redefine todos os aspectos das operações empresariais em companhias como Amazon e Walmart.

“Tenho conversado com advogados e especialistas em políticas públicas que estão começando a pensar seriamente em como precisamos reformular nossas estruturas regulatórias atuais para realmente proteger trabalhadores de decisões automatizadas”, diz Agustin. “Porque, se isso virar apenas algo atrás do qual empregadores podem se esconder, teremos uma crise para os trabalhadores.”


SOBRE A AUTORA

Pavithra Mohan é redatora da Fast Company. saiba mais