Na era da IA, matemática pode valer mais que ciência da computação?

O avanço da inteligência artificial está elevando o valor de profissionais que dominam matemática avançada, programação e análise de dados

contratação de matemáticos e cientistas da computação
Crédito: Unsplash

Louise Imber 4 minutos de leitura
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Cursar ciência da computação costumava ser considerado uma aposta segura de carreira, garantindo estabilidade financeira e emprego. Depois da recessão de 2008, muitos estudantes migraram para a área atraídos por suas perspectivas promissoras.

Nos Estados Unidos, entre 2008 e 2024, o número de diplomas em ciência da computação cresceu quase 500%, segundo o jornal "The Washington Post".

Nesse período, ciência da computação foi a terceira graduação mais popular, atrás apenas de enfermagem e psicologia, representando quase 5% dos recém-formados em início de carreira.

Mas a taxa de subemprego entre os graduados em ciência da computação é de 19%, segundo dados de 2024 do Federal Reserve Bank de Nova York. As recentes ondas de demissões em empresas como Amazon, Meta e Microsoft tornam a área ainda menos atraente.

Os estudantes universitários estão percebendo isso: uma pesquisa do Centro de Pesquisa do National Student Clearinghouse
mostra que o número de alunos de graduação que ingressam em cursos de ciência da computação caiu 8,4%.

Em uma publicação no X em fevereiro, o empreendedor e engenheiro de tecnologia Matt Shumer disse que “já não é mais necessário para o trabalho técnico propriamente dito” de seu cargo. Segundo ele, alguns dos melhores engenheiros do setor estão delegando seu trabalho de programação à inteligência artificial.

Na tentativa de se adaptar, universidades como Carnegie Mellon, MIT e Northwestern implementaram cursos de graduação em inteligência artificial. O curso de Inteligência Artificial e Tomada de Decisão do MIT já é o segundo maior da universidade.

"a maior vantagem que alguém pode ter é ser um matemático que sabe programar.”

No entanto, outra graduação que há muito tempo é um clássico na universidade está voltando a ganhar força: matemática. A procura por cursos de matemática caiu depois de 2018 e atingiu o ponto mais baixo em 2022.

Mas, desde então, sua popularidade vem aumentando lentamente, com crescimento de quase 2% até 2024, segundo dados do Sistema Integrado de Dados de Educação Pós-Secundária norte-americano.

Ao mesmo tempo, estima-se que as ocupações ligadas à matemática cresçam 28,7% entre 2021 e 2031, impulsionadas pela demanda crescente por profissionais formados em matemática nas áreas de análise de dados, finanças e tecnologia, de acordo com o Research.com.

A VANTAGEM MATEMÁTICA

Funções bem remuneradas para matemáticos estão surgindo nos setores de tecnologia e finanças. A ascensão da IA valorizou habilidades como cálculo estocástico, álgebra linear e métodos numéricos.

Matemáticos com formação avançada entendem a lógica fundamental por trás da IA e conseguem identificar erros e vieses. Eles também podem usar o raciocínio matemático para desenvolver novos algoritmos financeiros, o que os torna fundamentais para as principais empresas de análise quantitativa, gigantes de tecnologia e fundos de hedge.

O preço desse talento é alto: gigantes da IA como OpenAI e Anthropic agora oferecem salários que podem variar de US$ 180 mil a US$ 2 milhões, segundo a revista "Forbes".

Crédito: Tony Studio/ Peshkov/ Getty Images

As empresas de análise quantitativa – que usam modelos matemáticos avançados para analisar dados financeiros, otimizar carteiras de investimentos e lucrar com ineficiências do mercado – também elevaram a remuneração para competir pelos mesmos matemáticos.

Entre 2024 e 2025, os salários de associados em empresas que lidam com grandes volumes de dados cresceram 13%, segundo a eFinancialCareers.

E não foram apenas os associados: os salários de vice-presidentes e diretores cresceram 10% e 18%, respectivamente. Para comparação, os salários de analistas de tecnologia caíram 36,3%, enquanto a remuneração de associados recuou 13,8%.

Leia mais: Além do código: IA pode administrar até a estrutura de suporte aos softwares

Hoje, empresas desse tipo estão oferecendo salários iniciais de US$ 350 mil a US$ 500 mil para recém-formados em matemática.

“Acho que a maior vantagem que alguém pode ter é ser um matemático que sabe programar”, diz Daniel Hughes, diretor de pesquisa e negociação quantitativa da empresa de recrutamento Selby Jennings.

“Essas pessoas já provaram que conseguem passar muito tempo trabalhando em um problema, normalmente cinco anos durante o doutorado, e, quando começam a trabalhar com Python... é aí que as coisas ficam interessantes.”

CIENTISTAS DA COMPUTAÇÃO CONTINUAM NECESSÁRIOS

Mas, se sua paixão está em ciência da computação, e não em matemática, nem toda esperança está perdida. O segredo também pode estar em levar os conhecimentos de ciência da computação e programação para as empresas que lidam com massas de dados.

Um recrutador do setor, que pediu para não ser identificado por receio de perder clientes, afirmou que os modelos de IA desse tipo de empresa estão operando atualmente no mesmo nível de um estagiário mediano.

A IA ainda não consegue fazer análises financeiras da mesma maneira que um matemático experiente. Enquanto os gênios da matemática refinam os cálculos, cientistas da computação podem ser necessários para treinar os modelos.

Muitos fundos de investimento têm projetos de programação que ainda precisam de intervenção humana. Em vez de passar o dia inteiro programando, profissionais de ciência da computação nessas instituições podem treinar modelos financeiros ou programar subagentes de IA para executar tarefas mais específicas.

Se conseguirem tirar proveito dos novos sistemas de IA, cientistas da computação podem se tornar bastante valiosos para uma equipe de dados, segundo o recrutador.


SOBRE A AUTORA

Louise Imber é estagiária da Fast Company. saiba mais