“O burnout me ensinou que o corpo tem poder de veto”
Fundadora do Movimento Black Money fala sobre burnout, hipervigilância e por que ocupar espaços de poder não basta sem acesso a capital, tecnologia e propriedade.

O burnout aconteceu em 2013. Após uma trajetória de alta performance, marcada pela cobrança por entregas e resultados, Nina Silva chegou ao seu limite, em um esgotamento mental que a levou a não conseguir levantar da cama nem realizar tarefas básicas.
“O burnout me ensinou que o corpo tem poder de veto sobre qualquer estratégia. Hoje entendo que disciplina também é interromper, priorizar, delegar e recuperar.”
Com mais de 20 anos de experiência internacional em tecnologia, Nina Silva é executiva global, especialista em gestão de negócios e finanças, CEO e fundadora do Movimento Black Money, startup de inovação voltada para empreendedores negros, e do D’Black Bank. Em 2021, recebeu o Most Disruptive Woman in Tech Award, do Women In Tech Global Awards.
A experiência da executiva não é um caso isolado. De acordo com dados reunidos pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), os afastamentos por transtornos mentais tiveram um aumento de 67% entre 2023 e 2025. Já os registros de burnout passaram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025.
O PREÇO DE PROVAR QUE CONSEGUE
Nina tem passagem por empresas globais como Heineken, Honda e L’ Oréal, onde ocupou posições de liderança. Para ela, estar nesses espaços de prestígio exigia um esforço adicional: construir uma referência que nunca lhe foi dada como pressuposto.
A executiva chama esse desgaste de “imposto da hipervigilância”, a necessidade de provar competência antes de testar. “Enquanto algumas pessoas recebiam o benefício do potencial, eu era cobrada por evidência o tempo todo”, explica.
Essa vigilância constante se traduzia, para Nina, em um custo prático e cognitivo. Em vez de concentrar sua energia na formulação de estratégias de negócios, ela precisava desviar seu foco para se proteger de questionamentos sobre sua autoridade e direito de estar naquelas salas. Nina reconhece que a hipervigilância foi um dos fatores que culminaram em seu burnout.
“Parte da energia que deveria estar indo para criatividade e decisão acaba sendo usada em blindagem.”
Porém, esse cenário individual ganha contornos estruturais quando olhamos os dados de rendimento no Brasil. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE de 2024, trabalhadores brancos receberam, em média, 65,9% mais por hora do que trabalhadores pretos ou pardos. A disparidade persiste mesmo no topo da pirâmide: entre diretores e gerentes, o pagamento médio de brancos foi de R$ 9.831 , enquanto para pretos ou pardos o valor caiu para R$ 6.446.
O impacto dessa desigualdade é cumulativo. Como explica Nina: “Há um custo financeiro: menos salário, bônus, patrimônio, participação e redes”.
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OCUPAR NÃO É POSSUIR
Mesmo depois de alcançar o que o mercado define como auge, a executiva percebeu que havia chegado a um “teto invisível”. No entanto, foi nessa lacuna entre a posição ocupada e o poder real que ela consolidou uma de suas reflexões centrais: “Ocupar não é possuir”.
À primeira vista, sua trajetória poderia ser lida como um modelo individual de sucesso. Embora ela entenda que tenha conseguido atravessar uma porta, isso não significava que o caminho tenha se tornado automaticamente mais largo para quem vinha atrás. Em sua visão, “a excelência individual não corrige uma estrutura desigual”.

Foi nesse movimento que surgiu o Movimento Black Money: para além de ocupar espaços, criar caminhos, organizar acessos e construir sistemas desenhados para os seus.
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A CONSTRUÇÃO DE UM ECOSSISTEMA
A constatação de que a excelência individual não corrige uma estrutura desigual levou Nina Silva a redefinir seu papel no mercado. Em vez de atuar apenas como liderança em grandes corporações, ela passou a desenhar uma infraestrutura própria para enfrentar uma ineficiência que identifica no mercado brasileiro: o acesso fragmentado a crédito, tecnologia e educação.
Desde 2017, o Movimento Black Money (MBM) atua na articulação dessa estratégia, mobilizando a comunidade e identificando demandas econômicas. Outra iniciativa ligada à qualificação é o Afreektech, voltada ao desenvolvimento de competências e habilidades para a nova economia.
Na ponta financeira, o D’Black Bank está ligado, segundo Nina, à escassez histórica de crédito e à exclusão financeira enfrentada por afroempreendedores.
“No papel, são operações distintas. Na prática, funcionam como um mesmo ecossistema, quase como um volante que ganha força a cada giro. Não estamos montando uma coleção de unidades de negócios. Estamos abrangendo os intervalos entre aprender, produzir, vender, financiar e crescer”, explica a executiva.
O PODER DE CONSTRUIR
Para Nina Silva, o próximo passo dessa construção vai além de ocupar espaços: trata-se de redefinir quem participa da economia como produtor, não apenas como consumidor ou mão de obra. Sua visão é que pessoas negras e outros grupos historicamente afastados dos centros de decisão se tornem produtores, investidores, inventores e acionistas.

Essa transformação será operacionalizada através de uma holding de "inovabilidade", conceito criado por Nina que combina inovação, sustentabilidade, tecnologia e impacto desde a concepção das soluções. Para os próximos cinco anos, esse modelo ajudará a converter conhecimento em trabalho, negócios em escala, e tecnologia em propriedade intelectual e poder econômico real.