“O burnout me ensinou que o corpo tem poder de veto”

Fundadora do Movimento Black Money fala sobre burnout, hipervigilância e por que ocupar espaços de poder não basta sem acesso a capital, tecnologia e propriedade.

Retrato de Nina Silva usando roupa vermelha diante de flores.
Créditos: MARINHA / Francisco Marinho, Jei Lee via Unsplash

Beatriz Felizardo 4 minutos de leitura
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O burnout aconteceu em 2013. Após uma trajetória de alta performance, marcada pela cobrança por entregas e resultados, Nina Silva chegou ao seu limite, em um esgotamento mental que a levou a não conseguir levantar da cama nem realizar tarefas básicas. 

“O burnout me ensinou que o corpo tem poder de veto sobre qualquer estratégia. Hoje entendo que disciplina também é interromper, priorizar, delegar e recuperar.”

Com mais de 20 anos de experiência internacional em tecnologia, Nina Silva é executiva global, especialista em gestão de negócios e finanças, CEO e fundadora do Movimento Black Money, startup de inovação voltada para empreendedores negros, e do D’Black Bank. Em 2021, recebeu o Most Disruptive Woman in Tech Award, do Women In Tech Global Awards

A experiência da executiva não é um caso isolado. De acordo com dados reunidos pela Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), os afastamentos por transtornos mentais tiveram um aumento de 67% entre 2023 e 2025. Já os registros de burnout passaram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025. 

O PREÇO DE PROVAR QUE CONSEGUE

Nina tem passagem por empresas globais como Heineken, Honda e L’ Oréal, onde ocupou posições de liderança. Para ela, estar nesses espaços de prestígio exigia um esforço adicional: construir uma referência que nunca lhe foi dada como pressuposto. 

A executiva chama esse desgaste de “imposto da hipervigilância”,  a necessidade de provar competência antes de testar. “Enquanto algumas pessoas recebiam o benefício do potencial, eu era cobrada por evidência o tempo todo”, explica. 

Essa vigilância constante se traduzia, para Nina,  em um custo prático e cognitivo. Em vez de concentrar sua energia na formulação de estratégias de negócios, ela precisava desviar seu foco para se proteger de questionamentos sobre sua autoridade e direito de estar naquelas salas. Nina reconhece que a hipervigilância foi um dos fatores que culminaram em seu burnout. 

“Parte da energia que deveria estar indo para criatividade e decisão acaba sendo usada em blindagem.”

Porém, esse cenário individual ganha contornos estruturais quando olhamos os dados de rendimento no Brasil. De acordo com a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE de 2024, trabalhadores brancos receberam, em média, 65,9% mais por hora do que trabalhadores pretos ou pardos. A disparidade persiste mesmo no topo da pirâmide: entre diretores e gerentes, o pagamento médio de brancos foi de R$ 9.831 , enquanto para pretos ou pardos o valor caiu para R$ 6.446. 

O impacto dessa desigualdade é cumulativo. Como explica Nina: “Há um custo financeiro: menos salário, bônus, patrimônio, participação e redes”. 

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OCUPAR NÃO É POSSUIR

 

Mesmo depois de alcançar o que o mercado define como auge, a executiva percebeu que havia chegado a um “teto invisível”. No entanto, foi nessa lacuna entre a posição ocupada e o poder real que ela consolidou uma de suas reflexões centrais: “Ocupar não é possuir”. 

À primeira vista, sua trajetória poderia ser lida como um modelo individual de sucesso. Embora ela entenda que tenha conseguido atravessar uma porta, isso não significava que o caminho tenha se tornado automaticamente mais largo para quem vinha atrás. Em sua visão, “a excelência individual não corrige uma estrutura desigual”.

Nina Silva posa em um escritório usando blusa preta e calça amarela.
Para Nina Silva, alcançar posições de liderança não basta quando o poder e os recursos continuam distribuídos de forma desigual.

Foi nesse movimento que surgiu o Movimento Black Money: para além de ocupar espaços, criar caminhos, organizar acessos e construir sistemas desenhados para os seus.

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A CONSTRUÇÃO DE UM ECOSSISTEMA

A constatação de que a excelência individual não corrige uma estrutura desigual levou Nina Silva a redefinir seu papel no mercado. Em vez de atuar apenas como liderança em grandes corporações, ela passou a desenhar uma infraestrutura própria para enfrentar uma ineficiência que identifica no mercado brasileiro: o acesso fragmentado a crédito, tecnologia e educação. 

Desde 2017, o Movimento Black Money (MBM) atua na articulação dessa estratégia, mobilizando a comunidade e identificando demandas econômicas. Outra iniciativa ligada à qualificação é o Afreektech, voltada ao desenvolvimento de competências e habilidades para a nova economia. 

Na ponta financeira, o D’Black Bank está ligado, segundo Nina, à escassez histórica de crédito e à exclusão financeira enfrentada por afroempreendedores. 

“No papel, são operações distintas. Na prática, funcionam como um mesmo ecossistema, quase como um volante que ganha força a cada giro. Não estamos montando uma coleção de unidades de negócios. Estamos abrangendo os intervalos entre aprender, produzir, vender, financiar e crescer”, explica a executiva.

O PODER DE CONSTRUIR

Para Nina Silva, o próximo passo dessa construção vai além de ocupar espaços: trata-se de redefinir quem participa da economia como produtor, não apenas como consumidor ou mão de obra. Sua visão é que pessoas negras e outros grupos historicamente afastados dos centros de decisão se tornem produtores, investidores, inventores e acionistas.

Nina Silva segura um certificado diante das bandeiras de países do Brics.
Nina Silva recebeu reconhecimento na categoria Educação e Desenvolvimento de Habilidades do BRICS Women’s Startup Contest 2026.

Essa transformação será operacionalizada através de uma holding de "inovabilidade", conceito criado por Nina que combina inovação, sustentabilidade, tecnologia e impacto desde a concepção das soluções. Para os próximos cinco anos, esse modelo ajudará a converter conhecimento em trabalho, negócios em escala, e tecnologia em propriedade intelectual e poder econômico real.


SOBRE A AUTORA

Beatriz Felizardo é estudante de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, apaixonada por direitos humanos e curiosa sobre as transformaç... saiba mais