O mundo está envelhecendo. Por que ainda é desenhado para os jovens?
O envelhecimento do Brasil revela como produtos, serviços e ambientes de trabalho ainda são construídos para uma população predominantemente jovem

O Brasil está envelhecendo – e a mudança já aparece nos números. Em 2024, o Brasil tinha 34,1 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo o IBGE. Em 2012, eram 22 milhões. Ou seja, em 12 anos, a população idosa cresceu 53,3%.
O tema da longevidade ganhou espaço durante o SP2B, festival de inovação, cultura, empreendedorismo e negócios realizado esta semana, em São Paulo.
Mais do que debater o envelhecimento como uma questão demográfica, no entanto, coube aos participantes questionar a estrutura de uma sociedade construída para uma expectativa de vida muito diferente da atual.
Se as pessoas vivem mais, trabalham por mais tempo e permanecem ativas em diferentes espaços sociais, por que tantos ambientes ainda são pensados para uma população predominantemente jovem?
A longevidade não começa na velhice: ela é construída ao longo da vida. Mas o aumento dos anos vividos só representa um avanço quando vem acompanhado de saúde, autonomia e independência.
Se a vida se torna mais longa, também pode se tornar menos linear. A ideia de que existe uma idade determinada para estudar, trabalhar, alcançar o auge profissional e, depois, deixar o mercado começa a perder sentido diante dessa nova realidade.
INTUITIVA PARA QUEM?
Se uma plataforma é difícil de compreender, talvez o problema não esteja na falta de habilidade de quem a utiliza, mas em um design que desconsidera diferentes perfis de usuários.
Foi nesse contexto que Yeda Duarte, pesquisadora e coordenadora do Estudo SABE, da Universidade de São Paulo (USP), lançou a pergunta: “é intuitivo para você ou para quem desenvolveu?”.
Um dos exemplos apresentados pela pesquisadora foi a migração dos serviços bancários para o ambiente digital. Segundo Yeda, o modelo atual não exclui apenas os idosos, mas também pessoas com menor nível de escolaridade, criando barreiras de acesso para uma parcela maior da população.

A inclusão digital, portanto, não pode ser pensada apenas como um processo no qual pessoas mais velhas aprendem a utilizar ferramentas criadas por outras gerações. Ouvir esses usuários durante o processo de desenvolvimento das tecnologias também faz parte da inclusão.
A questão deixa de ser apenas se uma pessoa mais velha consegue aprender a usar determinada plataforma. É preciso perguntar se a plataforma foi desenvolvida considerando pessoas com diferentes experiências e formas de interação.
MAIS TEMPO NA ATIVA
O envelhecimento da população também atinge a organização das carreiras. Se uma parcela cada vez maior dos brasileiros chega aos 60 anos e continua profissionalmente ativa, o modelo baseado em uma trajetória linear – entrada no mercado, crescimento, liderança e aposentadoria – passa a ser questionado.
Para Sérgio Serapião, fundador do movimento LAB60+, veremos cada vez mais diversas gerações compartilhando o mesmo ambiente profissional. “Muito do trabalho futuro vai ser multigeracional. Vamos ter cinco gerações trabalhando juntas”, afirmou.
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A questão não é só reunir diferentes faixas etárias no mesmo ambiente, mas fazer essa convivência funcionar. Pessoas de diferentes gerações chegam ao trabalho com trajetórias, experiências e formas de conhecimento distintas. Em vez de estabelecer uma hierarquia entre elas, as empresas precisam reconhecer e aproveitar as contribuições de cada uma.
O mercado terá de criar condições para que pessoas de diferentes idades possam participar dele de maneiras diversas e continuar aprendendo ao longo de trajetórias profissionais mais extensas.
O PROBLEMA É A CONDIÇÃO, NÃO A IDADE
Essa mudança também exige rever a maneira como determinadas limitações são interpretadas no ambiente profissional. Para Serapião, uma dificuldade na execução de uma tarefa não deve ser automaticamente atribuída à idade do trabalhador.
“Se uma pessoa não consegue permanecer quatro horas de pé em uma linha de produção, por exemplo, isso não deveria ser automaticamente classificado como um ‘problema de velho’. Pode ser, antes de tudo, um problema de condição de trabalho”, apontou.
veremos cada vez mais diversas gerações compartilhando o mesmo ambiente profissional.
Nesse caso, a solução não seria substituir o trabalhador, mas pensar em adaptações que permitam que diferentes pessoas desempenhem a mesma função. A discussão desloca o foco da idade para as condições oferecidas pelo próprio trabalho.
O envelhecimento da população brasileira já está alterando a composição da sociedade. O trabalho e a tecnologia, no entanto, ainda carregam modelos construídos para outra configuração demográfica.
No mercado, isso significa repensar trajetórias profissionais e condições de trabalho para uma vida mais longa. Na tecnologia, significa deixar de tratar a dificuldade de determinados usuários como um problema individual e considerar suas experiências desde o desenvolvimento das ferramentas.
Se viver mais já é uma realidade, o próximo passo é construir uma sociedade na qual esses anos adicionais possam ser vividos com autonomia, participação e acesso aos avanços tecnológicos.