O invisível, as perguntas e a liderança

A revolução atual é invisível. O futuro do trabalho depende de líderes que sabem fazer perguntas

Créditos: Josephine Vyeda/ Unsplash/ Magnific/ Orla/ Getty Images

Dayana Wollmeister 3 minutos de leitura

Pense no gesto automático de acender a luz. Você não reflete sobre a fiação ou a usina geradora; o fato simplesmente acontece, a luz acende. A tecnologia só vira rotina quando deixa de ser o assunto principal e passa a ser invisível. 

É o que estamos vivendo no mercado. Em breve, destacar "domínio de IA" no currículo será tão redundante quanto dizer "sei usar a internet".

Essa absorção silenciosa mostra que o debate real se move da  tecnologia em si para o futuro do trabalho, que, inevitavelmente, terá a IA integrada a cada detalhe. E, mesmo sem perceber, nós somos a engrenagem dessa transição.

Tive essa epifania  há poucos dias. Junto com o time de liderança de uma grande multinacional, nos reunimos para debater a aplicação prática da inteligência artificial.

O pretexto era desenhar o amanhã, mas o choque de realidade veio dos especialistas: o segredo para moldar o futuro do trabalho não está na sofisticação do algoritmo, mas, ironicamente no humano: na nossa capacidade de absorver a mudança no dia a dia.

O NOVO ATIVO DA LIDERANÇA É A PERGUNTA, NÃO A RESPOSTA

Fomos ensinados que liderar é ter respostas na ponta da língua. Esqueça isso. No novo cenário profissional, qualquer resposta padrão está a um clique. O verdadeiro gargalo agora é a falta de perguntas inteligentes. 

O papel do líder no futuro do trabalho virou o de um provocador. Precisamos treinar as pessoas para duvidar, refinar e investigar. Estimulá-las a exercitar o pensamento crítico, que é a nossa  linha de defesa estritamente humana. Na prática, isso exige estimular uma desobediência inteligente. 

A desobediência inteligente carrega um paradoxo desconfortável: fomos educados para acreditar que desobedecer é o caminho mais rápido para o fracasso. Mas, no cenário atual, o verdadeiro risco mudou de lado. Seguir padrões à risca já não é garantia de segurança, ao contrário, é receita para a obsolescência.

Liderar nesta era de ambiguidades exige abraçar essa contradição. Significa entender que, para ganhar eficiência, precisamos incentivar o questionamento e dar espaço para que os times eliminem processos velhos que a máquina resolve em segundos.

Leia mais: O que acontece com o cérebro quando terceirizamos o pensamento para a IA

O papel do líder agora é calibrar essa transição: capacitar as pessoas para filtrar o ruído tecnológico focando no valor real e garantir a segurança psicológica de que errar tentando o novo será celebrado, e não punido.

Convenhamos: fica bonito no papel, mas na prática não é nada simples. Lideramos profissionais que foram moldados pelo sistema tradicional a apenas preencher lacunas e obedecer. Mudar essa chave exige coragem.

NAVEGANDO NO RIO DE HERÁCLITO: A FILOSOFIA DA MUDANÇA

Heráclito já previa há séculos: "ninguém pisa no mesmo rio duas vezes". O rio do mercado corre rápido demais; o rio que entramos hoje não é o mesmo de amanhã.

Muita coisa muda em 24 horas. Onde achar terra firme no meio desse caos? Na nossa capacidade de abstração. A arte nos salva nesses momentos.

"Guernica", de Pablo Picasso (1937) Crédito: Reprodução

Me peguei olhando para uma réplica de "Guernica", de Pablo Picasso, que tenho em casa. Pintado durante a guerra civil espanhola, o quadro me lembra que a humanidade já tremeu diante de outras rupturas e sobreviveu, se reinventando no processo.

No fim fica a pergunta: qual será a importância do humano? Não acho que a automação vá nos desumanizar. Pelo contrário, ela vai nos obrigar a ser mais humanos do que nunca.

Empatia, intuição, criatividade e coragem não são programáveis, e são elas que vão ditar o sucesso das empresas daqui para frente.


SOBRE A AUTORA

Dayana Wollmeister é head de sustentabilidade da Philip Morris International, coautora do podcast Elas em Movimento e autora do canal ... saiba mais