O motor sem piloto

A revolução da IA vai piorar antes de melhorar. O que isso exige de quem lidera?

Pessoa de terno aparece caindo de forma desordenada junto com móveis e objetos de escritório, como cadeira, mesa e computador, em um fundo surreal com céu e nuvens. A composição sugere perda de controle, colapso profissional ou instabilidade no trabalho.
master1305 via Getty Images / NASA, Marissa Lewis via Unsplash

Cadu Lemos 6 minutos de leitura

A Gallup acabou de publicar o maior estudo contínuo sobre experiência de trabalho no mundo. São dados de mais de 140 países. O que encontrei ali confirma algo que sinto há anos em cada workshop, em cada mentoria com executivos, em cada olhar perdido de gestor que já não sabe para onde levar o time: a crise é de presença, de gente, de atenção.

Os números falam com uma contundência que a minha opinião sozinha não teria. Engajamento global em 20%, o mais baixo desde 2020. Custo estimado: US$ 10 trilhões por ano, 9% do PIB do planeta. Um total de US$ 40 bilhões investidos em IA corporativa, e 95% das organizações sem impacto mensurável nos lucros. A produtividade individual melhora, 65% dos trabalhadores percebem isso, mas a organização não sente. Cada músico toca melhor e a orquestra soa pior.

As empresas cortam cargos de gestão intermediária, achatam hierarquias, empilham mais gente debaixo de menos líderes.

O dado mais perturbador, porém, é outro. Desde 2022, o engajamento dos gestores caiu nove pontos. Cinco só no último ano. O “prêmio de engajamento” que gestores sempre tiveram sobre quem lideram praticamente desapareceu.  Ao mesmo tempo, as empresas cortam cargos de gestão intermediária, achatam hierarquias, empilham mais gente debaixo de menos líderes. Fazem isso no exato momento em que precisariam de uma liderança melhor para conduzir a transição mais complexa das suas histórias. É como trocar o motor de um carro a 200 km/h e, para economizar peso, tirar o volante.

VAI PIORAR ANTES DE MELHORAR

Preciso dizer isso com todas as letras porque acredito que honestidade é a única forma real de respeito. O cenário para os próximos 12 a 24 meses é de deterioração. A maioria das empresas vai continuar cortando gestores e distribuindo licenças de IA como se a ferramenta, sozinha, gerasse resultado. Vai haver ganhos de produtividade individual e, simultaneamente, erosão de coesão, mais desengajamento, menos segurança psicológica. Em setores como finanças, seguros e tecnologia, onde 31 a 32% dos trabalhadores já acreditam que seus empregos serão eliminados em cinco anos, as reestruturações já estão acontecendo. A América Latina vai sentir com atraso. Mas vai sentir.

Os números brasileiros mostram engajamento de 32%, estresse diário em 45%, otimismo sobre o mercado de trabalho em 66%.

E quando a onda chegar ao Brasil, vai encontrar um tecido empresarial que já é estruturalmente frágil em gestão de pessoas. Os números brasileiros mostram engajamento de 32%, estresse diário em 45%, otimismo sobre o mercado de trabalho em 66%. Esse otimismo é uma ilusão de distância. Estamos olhando para a onda de longe e achando que ela é pequena.

Aqui me separo do Gallup. Os dados são sólidos, a interpretação nem tanto. O Gallup vende engajamento, então a solução que oferece é previsível: invistam em gestores, treinem gente, usem nossas ferramentas. O diagnóstico está correto, mas repare a superfície do que está acontecendo.

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Gestores estão desengajando porque operam dentro de uma arquitetura de liderança que já morreu e ninguém fez o funeral. A lógica de comando e controle, eu mando, você executa, o resultado aparece no final do trimestre, não funciona num mundo complexo demais para que uma pessoa no topo saiba o que deve ser feito. A IA vai tornar isso brutalmente visível. Ela vai absorver a parte transacional do trabalho de gestão, delegar, cobrar, reportar, compilar, e o que vai sobrar é exatamente o que a maioria dos gestores nunca aprendeu a fazer: estar presente, criar condições para que outros pensem melhor, escutar sem já ter a resposta pronta. Sustentar a tensão de não saber.

Líderes têm mais voz, mais agência, mais status e, ao mesmo tempo, mais estresse, mais raiva, mais tristeza, mais solidão do que as pessoas que eles e elas lideram.

O relatório mostra que líderes têm mais voz, mais agência, mais status e, ao mesmo tempo, mais estresse, mais raiva, mais tristeza, mais solidão do que as pessoas que eles e elas lideram. Isso acontece porque a liderança convencional se constrói sobre o ego: identificação com o papel e o poder que ele representa e claro,  com o controle dos resultados. Quando alguém lidera a partir do ego, cada pressão vira ameaça existencial, cada resultado negativo vira falência pessoal. A solidão dos líderes, documentada nos dados do Gallup, é o resultado direto de liderar a partir de um lugar de separação.

Eu trabalho com isso há anos e o que vejo em escala, de São Paulo a Dubai, de salões corporativos a pit stops com réplicas de Fórmula 1, é sempre a mesma coisa: o modelo de liderança baseado em separação, eu aqui, você ali e entre nós, um contrato puramente transacional, que não aguenta o peso do que está por vir. Confiança nasce quando o líder consegue estar inteiro diante de outro ser humano sem precisar de posição, título ou controle para sustentar sua própria presença.

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Liderança além do ego é uma necessidade operacional neste momento. Quando o líder opera sem se confundir com o papel que ocupa, a qualidade da atenção muda completamente. A reação dá lugar à resposta. A proteção de território dá lugar à criação de espaço. A presença, essa capacidade de estar inteiro no que está acontecendo, é o que permite sustentar a ambiguidade e o desconforto que a IA traz para dentro de cada sala de reunião.

desenvolvimento sustentável versus inteligência artificial
Créditos: baona/ akinbostanci/ Yutthana Gaetgeaw/ champpixs/ Getty Images

Nas organizações de referência do Gallup, 79% dos gestores estão engajados, quase quatro vezes a média global. O que elas têm em comum vai além de processos. É uma cultura onde resultado é consequência da relação, onde as pessoas trabalham com as outras pessoas e o número aparece. Numa cultura comando e controle, resultado é ponto de partida: define a meta e cobra a entrega. Numa cultura relacional, resultado é consequência: crie as condições, nutra a confiança, permita que a inteligência coletiva opere. Décadas de meta-análise mostram correlação robusta entre engajamento e rentabilidade. Engajamento se produz na qualidade da relação entre o gestor e cada pessoa da equipe, ou simplesmente não acontece.

O QUE FICA QUANDO TUDO MUDA

A IA vai fazer o que toda tecnologia disruptiva faz: destruir o médio. O trabalho médio, a liderança média, o engajamento médio. A máquina faz o médio mais barato e mais rápido. O que vai ficar e prosperar é o que é profundamente humano: a capacidade de estar presente diante de outro ser humano, de construir confiança sem script, de tomar decisões em território desconhecido, de sustentar a tensão criativa que gera o que a gente insiste em chamar de inovação.

As organizações que vão ser bem sucedidas na era da IA são as que têm gente capaz de usá-la a partir de um lugar de inteireza.

Resultado é consequência de estado interno. Quando uma equipe opera em flow, com confiança, presença, propósito compartilhado e desafio calibrado, o resultado aparece. As condições tornaram o resultado inevitável, sem que alguém precise mandar. As organizações que vão ser bem sucedidas na era da IA são as que têm gente capaz de usá-la a partir de um lugar de inteireza. Isso começa pelo líder. E o líder começa por si mesmo.

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US$ 10 trilhões por ano. Esse é o preço que o mundo paga por ter esquecido que resultado é o que acontece quando gente de verdade se encontra. Nenhuma IA resolve isso. Porque o problema, desde sempre, é de presença.

Fonte dos dados: Gallup, Inc. State of the Global Workplace: 2026 Report.


SOBRE O AUTOR

Cadu Lemos é idealizador do Projeto Flow. saiba mais