O valor de continuar fazendo perguntas

Enquanto sistemas processam dados, seres humanos criam cultura, constroem narrativas e imaginam futuros

a curiosidade é um dos principais motores da evolução humana e da inovação
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Luana Aquino 3 minutos de leitura

Vivemos uma era marcada por uma aparente contradição. Nunca tivemos acesso a tantas ferramentas capazes de ampliar nossa produtividade, criatividade e alcance. Ao mesmo tempo, nunca fomos tão pressionados a produzir mais, responder mais rápido e disputar atenção em um ambiente cada vez mais automatizado.

Em meio à ascensão da inteligência artificial, uma pergunta se torna inevitável: o que continuará sendo exclusivamente humano?

Durante sua participação no São Paulo Innovation Week 2026, o físico e astrônomo Marcelo Gleiser trouxe uma reflexão que ficou ecoando muito além do palco. Em vez de concentrar sua fala na capacidade das máquinas, destacou a curiosidade como um dos principais motores da evolução humana e da inovação. 

A provocação ganha ainda mais força quando observamos a economia da atenção. Segundo relatório da Grand View Research, a chamada creator economy movimentou aproximadamente US$ 252 bilhões em 2025 e pode ultrapassar US$ 1,3 trilhão até 2033.

Leia mais: O risco criativo de deixar a IA fazer todo o trabalho

Os números ajudam a explicar por que a produção de conteúdo se tornou uma das atividades mais relevantes da economia digital. No entanto, o crescimento exponencial da oferta de conteúdo também produziu um novo desafio: a escassez de atenção.

Durante anos, relevância foi sinônimo de alcance. O sucesso era medido por visualizações, curtidas e compartilhamentos. Hoje, porém, ser visto já não basta. Em um ambiente saturado por informações, o valor está cada vez mais associado à capacidade de gerar conexão, construir confiança e criar significado.

A IA democratizou a criação e acelerou processos que antes exigiam equipes inteiras. Mas também criou um cenário em que a tecnologia, por si só, deixou de ser diferencial.

Quando todos têm acesso às mesmas ferramentas, o valor migra da execução para a interpretação. Não está apenas em produzir mais, mas em oferecer perspectivas únicas.

seres humanos criam cultura, constroem narrativas e imaginam futuros
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Essa transformação já impacta o mercado de trabalho. Dados divulgados pelo site Axios, com base em levantamento do Interactive Advertising Bureau (IAB), mostram que o número de criadores digitais em tempo integral nos EUA cresceu de cerca de 200 mil para 1,5 milhão entre 2020 e 2024.

O avanço revela que novas formas de trabalho estão surgindo a partir da capacidade de criar, comunicar e construir comunidades.

É nesse ponto que a reflexão de Marcelo Gleiser se torna especialmente relevante. Algoritmos são especialistas em identificar padrões. Pessoas têm a capacidade de questioná-los.

A inovação raramente nasce da repetição; ela surge quando alguém conecta referências improváveis, desafia consensos ou enxerga oportunidades onde ninguém mais estava olhando. Curiosidade, repertório, pensamento crítico e imaginação continuam sendo competências profundamente humanas, e cada vez mais valiosas.

continuar fazendo boas perguntas pode ser o ato mais humano, e talvez o mais estratégico, de todos.

Essa discussão vai além das empresas ou dos profissionais da tecnologia. Ela alcança as cidades, a educação e a forma como construímos nossas relações.

Em um cenário no qual atividades operacionais serão progressivamente automatizadas, habilidades como criatividade, colaboração, empatia e capacidade de atribuir significado às experiências ganham valor estratégico.

Talvez o grande desafio do nosso tempo não seja aprender a conviver com a inteligência artificial, mas evitar que passemos a pensar como ela. A lógica dos algoritmos privilegia eficiência, previsibilidade e repetição. A lógica humana prospera na dúvida, na experimentação e na descoberta.

Ao ouvir Marcelo Gleiser falar sobre curiosidade, ficou evidente que a discussão sobre tecnologia não é, no fundo, uma discussão sobre máquinas. É uma discussão sobre pessoas.

Enquanto sistemas processam dados, seres humanos criam cultura, constroem narrativas e imaginam futuros. Em uma era marcada pelo excesso de respostas, continuar fazendo boas perguntas pode ser o ato mais humano, e talvez o mais estratégico, de todos.


SOBRE A AUTORA

Luana Aquino é jornalista e head de comunicação do STATE, com experiência em impresso, digital e TV. Atua na construção de marcas com ... saiba mais