O treino invisível dos atletas de e-sports
Fisioterapia, academia, pausas ativas e apoio psicológico entram na rotina de profissionais expostos a dores, movimentos repetitivos e longas jornadas diante das telas

Para quem acompanha uma partida de e-sports, o esforço físico pode não ser a primeira coisa que vem à cabeça. Os jogadores estão sentados, diante de um computador ou console, enquanto os movimentos se concentram principalmente nas mãos. Mas, por trás das telas, existe uma rotina de alto rendimento.
Para chegar ao nível profissional, um atleta de e-sports passa longos períodos diante do computador ou do console, repetindo movimentos e mantendo a concentração durante partidas e sessões de treinamento. O que pode parecer, à primeira vista, uma atividade predominantemente sedentária exige cuidados semelhantes aos de outras modalidades esportivas, ainda que os tipos de desgaste sejam diferentes.
O CORPO TAMBÉM FAZ PARTE DO TREINO
Embora não envolva, na maioria das vezes, colisões ou traumas físicos como os esportes tradicionais, o e-sport apresenta outro tipo de exigência. O corpo permanece durante horas na mesma posição, enquanto mãos, punhos e dedos realizam movimentos repetitivos.
Entre os problemas observados estão dores nas regiões lombar, cervical e torácica, além de tendinopatias nos punhos provocadas pelo uso repetitivo do mouse. Em jogos realizados em dispositivos móveis, os polegares também podem sofrer sobrecarga. Outro fator é o chamado overuse, quando o corpo é submetido a uma carga maior do que está preparado para suportar.
Leonardo Velloza, fisioterapeuta e coordenador de performance da Vivo Keyd Stars, acompanha essa rotina de perto. Segundo ele, o longo período sentado e a repetição dos movimentos podem favorecer o aparecimento de dores e lesões.
A preocupação também aparece para Marcos Oliveira, o “Cariok”, jogador profissional da paiN Gaming, que começou a carreira em 2017. Segundo o jogador, a repetição dos movimentos durante muitas horas faz com que o acompanhamento profissional seja necessário. “Hoje com físio a gente faz muitos exercícios preventivos para não chegar a ter e, caso a gente tenha, também tem como dar uma tratada”, explica Oliveira.
A PROFISSIONALIZAÇÃO MUDA A ROTINA
Os cuidados com o corpo fazem parte de uma transformação maior no cenário. Para Oliveira, a diferença em relação aos primeiros anos é clara. O que antes tinha uma estrutura mais próxima do amadorismo passou a se aproximar de uma profissão convencional. “Realmente começa a ficar como um trabalho. Tem horário, você não pode chegar atrasado, tem metas para cumprir”, explica Oliveira.
Durante os primeiros anos do cenário profissional, era comum que os jogadores morassem e treinassem juntos nas chamadas gaming houses. O modelo favorecia a imersão e a convivência da equipe, mas também dificultava a separação entre trabalho e vida pessoal. “Você mora com as pessoas que você trabalha. Então, se você tiver um dia estressante, você não consegue deixar de ver aquela pessoa”, explica Oliveira.
A chegada dos game offices mudou essa dinâmica. O jogador passa a ter um local específico para treinar e depois pode retornar para casa, criando uma separação maior entre o ambiente competitivo e a vida pessoal. Na Vivo Keyd Stars, parte desse trabalho é feita por meio de atividades coletivas, acompanhamento psicológico e momentos fora do ambiente estritamente profissional. A equipe também incentiva os jogadores a fazerem atividades juntos, como sair para jantar ou ir ao cinema.
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PREPARAR O CORPO PARA A CARGA
A profissionalização também organiza a quantidade de tempo dedicada ao jogo. Na Vivo Keyd Stars, os atletas chegam ao office por volta das 10h30 ou 11h. O treinamento coletivo ocupa boa parte da tarde, com partidas e momentos destinados à análise dos jogos. Depois, ainda existem treinamentos individuais, partidas ranqueadas e atividades para aprimorar mecânicas e estratégias, que podem avançar pela noite.
Na rotina de Oliveira, o dia começa com uma reunião ao meio-dia. O treinamento coletivo acontece principalmente entre 13h e 20h30, com partidas que simulam as condições encontradas nos campeonatos. Depois disso, os jogadores podem continuar jogando partidas ranqueadas para trabalhar mecânicas específicas ou colocar em prática orientações recebidas da comissão técnica.
A diferença em relação ao jogador amador está justamente na finalidade desse tempo. Para quem joga por lazer, uma partida pode ser uma atividade entre escola, faculdade, trabalho ou outras obrigações. Para o profissional, o jogo é o próprio trabalho e precisa produzir resultados.
Para suportar essa carga, a preparação física passa a fazer parte da rotina. Na fisioterapia, podem ser utilizados exercícios de força, mobilidade, liberação miofascial e outras estratégias de prevenção. Velloza compara o processo à adaptação de um músculo a uma carga maior: se o corpo precisa passar de uma atividade leve para uma exigência muito maior todos os dias, é necessário prepará-lo para isso.
Oliveira também incorporou atividades físicas à própria rotina. O jogador conta que a academia passou a ocupar um espaço importante, não apenas pelo condicionamento físico, mas também pelo impacto sobre sua saúde mental. Para ele, essa preocupação se torna ainda mais importante em um ambiente no qual o jogador pode passar grande parte do dia pensando exclusivamente em League of Legends.
POSTURA NÃO BASTA: AS PAUSAS TAMBÉM SÃO NECESSÁRIAS
A ergonomia também ocupa espaço na prevenção. Ajustar cadeira, mesa, monitor e postura pode reduzir riscos, mas, para Velloza, existe um problema quando a preocupação se limita à posição correta do corpo. Mesmo uma boa postura pode se tornar prejudicial quando mantida durante horas sem movimentação.
Por isso, as pausas ativas são importantes. Entre uma partida e outra, levantar, caminhar e movimentar o corpo ajuda a interromper os longos períodos de imobilidade. “Além de ter uma boa postura, colocar pausas ativas entre um jogo e outro é muito importante pra prevenção de lesão também, principalmente das dores posturais”, explica Velloza.
QUANDO A COMPETIÇÃO AUMENTA, O CORPO SENTE
A carga de um atleta não é necessariamente igual durante toda a temporada. Em momentos decisivos, como playoffs e finais, a tensão e a concentração aumentam, o que pode contribuir para um desgaste maior.
Em uma série melhor de cinco partidas, por exemplo, um jogador pode passar horas sob tensão e esforço de concentração. Oliveira conta que, depois de algumas disputas, chega a sentir o desgaste físico da própria partida.
Em 2026, o CBLOL voltou a ser uma liga independente depois de a Riot Games reunir as competições das Américas na League of the Americas (LTA) em 2025. Mais do que a estrutura da competição, o cenário ajuda a ilustrar como a carga pode mudar ao longo de uma temporada.

A preparação também precisa considerar o horário em que as partidas acontecem. Para Oliveira, os treinamentos procuram reproduzir as condições encontradas nos campeonatos. Se a partida oficial acontece durante a tarde, por exemplo, o jogador precisa estar acostumado a apresentar seu melhor desempenho naquele horário.
Por isso, a rotina de treinamento é organizada para que o corpo esteja preparado para os horários das competições. Quando a tabela sofre alterações, os atletas precisam adaptar seus horários de descanso. A lógica é fazer com que o campeonato seja o mais próximo possível daquilo que o jogador vivencia durante a preparação.
LONGEVIDADE: O MITO DOS 25 ANOS
Existe uma percepção recorrente de que jogadores de e-sports, quando chegam aos 25 anos, já são considerados velhos e logo vão se aposentar. Oliveira discorda da ideia de que a idade, por si só, seja o principal fator responsável pelo fim de uma carreira. Para ele, existe muito talento jovem chegando ao cenário, o que aumenta a competição pelas vagas. Mas a dificuldade de permanecer em alto nível estaria menos relacionada à perda de reflexos e mais à capacidade de manter a rotina exigida pela profissão.
Velloza também questiona a ideia de uma “data de validade” tão precoce. Para ele, biologicamente, ainda existe espaço para um atleta continuar competindo em alto nível. O exemplo mais evidente está fora do Brasil. Em 2026, Lee “Faker” Sang-hyeok, um dos maiores nomes da história do League of Legends, completou 30 anos e segue como jogador da T1.
Para Velloza, o fator determinante pode ser outro: a motivação. “Se você tem motivação, você vai fazer por onde, você vai buscar e vai performar, digamos assim, se fizer tudo certinho”, explica Velloza.
COMO SUSTENTAR UMA CARREIRA MAIS LONGA
A longevidade também esbarra em uma característica do esporte profissional: a necessidade de apresentar resultados. Para uma organização, resultado significa títulos, visibilidade e patrocínio. Para o jogador, pode significar permanência na equipe.
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Velloza reconhece que o cenário brasileiro ainda é muito orientado pelo desempenho imediato. “Resultado é muito importante. A gente precisa ter resultado. A gente precisa vencer. Só que o resultado não pode ser o fim”, afirma Velloza.
A incerteza também faz parte da profissão. Contratos podem oferecer segurança por alguns anos, mas o desempenho continua sendo um fator importante para a permanência no cenário. Uma lesão, uma queda de rendimento ou a chegada de um novo talento podem alterar rapidamente o futuro de um jogador.
Por isso, Oliveira recomenda que quem está começando não pense apenas na próxima partida. “É muito importante você cuidar da sua carreira, do seu dinheiro, investir, porque é algo que pode acabar”, afirma Oliveira.
A construção de uma imagem pública também pode funcionar como uma forma de continuidade profissional. Um jogador que constrói uma comunidade pode migrar para criação de conteúdo, transmissões, narração ou outras funções do ecossistema. A carreira, nesse caso, não precisa terminar quando o atleta deixa de competir.
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O crescimento dos e-sports trouxe estruturas mais profissionais, mas ainda existe um desafio na formação dos jogadores. Em modalidades esportivas tradicionais, categorias de base costumam ensinar desde cedo aspectos relacionados à rotina de um atleta, como preparação física, alimentação, descanso e recuperação. Nos e-sports, essa cultura ainda está sendo consolidada.
Nesse contexto, profissionais de fisioterapia, psicologia e preparação física passam a cumprir também uma função educativa. O objetivo não é apenas tratar lesões depois que elas aparecem, mas ensinar os jogadores a compreenderem o próprio corpo e a rotina necessária para sustentar uma carreira.
A profissionalização, assim, deixa de significar apenas treinar mais. Ela passa a envolver a criação de condições para que o atleta consiga treinar, competir e permanecer saudável durante mais tempo.