Como a Amazon ajudou a brasileira Aquiris a entrar no jogo internacional

Amazon Web Services cria pacote de soluções para desenvolvedores indie. Algumas delas são de graça

Crédito: Igor Karimov 🇺🇦/ Javier Miranda/ Unsplash

Jeancarlos Mota 7 minutos de leitura

O Big Festival 2022 está a caminho. O maior festival de jogos independentes da América Latina acontece no São Paulo Expo de 7 a 10 de julho e é ideal para conhecer novos títulos indie, adquirir ainda mais conhecimento sobre o mercado de games, conversar com profissionais da área e até fechar negócios e cases de sucesso. Duas das empresas que marcarão presença no evento criaram um caso de sucesso que mais lembra uma história de Davi e Golias do bem.

A gigante Amazon Web Services (AWS para os íntimos) – subsidiária da Amazon que fornece plataformas de computação em nuvem sob demanda e APIs para indivíduos, empresas e governos – construiu um produto para auxiliar e transformar as workloads de games em serviços e soluções de nuvem especializados, a AWS for Games.

Os já conhecidos serviços de computação em nuvem fornecem capacidade de processamento distribuída e ferramentas de software por meio de fazendas de servidores da AWS. Agora, todo esse poderio computacional está disponível para desenvolvedores e publishers, sejam gigantes como Epic Games, WB Games, Sony Interactive Entertainment, Gearbox Software, Capcom, Rovio e Gameloft ou desenvolvedores (devs) indie, como a brasileira Aquiris Game Studio.

Dito isso, tivemos a oportunidade de entender melhor como uma empresa do tamanho da AWS criou um pacote de soluções para desenvolvedores indie, como a Aquiris, e até mesmo serviços para quem está começando. E, se você é um dev ou tem interesse em saber mais, saiba que algumas dessas soluções são gratuitas.

Desenvolvedores da Aquiris em ação (Créditos: Aquiris Game Studio)

O serviço para games é relativamente novo (início de 2022), mas a AWS tem trabalhado com jogos há um bom tempo. Afinal, as empresas que fazem jogos têm necessidades bem específicas, diferente de clientes tradicionais. Isso vai desde a construção do game até sua execução, para fazê-lo crescer e então ter como acomodar todos os jogadores que possam precisar de seus servidores.

“Pensamos em todo o ciclo de construção de um novo game, separamos todos os serviços que temos e montamos um pacote que torna mais fácil para as empresas criar, executar e ampliar seus jogos”, explica Alexis Dahan, tech manager da AWS for Games.

A ideia da empresa é fazer o negócio de games crescer e estar onde os desenvolvedores estão. Com a nova geração de consoles, mobile, PCs e mais de três bilhões de jogadores no mundo, há mais e mais jogos sendo desenvolvidos. Mas nem todas as companhias são uma Ubisoft ou Epic Games da vida, com milhares de desenvolvedores e técnicos à disposição. Na verdade, grande parte dos times que desenvolvem jogos hoje em dia são estúdios de pequeno porte que, mesmo assim, querem criar a melhor obra possível para os jogadores.

O que a AWS fez foi criar um serviço que diz a esses desenvolvedores para aproveitar a nuvem da mesma forma que uma grande publisher faria. É dessa forma que tanto a Ubisoft, como a Aquiris, ou ainda um pequeno estúdio na Tailândia, têm acesso aos mesmos produtos e capacidades e são capazes de rodar seus jogos para milhares de pessoas simultaneamente, com minutos de integração.

ESTÚDIOS NA NUVEM

Quando questionamos quais as maiores dificuldades que a AWS conseguiu identificar nos pequenos estúdios, Dahan revelou que não importa o tamanho da empresa, algumas dificuldades são simplesmente as mesmas. Uma delas é construir o jogo. Existe uma escassez de bons desenvolvedores no mercado e o problema é ainda maior para achar esses devs em uma mesma localidade.

Chega-se então à questão do home office: é preciso contratar profissionais de diversas localidades. É aí que a AWS entra. Ao criar estúdios na nuvem, o Game Publishing in Cloud permite que os estúdios executem tarefas complexas seja lá onde estiverem no mundo, porém como se estivessem no mesmo local.

A mesma dificuldade é encontrada para rodar o jogo. Quando um novo título é lançado, todos esperam que seja um sucesso. No entanto, é necessário se preparar para esse sucesso. E você não para por esse sucesso antes de vê-lo. Para isso, a AWS oferece uma solução que permite ao dev instalar capacidades de servidores no game, no modo plug-and-play, que acompanha a quantidade de jogadores que chega com o lançamento.

“Se o jogo for um grande sucesso, como é o caso que tivemos com a Aquiris, os servidores escalarão para a quantidade de jogadores que chegar como se ainda estivesse com a pequena quantidade de participantes do início. Da mesma forma, se a quantidade de jogadores diminuir, o servidor diminui suas capacidades e o dev só paga por aquilo que consumir”, explica Dahan.

Área de desenvolvimento é dividida em dois times: backend e client

A última dificuldade de todo o estúdio é executar o game. Interessa acompanhar os jogadores, entender seu comportamento, qual parte jogam e qual não gostam. A AWS entrega dados e serviços que permitem que o dev rode cenários em jogos que já foram lançados – seja um maior número de jogadores, monetização incrementada, monitoramento da toxicidade do ambiente (quando há um chat e pessoas dizem o que não deveriam), community management, entre outras questões.

Foi nesse ponto que a Aquiris Game Studio entrou em cena. Segundo Raphael Baldi, CTO da empresa, a parceria com a Amazon, na verdade, é de longa data (desde 2014), antes mesmo da chegada oficial do serviço para games. “Agora estamos entrando mais a fundo no serviço de jogos e na parceria com a AWS devido à chegada da Epic [Games] na Aquiris”, explica. Ao completar 15 anos de existência, a Epic Games investiu na empresa brasileira, em uma parceria que visa ajudar a desenhar os próximos 15 anos do estúdio.

Já a AWS ajudou a Aquiris a levar os servidores do Ballistic Overkill – jogo de tiro player versus player – de um servidor on premise (presença física do software em um datacenter) para a nuvem. “A gente faz jogos, não fazemos infraestrutura nem manutenção de computadores. A AWS foi a parceira que ajudou e segue ajudando nesse processo”, afirma Baldi.

MIL E UMA UTILIDADES

O principal incremento com o novo formato para games da AWS foi em jogos multiplayer. O serviço não só fornece capacidade computacional como também pareia jogadores (matchmaking), trabalhando todo o tempo de vida de uma partida de forma quase transparente para o time de desenvolvimento.

Hoje, a Aquiris tem esse time dividido em duas grandes áreas: a de backend, que entende mais de cloud, e o de client. Mas o serviço é tão prático que quem opera, na verdade, é o time de client, que desenvolve o jogo dentro do motor gráfico (game engine).

“Eles conseguem subir versões do jogo muito rápido, testar regras de pareadores. Isso tem sido um grande divisor de águas para nós. Por isso, levamos os jogos para dentro deste serviço”, diz Baldi. O analytics foi a segunda necessidade suprida. Uma plataforma de dados é algo extremamente complexo, e o estúdio não queria ter um time gigante de engenheiros só para cuidar disso. O produto da AWS conseguiu resolver o problema. Agora, eles têm acesso a facilidades de dados e à plataforma também.

O estúdio de Porto Alegre conta hoje com uma distribuição de servidores ao redor do mundo, ao contar com um serviço de multirregiões. Com isso, a marca escolhe em que regiões do mundo quer estar para que os jogadores possam jogar com pessoas próximas e evitar problemas de ping e alta latência, através de um produto chamado Game Lift. A facilidade é tamanha que, com um único clique, a empresa pode trocar de matchmaking entre as mesmas regiões para algo global, se assim um projeto demandar.

Os próximos passos da Aquiris passam por quatro grandes projetos. Horizon Chase Turbo (game de corrida inspirado nos grandes clássicos dos anos 1980 e 1990) e Looney Tunes, que não usam multiplayer, mas que têm seus saves na nuvem e multiplayer. Dentre eles, Wonderbox (jogo de ação e aventura com um universo sempre em expansão) e um quarto que a empresa ainda não pode revelar.

Tanto a AWS como a Aquiris estarão presentes no Big Festival para conversar com a audiência e ficar de olho em novos talentos para trocar experiências e ajudar futuros profissionais da área. Já a AWS convida os novos devs ou estúdios a testar seus serviços, pois no início eles são gratuitos. No minigame AWS Cloud Quest dá para aprender a utilizar os serviços e entender quais as facilidades disponíveis para criar jogos.


SOBRE O AUTOR

Jeancarlos Mota é co-publisher de games da Fast Company Brasil, editor-chefe do IGN Brasil e apaixonado por games e esportes. saiba mais