Em breve, você estará jogando boardgames

O que antes era visto como hobby hoje opera com lógica de portfólio, calendário de lançamentos, comunidades e recorrência de consumo

crescimento de jogos de tabuleiro (boardgames) no Brasil
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Gustavo Giglio 4 minutos de leitura

Desde o ano passado, o mercado brasileiro de boardgames (jogos de tabuleiro) e trading card games (jogos de cartas colecionáveis) deixou de ser um nicho barulhento para se consolidar como um ecossistema organizado, profissionalizado e cada vez mais estratégico dentro da indústria do entretenimento.

O que antes era visto como hobby de entusiastas (nerdões mesmo) hoje opera com lógica de portfólio, calendário de lançamentos, comunidade estruturada e, principalmente, recorrência de consumo.

Há estimativas de pesquisa de mercado que apontam que o segmento de jogos de tabuleiro no Brasil seria da ordem de US$ 345 milhões em 2025, com projeções que indicam possibilidade de dobrar de tamanho até a próxima década, sustentado por um crescimento anual consistente.

Ainda que esses números sejam baseados em relatórios privados, e não em dados oficiais consolidados, eles ajudam a dimensionar a escala que o setor atingiu.

O que mudou de forma mais perceptível no último ano não foi apenas volume, mas maturidade.

O Brasil passou a ter uma cadeia mais clara: editoras e distribuidoras estruturadas, varejo especializado com curadoria e calendário próprio, eventos que funcionam como verdadeiras feiras de negócios e parte da creator economy dedicada ao hobby.

A unificação da operação brasileira da Galápagos sob a marca Asmodee reforça esse movimento de alinhamento global e profissionalização (o fato de eu passar meses comprando cartinhas de Star Wars não tem nada a ver com isso). 

Ao mesmo tempo, players tradicionais como Devir e Copag mantêm relevância histórica, enquanto editoras nacionais de médio porte ganham espaço com catálogos autorais e localização estratégica de títulos internacionais.

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No universo dos jogos de cartas colecionáveis (TCGs,na sigla em inglês), a lógica é ainda mais robusta porque o modelo já nasce sustentado por comunidade e jogo organizado.

Pokémon, segue como a locomotiva do segmento, impulsionado tanto pelo público jogador quanto pelo colecionismo e pelo mercado secundário. Magic: The Gathering continua sendo um dos pilares do cenário competitivo e de loja, mesmo com as mudanças recentes na dinâmica de publicação e distribuição local. 

 jogo de cartas colecionáveis Magic: the Gathering
Magic: The Gathering (Crédito: Divulgação)

Um dos sinais mais interessantes de 2025 foi o crescimento expressivo do mercado de revenda de cartas, com dados públicos indicando alta significativa nas transações em marketplaces. É impressionante o buraco negro...

Isso altera a lógica do negócio: liquidez, curadoria, precificação e confiança passam a ser parte do produto. O card não é apenas ferramenta de jogo; é ativo colecionável, item de investimento emocional e, em alguns casos, financeiro.

É a receita de sucesso para a nerdice apaixonada, mas também para chamar a atenção de muita gente. Essa camada adicional fortalece o ciclo de consumo e mantém o ecossistema girando mesmo fora das temporadas de lançamento.

JOGOS E A CULTURA POP

Os eventos presenciais também consolidaram seu papel estratégico. O Diversão Offline, maior evento do setor no país, registrou crescimento de público entre 2024 e 2025, ultrapassando a marca de 13 mil visitantes na última edição.

Esses encontros deixaram de ser apenas celebração de hobby para se tornarem pontos de lançamento, negociação, teste de produto e construção de marca. O asmodee Fest tem tudo para ser o maior e melhor encontro do segmento, expandido possibilidades.

Em paralelo, lojas físicas transformaram-se em clubes, com campeonatos, mesas abertas, pré-vendas e criação de comunidade local. O espaço deixou de ser apenas ponto de venda e virou ponto de encontro.

estimativas apontam que o segmento de jogos de tabuleiro no Brasil seria da ordem de US$ 345 milhões em 2025.

Outro fator evidente é a força das propriedades intelectuais. Boardgames e TCGs cada vez mais se apoiam em franquias de cinema, séries, animes e videogames para acelerar o envolvimento.

A interseção entre cultura pop e jogo de mesa amplia tíquete médio, gera lançamentos com apelo emocional e fortalece a narrativa de marca. Ao mesmo tempo, traz um movimento de "premiunização": edições limitadas, acessórios especializados e produtos de maior valor agregado ampliam margem e fidelização.

Em resumo, o mercado brasileiro de boardgames e TCGs não apenas cresceu em números estimados, mas evoluiu em estrutura, estratégia e ambição. Combina lógica de entretenimento, comunidade e colecionismo com operação profissional e calendário consistente.

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É um mercado que já não vive apenas de paixão, embora – ainda bem – seja movido por ela, mas que passou a operar com mentalidade de indústria criativa madura, conectada à cultura e sustentada por comunidade ativa.


SOBRE O AUTOR

Gustavo Giglio é publicitário, consultor e mentor. Fundador da Giglio Consultoria e Conteúdo e do Coffee Hunter. Tem passagens pela Tr... saiba mais