Conheça a Gamegenic, a “Apple” dos jogos de cartas
Com design premium, produtos licenciados e atenção obsessiva aos detalhes, a marca alemã transformou acessórios de TCG em objetos de desejo

Se Star Wars: Unlimited, como escrevi no último artigo, é um bom exemplo de como transformar uma propriedade intelectual em comunidade, existe outra marca por aqui, no Galactic Championship de Las Vegas, que ajuda a explicar como transformar uma categoria aparentemente banal em desejo: a Gamegenic.
Para quem não conhece esse mercado, a Gamegenic produz acessórios para jogos de cartas e board games. Sleeves para proteger cartas, deck boxes para guardar os baralhos montados, playmats — que são as “arenas” do jogo —, fichários, cases, tokens e uma quantidade quase infinita de produtos que orbitam ao redor do hobby. Dito assim, parece pouco interessante. Até você entrar nesse universo.
A Gamegenic, empresa alemã que hoje faz parte do grupo Asmodee, conseguiu fazer com os acessórios de TCG algo parecido com o que a Apple fez com computadores e eletrônicos: transformar objetos essencialmente funcionais em objetos de desejo e em um lifestyle.
A comparação diz respeito à construção de marca e à sua aspiração. E não é apenas minha: ouvi isso diretamente de seu fundador, Adrian Alonso.
DE ACESSÓRIOS A OBJETOS DE DESEJO
Tecnicamente, ninguém precisa de uma deck box de US$ 36 — que pode custar por volta de R$ 500 no Brasil —, de um playmat premium ou de tokens de acrílico para jogar cartas. Mas eles são tão bonitos...
Assim como ninguém precisa de uma capa de celular de US$ 50 para que um smartphone funcione. Mas fandom raramente funciona pela lógica da necessidade. Funciona pela lógica do desejo, da identidade e do pertencimento.
O primeiro movimento da marca foi parar de tratar acessórios como commodities. Uma deck box poderia ser apenas uma caixa. Um sleeve poderia ser apenas um plástico transparente. Um playmat poderia ser apenas uma superfície de borracha.
Mas, quando você começa a trabalhar design, materiais, textura, encaixes, sistemas modulares, magnetismo, acabamento, cores e experiência de abertura, o produto muda de categoria. O lifestyle de quem está envolvido também.
Deixa de ser simplesmente algo que guarda suas cartas. Passa a fazer parte da maneira como você guarda e apresenta sua coleção. Como designer, posso garantir que existe uma obsessão pelo detalhe em produtos que, aparentemente, não precisariam de tantos detalhes. E é exatamente isso que conquista.
QUANDO O DESIGN MUDA A CATEGORIA
A experiência começa na embalagem, continua no material, passa pelo mecanismo de abertura e chega até a sensação tátil de colocar e retirar o deck. É design aplicado a uma categoria historicamente muito mais preocupada com função do que com experiência.
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No Galactic Championship, isso ficou bastante evidente. Você olha para uma mesa e não vê apenas dois jogadores com dois decks. Vê sleeves diferentes, playmats diferentes, deck boxes diferentes, tokens diferentes e maneiras completamente distintas de organizar a mesa.
E você quer ter todos eles. É um inferno mesmo...
UM ECOSSISTEMA PARA STAR WARS

Star Wars: Unlimited oferece à Gamegenic uma oportunidade ainda mais interessante, porque a empresa é responsável por uma linha oficial de acessórios licenciados. Desde o lançamento do TCG, em março de 2024, o jogo e os acessórios praticamente nasceram juntos.
Isso significa que o ecossistema não termina na compra das cartas. Você pode colocar seu deck em sleeves de Darth Vader, guardá-lo em uma deck box desenvolvida especificamente para Star Wars: Unlimited, jogar sobre um playmat da Estrela da Morte, organizar sua coleção em um álbum oficial e substituir marcadores básicos por tokens premium.
Um pacote de 60 Premium Art Sleeves, por exemplo, tem preço sugerido de US$ 9,99 nos Estados Unidos. Um game mat oficial custa US$ 26,99. Já o conjunto Premium Tokens PRO, com 55 peças de acrílico, chega a US$ 39,99.
Separadamente, são acessórios. Juntos, são um ecossistema. E, quanto maior o pertencimento, maior a vontade de sofisticar a experiência. Escrevo por experiência própria...
Esse fenômeno existe em praticamente todas as grandes culturas de colecionismo. A Gamegenic chama seus produtos de “ingenious gaming accessories” — ou “acessórios engenhosos para jogos”. A escolha da palavra é interessante.
Existe uma diferença enorme entre fabricar acessórios e pensar a experiência ao redor de um produto que não é seu.
A DECK BOX QUE ARRECADOU US$ 4 MILHÕES
Entre os produtos que melhor representam a força da Gamegenic estão os sleeves, principal porta de entrada e item de maior recorrência da marca, além das linhas de deck boxes Bastion e Sidekick, dos playmats, binders e de soluções de armazenamento como o Cards’ Lair.
Mas talvez nenhum produto explique tão bem seu posicionamento premium quanto o Academic 133+ XL, criado em parceria com o canal Tolarian Community College. A campanha de crowdfunding arrecadou cerca de US$ 4 milhões com mais de 39 mil apoiadores, transformando uma simples caixa para cartas em objeto de desejo dentro da comunidade de TCG.
Esse posicionamento também ganhou uma camada importante por meio das licenças. A Gamegenic desenvolve acessórios oficiais para propriedades como Star Wars: Unlimited, Magic: The Gathering, Altered, Marvel Champions, CATAN, Ticket to Ride, Splendor e Twilight Imperium.
São sleeves, deck boxes, playmats, álbuns e sistemas de armazenamento adaptados a cada universo. A marca se posiciona cada vez mais como uma extensão da experiência dos próprios jogos, combinando design, funcionalidade, colecionismo e fandom.
A estratégia ajuda a explicar por que a Gamegenic se tornou uma das principais referências premium do segmento. E talvez essa seja outra razão pela qual a comparação com a Apple faça sentido.
No caso de Star Wars, existe ainda uma camada adicional: a força da propriedade intelectual.
Quando você coloca Darth Vader, Luke Skywalker, Yoda, Darth Maul, R2-D2 ou Leia nesses objetos, o acessório deixa de carregar apenas a marca Gamegenic. É uma forma de personalização sem precisar fabricar um produto individualmente para cada consumidor.
A propriedade intelectual faz esse trabalho. E o design transforma esse vínculo em desejo.