GTA VI nem estreou e já tem gente planejando folga e férias para jogar
Pesquisa com gamers nos EUA mostra como o lançamento do jogo, previsto para novembro, já afeta os planos de trabalhadores e levanta questões sobre a cultura das empresas.

Nos Estados Unidos, tem uma doença se espalhando. Um tipo diferente de gripe chamado "gripe do GTA".
A chamada “gripe do GTA” está se espalhando pelo país. E muitos trabalhadores já planejam “contraí-la” para justificar uma falta ao serviço quando Grand Theft Auto VI chegar ao PlayStation 5 e ao Xbox Series X/S, em 19 de novembro.
Outros estão solicitando folgas remuneradas com semanas, ou até meses, de antecedência para aproveitar o lançamento daquele que é considerado um dos jogos mais aguardados da década.
É o que mostra uma nova pesquisa realizada pela empresa de entretenimento GameSquare, em parceria com a Pollfish, que ouviu mil adultos norte-americanos empregados em tempo integral e que jogam videogames regularmente.
Segundo o levantamento, 39% dos entrevistados afirmaram que pretendem solicitar folgas antecipadamente para jogar. Entre aqueles que consideram se ausentar do trabalho, 36% cogitam alegar que estão doentes. Outros 32% disseram que pretendem “trabalhar” de casa no dia do lançamento.
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Os números são relevantes para o mercado de trabalho norte-americano, considerando que mais de 190 milhões de pessoas jogam videogames nos Estados Unidos.
“Comecei em um emprego novo há cerca de quatro meses, ainda não tirei nenhuma folga remunerada e achei que essa seria uma boa primeira oportunidade”, conta Jake, que trabalha com relações públicas no setor de tecnologia e usa um pseudônimo para falar livremente.
Ele pretende tirar os dias 19 e 20 de novembro para emendar com o fim de semana e aproveitar quatro dias de descanso. Jake conta que foi sincero com sua gestora sobre o motivo do pedido, e ela aprovou a ideia.

“Ela deu de ombros, meio divertida, e disse: ‘A folga é sua, use como quiser’”, relata. “Provavelmente vou jogar minhas primeiras horas à meia-noite do dia 19, dormir, resolver algumas coisas na manhã seguinte e depois voltar a jogar.”
Grand Theft Auto VI é o título mais recente da franquia que já rendeu bilhões de dólares à Rockstar Games e se tornou uma das séries de videogames mais vendidas de todos os tempos.
Lançada em 1997, a franquia não recebe um novo jogo de sua linha principal há 13 anos. Os fãs estão prontos para a estreia. Talvez os escritórios não estejam.
O Wall Street Journal chegou a alertar para a possibilidade de um “apagão no trabalho”. Um economista espanhol estimou que o lançamento poderia custar US$ 1 bilhão aos Estados Unidos em perda de produtividade devido ao absenteísmo.
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A Burger Motorsports, empresa californiana especializada em produtos de alto desempenho para automóveis, chegou a anunciar uma “paralisação operacional temporária em toda a empresa”.
A decisão foi tomada depois que a companhia identificou diversos conflitos nas escalas dos funcionários em preparação para o que chamou de um “evento cultural sem precedentes”.
Em média, os trabalhadores entrevistados que planejam se ausentar pretendem tirar 3,9 dias de folga para jogar.
UM FENÔMENO QUE VAI ALÉM DOS GAMES
Fingir estar doente, usar dias de férias ou tirar folgas por causa de grandes acontecimentos culturais e lançamentos do entretenimento está longe de ser uma novidade.
Em fevereiro deste ano, por exemplo, estimava-se que um recorde de 26,2 milhões de trabalhadores norte-americanos poderiam alegar doença para faltar ao trabalho no dia seguinte ao Super Bowl LX, a final do campeonato de futebol americano. Há anos existem iniciativas para transformar a segunda-feira após o evento em feriado nacional.
Entre os fãs de videogames, tirar folga por causa do lançamento de um título importante também é uma prática conhecida.
Em 2024, uma pesquisa divulgada pela Currys, maior varejista de eletrônicos do Reino Unido, mostrou que mais de um terço dos mil gamers britânicos entrevistados admitiu que fingiria estar doente para ficar em casa jogando caso seu pedido de folga fosse negado.
A estratégia, porém, pode trazer consequências.
“As relações de trabalho se baseiam não apenas em contratos, mas também em confiança e relacionamentos. Não aconselho colocar essa confiança e essas relações em risco”, afirma Manuela Collis, professora assistente de organização e estratégia da Universidade Carnegie Mellon.
Os empregadores, por sua vez, não ignoram que isso acontece.

Até mesmo o Fair Work Ombudsman, órgão australiano responsável pela fiscalização das relações de trabalho, publicou no Instagram, no mês passado, uma postagem bem-humorada, mas informativa, explicando como funcionários podem solicitar licenças não remuneradas para jogar GTA VI.
Ainda assim, muitos trabalhadores se sentem desconfortáveis ao pedir folgas, mesmo quando têm direito a elas.
Na pesquisa da GameSquare, os participantes responderam à pergunta: “Como você acha que seu chefe ou supervisor reagiria se você tirasse uma folga para jogar?”.
Para 33%, a reação seria favorável. Outros 12,5% acreditam que seus superiores não apoiariam a decisão, 20,3% esperam uma reação neutra e 12,5% imaginam que seus chefes ficariam muito irritados.
Mais de um quinto dos participantes respondeu simplesmente: “Eles nunca vão saber”.
Justin Kenna, CEO da GameSquare, considera equivocada a resistência de gestores a esse tipo de pedido.
“É um momento da nossa cultura, especialmente da cultura jovem, pelo qual muitas pessoas estão ansiosas. Elas não querem esperar e correr o risco de ter a experiência estragada por spoilers nas redes sociais ou pelos amigos”, explica.
Ryan Wharton, profissional de comunicação e jornalista freelancer, também vai tirar dois dias de folga remunerada para aproveitar um fim de semana prolongado de quatro dias.
Ele afirma que nunca enfrentou grandes dificuldades para conseguir esse tipo de liberação em empregos anteriores. Mesmo assim, o estigma em torno do assunto pesou na hora de fazer a solicitação.
“Foi isso que contribuiu para minha ansiedade inicial ao pedir a folga”, conta.
“Acho que as empresas não deveriam se preocupar tanto com o que fazemos fora do trabalho.”
O QUE ISSO REVELA SOBRE A CULTURA DAS EMPRESAS?
Especialistas afirmam que bons líderes reconhecem o direito dos funcionários ao descanso, independentemente do motivo, e conseguem incorporar essas ausências à rotina de trabalho sem julgamentos.
“Eu trataria um acontecimento previsível como esse — seja o lançamento de um jogo, a segunda-feira depois do Super Bowl, os dias próximos a feriados como o 4 de Julho ou o Dia de Ação de Graças, ou as férias escolares das crianças — como um problema de coordenação”, afirma Salvatore “Sal” Affinito, professor da Stern School of Business, da Universidade de Nova York.
“Os gestores podem incentivar os funcionários a apresentar pedidos de folga com antecedência, estabelecer regras justas para garantir a cobertura das atividades e organizar os fluxos de trabalho para que a ausência de uma pessoa não resulte em uma sobrecarga insustentável para as demais”, explica.
Mas, na cultura norte-americana de trabalho, marcada pela obsessão com produtividade e dedicação constante, muita gente se sente desconfortável em pedir qualquer tipo de folga.
Dados de 2024 mostraram que 78% dos norte-americanos não utilizam todos os dias de férias a que têm direito ao longo do ano. Além disso, 47% sentem culpa simplesmente por tirar um período de descanso.
“Não é da conta do chefe o que o funcionário faz em seu tempo pessoal”, afirma Jeffrey Sanchez-Burks, professor de gestão e organizações e psicólogo cultural da Ross School of Business, da Universidade de Michigan.
“Esse exemplo levanta questões mais amplas sobre a cultura do trabalho e a cultura das organizações.”
Ambientes profissionais tóxicos podem levar funcionários desmotivados a faltar com mais frequência e a se aproximar do esgotamento profissional. Em alguns casos, trabalhadores passam a dedicar abertamente o expediente a atividades que nada têm a ver com a empresa.
Dados recentes também mostram que profissionais em trabalho remoto, especialmente aqueles que se sentem mal remunerados ou esgotados, não veem grandes problemas em tirar os chamados soft off days, dias de folga informais e não declarados.
Nessas ocasiões, alguns aproveitam para jogar tênis, resolver assuntos pessoais ou até embarcar em viagens internacionais de lazer, enquanto permanecem conectados e oficialmente trabalhando.
No caso de Grand Theft Auto VI, porém, para muitos funcionários, tirar uma folga para aproveitar o lançamento representa mais do que matar o trabalho para ficar jogando videogame e comendo pizza no sofá durante a semana.
Dustin Hall, engenheiro de instalações de um laboratório de pesquisa em semicondutores da Universidade da Califórnia em Berkeley, vai utilizar um dia de folga flexível negociado por seu sindicato para jogar.
Ele conta que ele e sua esposa, Heather, estavam “muito animados para jogar GTA VI juntos”.
“Infelizmente, ela morreu de câncer antes do lançamento do jogo”, relata.
“Uma coisa que você percebe, quando olha os comentários dos trailers de GTA VI, é quantas pessoas escrevem algo como: ‘Um minuto de silêncio por todos aqueles que não conseguiram chegar até aqui’. Isso me emociona toda vez.”
“Vou jogar em memória dela”, afirma. “Acho que as folgas deveriam ser concedidas sem que ninguém precisasse dar explicações.”
Para Sanchez-Burks, essa é a questão central.
“Não deveríamos precisar desligar nosso modo humano para sermos considerados profissionais.”