Nintendo compra estúdio de cinema para (finalmente) ir além dos games

Com a Nintendo Pictures, empresa terá mais controle sobre como seus personagens aparecem nos filmes

Crédito: Sara Kurfeß/ Merch Husey/ Unsplash/ PNGTree

Chris Morris 4 minutos de leitura

A história da Nintendo no mundo do cinema é irregular, mas a empresa está fazendo uma nova tentativa de ampliar suas franquias – e contratando pessoal enquanto se prepara para isso.

A gigante japonesa dos jogos eletrônicos comprou a Dynamo Pictures, produtora de audiovisual com sede em Tóquio, que já havia trabalhado com a própria Nintendo no game Metroid: Other M, para o console Wii. O estúdio vai virar a Nintendo Pictures quando o negócio for completado, em outubro.

Segundo a companhia, o estúdio vai focar no desenvolvimento de conteúdo visual utilizando a Nintendo IP. Não deixa de ser uma declaração reveladora, partindo de uma empresa que resistiu – teimosamente, por muitos anos – a expandir suas franquias para além dos games.

A Nintendo é conhecida por proteger ferozmente suas propriedades intelectuais, talvez devido à recepção morna a várias séries de desenhos animados e programas em live action no final dos anos 1980. Sem contar o desastre do filme Super Mario Bros (1993).

A mudança de opinião começou em 2015, indicado por um breve comentário no balanço: “para IPs da Nintendo, uma abordagem mais ativa será adotada em áreas fora do negócio de videogames, o que inclui produção de conteúdo visual e merchandising de personagens”.

A Nintendo é conhecida por proteger ferozmente suas propriedades intelectuais

Mesmo assim, houve alguma resistência. Na época, conversei com o mentor criativo da Nintendo, Shigeru Miyamoto, sobre a possibilidade de expandir os jogos para o mundo do cinema, e ele não estava exatamente entusiasmado.

“Como jogos e filmes parecem mídias semelhantes, a expectativa natural das pessoas é que vamos pegar nossos games e transformá-los em filmes”, disse ele. “Sempre senti que videogames, sendo um meio interativo, e filmes, como um meio passivo, significa que os dois são bem diferentes”.

Ainda assim, acrescentou, a empresa estava aberta a discussões. “Conforme ampliamos nosso olhar sobre o papel da Nintendo como empresa de entretenimento, começamos a pensar cada vez mais sobre como os filmes podem se encaixar nisso – e potencialmente veremos coisas como filmes no futuro”.

CONCORRÊNCIA NAS TELONAS

Em 2017, a Nintendo anunciou um acordo com a Illumination Entertainment, que fez “Meu Malvado Favorito”, para produzir uma animação de Mario, com Chris Pratt dublando o personagem. O lançamento está programado para o primeiro semestre de 2023. O live action de Pokémon, “Detetive Pikachu”, foi lançado em 2019, com Ryan Reynolds.

Mas a Nintendo não é a única empresa de videogames a mostrar interesse crescente em Hollywood, depois de décadas de interpretações cinematográficas de má qualidade de seu trabalho. A Sony lançou recentemente uma adaptação para o cinema de Uncharted. Já a Sega viu seus dois longas “Sonic, o Filme”, produzidos com a Paramount, arrecadarem mais de US$ 721 milhões apenas com bilheteria.

Talvez nenhuma empresa de jogos tenha abraçado com mais entusiasmo o cruzamento de videogames com filmes do que a Ubisoft. O interesse da publisher em filmes relacionados a suas propriedades vem desde 2012, supervisionando a produção e lançando sua própria divisão de filmes.

Essa unidade teve sua parcela de dores de crescimento. No entanto, atingiu um bom ritmo nos últimos tempos, com “Um Lobo Entre Nós” (de 2021) e Mythic Quest, seriado da Apple TV que já tem uma terceira temporada confirmada.

SUPERMARIO BROTHERS, O DESASTRE

Com a compra do Dynamo, os designers da Nintendo

Para quem não conhece, é difícil explicar o quanto foi ruim a primeira adaptação cinematográfica de Super Mario Bros.

(incluindo Miyamoto) terão mais controle sobre como suas criações são apresentadas e as histórias que são contadas, o que (idealmente) criará experiências mais autênticas para sua legião de fãs.

Não era o caso na década de 1990, é claro. Para quem não conhece, é difícil explicar o quanto foi ruim a primeira adaptação cinematográfica de Super Mario Bros.

No filme, Mario e Luigi são encanadores, sim, mas moram em Manhattan e estão tentando resgatar a princesa Daisy – não Peach –, que usa um colar capaz de libertar criaturas reptilianas que moram no esgoto. O rei Koopa, seu sequestrador, a esconde não em um castelo, mas no submundo infestado de ratos e lixo de Dinohattan.

É ainda mais confuso quando você assiste. O filme é essencialmente um rolo ininterrupto de efeitos especiais do início dos anos 1990, com pedaços de diálogo sem sentido e a princesa Daisy gritando “Luigi!” usado como fala (sim, Luigi fica com a garota!).

Bob Hoskins, em uma sessão de perguntas e respostas com o “The Guardian” em 2011, expressou seu arrependimento em assumir o papel que o obrigou a colocar um bigode ridiculamente grande no rosto e dizer frases como “vem pra cima, bafo de lagarto!”, mantendo uma cara séria:

Qual foi o pior trabalho que você fez?

Super Mario Brothers.

Qual foi sua maior decepção?

Irmãos Super Mário.

Se você pudesse editar seu passado, o que você mudaria?

Eu não faria Super Mario Brothers.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é um jornalista com mais de 30 anos de experiência. Saiba mais em chrismorrisjournalist.com. saiba mais