1 em cada 4 americanos já usa IA para conselho médico

Pesquisa da Gallup aponta que quase um quarto dos adultos americanos utilizou uma ferramenta de IA para obter informações sobre saúde recentemente

usuários consultam ChatGPT para conselhos médicos
Créditos: Mart Production/ Airam Dato-on/ Pexels/ Niaid/ Unsplash

Ali Swenson e Linley Sanders 4 minutos de leitura

Quando Tiffany Davis tem dúvidas sobre algum sintoma relacionado às injeções para perda de peso que está usando, ela não liga para o médico. Pega o celular e recorre ao ChatGPT.

“Basicamente, eu conto para o ChatGPT como estou, o que estou sentindo”, diz a norte-americana de 42 anos, moradora de Mesquite, no Texas. “Uso para qualquer coisa que esteja acontecendo comigo.”

Recorrer a ferramentas de inteligência artificial para obter conselhos de saúde virou hábito para Davis e para muita gente nos EUA, segundo uma pesquisa do Centro Gallup para o Cuidado de Saúde nos Estados Unidos.

O levantamento, realizado no fim de 2025 e corroborado por pelo menos três outras pesquisas recentes com resultados semelhantes, mostra que cerca de um quarto dos adultos nos EUA usaram uma ferramenta de IA para buscar informações ou orientações de saúde nos últimos 30 dias.

Para Karandeep Singh, diretor de IA em saúde da Universidade da Califórnia em San Diego, essas ferramentas – muitas delas já integradas a mecanismos de busca – representam uma evolução das pesquisas sobre saúde no Google, feitas há décadas pela população.

Segundo a pesquisa da Gallup, cerca de sete em cada 10 adultos que usaram IA para esse fim no último mês buscavam respostas rápidas, informações adicionais ou simplesmente estavam curiosos. A maioria utilizou a tecnologia antes de consultar um médico ou depois de uma consulta.

Leia mais: Em busca da cura: integrar medicina ocidental e ancestral

Rakesia Wilson, moradora de Theodore, no Alabama, conta que recentemente recorreu à IA para entender melhor os resultados de exames laboratoriais após uma consulta com um endocrinologista.

Ela também usa ChatGPT e Microsoft Copilot para decidir se precisa tirar um tempo para ir ao médico ou se pode apenas monitorar um sintoma. “Nem sempre tenho tempo, especialmente quando acho que é algo mais leve”, afirma.

SAÚDE ACESSÍVEL

De modo geral, os dados indicam que o avanço da IA não substituiu a busca por atendimento médico profissional. Cerca de oito em cada 10 adultos nos Estados Unidos dizem ter procurado um médico ou outro profissional de saúde no último ano; três em cada 10 dizem o mesmo sobre ferramentas de IA e chatbots, segundo pesquisa da KFF realizada no fim de fevereiro.

Da mesma forma, um levantamento do Pew Research Center, feito em outubro, aponta que dois em cada 10 adultos recorrem pelo menos ocasionalmente a chatbots de IA para obter informações de saúde, contra cerca de 85% que buscam esse tipo de informação com profissionais da área.

inteligência artificial na medicina

Ainda assim, há sinais de que parte da população recorre à IA por dificuldade de acesso ao sistema de saúde, em um momento em que políticas públicas e fatores de mercado pressionam custos e criam barreiras no território norte-americano.

Uma parcela pequena, mas relevante, dos entrevistados na pesquisa da Gallup afirma ter usado IA porque o acesso à saúde era caro ou pouco conveniente. Quatro em cada 10 buscavam ajuda fora do horário comercial, enquanto três em cada 10 queriam evitar o custo de uma consulta médica.

Outros dois em cada 10 disseram não ter tempo para marcar consulta, já terem se sentido ignorados por profissionais no passado ou se sentirem constrangidos em falar diretamente com alguém.

A pesquisa da KFF também mostra que jovens e pessoas de menor renda têm maior probabilidade de usar IA para obter informações de saúde justamente por não conseguirem arcar com os custos ou enfrentarem dificuldades de acesso ao atendimento.

DR. CHATGPT É CONFIÁVEL?

Especialistas em tecnologia alertam que chatbots de IA não pensam por conta própria e, por isso, podem gerar informações incorretas. Essa preocupação já chegou até mesmo aos usuários mais frequentes.

De acordo com a Gallup, cerca de um terço dos adultos que usaram recentemente IA para saúde dizem confiar (total ou parcialmente) na precisão das informações e orientações fornecidas. Uma proporção semelhante (34%) afirma não confiar, enquanto outros 33% se mantêm neutros.

os dados indicam que o avanço da IA não substituiu a busca por atendimento médico profissional.

O médico otorrinolaringologista Bobby Mukkamala, presidente da Associação Médica Americana, reforça que a IA deve ser vista como uma ferramenta, não como substituta do atendimento médico. “É um assistente, não um especialista. Por isso, os médicos precisam continuar envolvidos no cuidado”, afirma.

A privacidade também preocupa. Segundo a KFF, cerca de três quartos dos adultos norte-americanos dizem estar “muito” ou “um pouco” preocupados com o uso de dados pessoais de saúde compartilhados com ferramentas de IA e chatbots.

Singh destaca que a maioria dessas plataformas oferece configurações para impedir que os dados dos usuários sejam usados no treinamento de novos modelos. Ainda assim, isso exige atenção, e descuidos podem ter consequências.

Leia mais: Gêmeos digitais podem revolucionar testes clínicos para novas drogas

Em meados do ano passado, por exemplo, usuários descobriram que conversas privadas no ChatGPT haviam sido indexadas em um site público sem que soubessem.

Para Tamara Ruppart, de Los Angeles, na Califórnia, ter médicos na família é um privilégio que dispensa o uso da IA nesse contexto. Com histórico familiar de câncer de mama, ela considera arriscado recorrer a chatbots para conselhos médicos.

“Saúde é algo muito sério”, diz. “Se a informação estiver errada, você pode acabar se prejudicando de verdade.”


SOBRE A AUTORA

Ali Swenson e Linley Sanders são repórteres da Associated Press. saiba mais