A China acaba de dar seu maior passo na corrida da IA, o Kimi K3

Apesar de limitações de infraestrutura, o Kimi K3 fortalece a posição da China como alternativa às plataformas norte-americanas de IA

China lança modelo de linguagem de código aberto Kimi K3
Crédito: Magnific

Chris Stokel-Walker 5 minutos de leitura

O lançamento do Kimi K3, modelo de inteligência artificial criado por um ex-aluno de pós-graduação em ciência da computação da Universidade Carnegie Mellon, movimentou as redes sociais e especialistas do setor.

Desenvolvido pela Moonshot AI, laboratório chinês cofundado por esse ex-estudante, Yang Zhilin, o modelo impressionou muitos observadores por suas capacidades.

“O Kimi K3 demonstra que a vantagem dos Estados Unidos no desenvolvimento de software de IA de fronteira não é tão duradoura quanto muitos de nós esperávamos”, afirma Ryan Fedasiuk, pesquisador do Instituto de Empresas Americanas.

“Devemos esperar que os laboratórios chineses continuem refinando e disponibilizando gratuitamente versões da tecnologia de ponta com apenas algumas semanas de atraso em relação aos laboratórios dos EUA.”

As redes sociais foram tomadas por demonstrações impressionantes do desempenho do modelo, incluindo sua capacidade de criar, em poucos minutos, uma versão convincente do macOS executada diretamente no navegador. Essas exibições levaram alguns observadores a concluir que os modelos chineses finalmente alcançaram seus concorrentes norte-americanos.

Mas o próprio Yang e a Moonshot AI reconhecem as limitações do K3. O modelo está longe de ser um “matador” do Claude Fable ou do GPT-5.6. O CEO da empresa chegou a incluir nas notas de lançamento uma observação reconhecendo uma “lacuna perceptível” entre o K3 e os principais modelos dos Estados Unidos.

Ainda assim, essa diferença está diminuindo. O Instituto de Segurança em IA do Reino Unido publicou, na semana passada, um relatório indicando que modelos de pesos abertos (open-weight), como os desenvolvidos na China, estão agora entre quatro e sete meses atrás da fronteira tecnológica, contra um atraso de seis a 10 meses durante a maior parte de 2025.

Apesar disso, a distância ainda existe e ficou evidente no primeiro dia de disponibilidade pública do K3. “É um modelo muito grande e exige enorme capacidade computacional. Com quase três trilhões de parâmetros, ele requer praticamente um rack inteiro de servidores equipado com chips de IA de ponta para funcionar”, explica Fedasiuk.

China lança modelo de linguagem de código aberto Kimi K3

“A Moonshot enfrentou sérios problemas de disponibilidade no dia do lançamento. O serviço ficou fora do ar e apresentou erros para mais de 60% dos usuários que acessaram o portal Kimi, provavelmente porque a empresa não tinha acesso suficiente à capacidade computacional necessária”, complementa.

A infraestrutura de computação continua sendo uma área em que a China e suas principais empresas de IA podem permanecer atrás dos Estados Unidos.

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“À medida que os modelos ficam maiores e mais eficientes, a verdadeira corrida passa a ser pela construção da infraestrutura computacional necessária para executar e oferecer IA a bilhões de usuários ativos por semana”, afirma Fedasiuk.

Chama atenção o fato de que, na mesma semana em que o Kimi teve dificuldades para atender à demanda inicial, a OpenAI aumentou duas vezes os limites de uso do Codex e do ChatGPT.A Anthropic também ampliou o acesso às suas plataformas, mesmo disponibilizando modelos mais poderosos.

AVANÇOS APESAR DAS RESTRIÇÕES

O sucesso inicial do K3 também reacendeu o debate sobre os controles de exportação impostos pelos Estados Unidos no governo Trump para restringir o acesso chinês às GPUs – os chips essenciais para treinar modelos de IA de ponta. Alguns questionam se essas restrições acabaram estimulando o desenvolvimento da IA chinesa. Especialistas dizem que não.

“As pessoas muitas vezes confundem o fato de os controles de exportação terem alguns efeitos colaterais – algo com que seus defensores concordam, como incentivar maior eficiência – com a ideia de que eles sejam prejudiciais no balanço geral”, afirma Miles Brundage, pesquisador de políticas de IA.

Segundo ele, “há todos os motivos para acreditar que a China teria capacidades muito mais avançadas em IA se não existissem controles de exportação e, portanto, tivesse acesso a muito mais capacidade computacional.”Na opinião do pesquisador, o avanço chinês ocorreu apesar das restrições dos EUA e também de falhas na fiscalização em alguns setores.

modelos de pesos abertos como os da China estão agora entre quatro e sete meses atrás da fronteira tecnológica.

Ainda assim, o K3 demonstra que continua sendo possível se aproximar da fronteira tecnológica sem depender dos Estados Unidos, um país cujo controle sobre o acesso à IA de ponta parece cada vez mais imprevisível.

Para países preocupados com a possibilidade de entrar em conflito com Donald Trump e perder acesso a modelos de referência, como Mythos e GPT-5.6 – algo que já aconteceu antes, ainda que de forma temporária –, a China pode surgir como uma alternativa atraente.

Na semana passada, o presidente chinês Xi Jinping discursou durante a Conferência Mundial de Inteligência Artificial, em Pequim. Como parte de um plano de quatro pontos para o desenvolvimento global da IA, Xi afirmou que “devemos defender a abertura e a cooperação mutuamente benéfica para impulsionar a inovação”.

"APPLE x ANDROID"

Kyle Chan, pesquisador da Institução Brookings, comparou a disputa atual à rivalidade entre Apple e Android nas gerações anteriores da tecnologia.

“Os EUA são a Apple e a China é o Android. Essa é a forma como Pequim enxerga o mundo”, escreveu no X. “Os EUA oferecem um sistema fechado, no qual poder e lucros retornam às empresas norte-americanas. A China oferece um sistema aberto, em que todos, inclusive os países do Sul Global, podem participar e se beneficiar.”

Na prática, porém, Chan diz que essa narrativa é incompleta. Durante anos, a China se beneficiou da abertura das pesquisas dos norte-americanas em IA. Só agora empresas dos EUA começam a rever essa postura, à medida que seus modelos se tornam mais poderosos, potencialmente mais perigosos e mais arriscados de serem disponibilizados sem restrições.

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O restante do mundo talvez não perceba essa nuance nem se lembre do histórico de abertura dos Estados Unidos. Em vez disso, pode enxergar um país cada vez mais disposto a restringir o acesso às suas tecnologias mais avançadas e voltar os olhos para a China, que oferece modelos quase tão capazes, muito mais baratos e aparentemente com menos condicionantes.

O Kimi K3 não transforma Pequim, da noite para o dia, no novo centro do universo da inteligência artificial. Mas fortalece a força gravitacional da China de uma maneira que, no fim das contas, a DeepSeek não conseguiu.


SOBRE O AUTOR

Chris Stokel-Walker é um jornalista britânico com trabalhos publicados regularmente em veículos, como Wired, The Economist e Insider saiba mais