A faxina é grátis. O preço é a sua privacidade

Clientes recebem faxina gratuita, mas cedem imagens de suas casas para treinar a próxima geração de robôs humanoides

empresa oferece limpeza grátis em troca de coleta de dados das casas que recebem o serviço
Créditos: Shift/ Eliobed Suarez/ Unsplash

Kristin Toussaint 7 minutos de leitura

Em plena era digital, serviços e dispositivos coletam nossos dados o tempo todo. Mas nem sempre é evidente como essas informações são capturadas, utilizadas ou o quanto as empresas são transparentes sobre essas práticas.

A Shift, uma startup especializada no treinamento de inteligência artificial, transformou essa operação em seu modelo de negócios.

Em troca de uma faxina gratuita, os clientes autorizam a Shift a coletar dados por meio de uma câmera acoplada à cabeça do profissional (humano) responsável pela limpeza. As imagens são então licenciadas para desenvolver e treinar robôs domésticos equipados com IA.

A empresa pertence ao laboratório alemão de pesquisa em dados MicroAGI. No início, ela contratava trabalhadores para usar seus bonés com câmeras e registrar tarefas realizadas em suas próprias casas. Esse tipo de coleta já vinha ocorrendo há meses nos Estados Unidos, na Alemanha, na Turquia e em outros países da Europa.

Recentemente, a startup passou a oferecer serviços de limpeza gratuitos em Nova York e em diversos países europeus, usando essa estratégia para levar seus coletores de dados às casas de outras pessoas. A empresa divulga o trabalho como uma renda extra para universitários e como "o melhor bico para trabalhar em casa".

"Sim, estamos coletando seus dados. Mas, pela primeira vez, você está sendo recompensado por isso e ninguém está mentindo para você", afirma Anton Poletaev, cofundador da MicroAGI e co-CEO da Shift.

Mas, mesmo com essa transparência, muitas pessoas talvez não compreendam exatamente o que significa abrir mão desses dados. O modelo da Shift também levanta questões sobre o futuro dos trabalhadores que, na prática, ajudam a treinar a tecnologia que poderá substituí-los.

POR QUE A IA PRECISA DE DIVERSIDADE DE DADOS

Com a expansão da inteligência artificial, líderes da indústria de tecnologia projetam um futuro repleto de robôs humanoides. Hoje já existem máquinas capazes de correr, dar cambalhotas, dançar e trabalhar em centros de distribuição.

Mas, para chegar ao ponto em que esses robôs consigam lavar a louça, consertar uma torneira ou preparar um jantar com perfeição, as empresas precisam de enormes volumes de dados para treinamento.

Para a Shift, esses dados precisam ser não apenas de alta qualidade, mas também variados: capturados sob diferentes ângulos e em residências com layouts distintos, diferentes tipos de cozinhas, pias, torneiras e assim por diante.

empresa oferece limpeza grátis em troca de coleta de dados das casas que recebem o serviço
Crédito: Shift

"Se você fosse treinado para realizar uma tarefa em apenas um ambiente, provavelmente teria dificuldades para executá-la em outros", explica Poletaev. "Quando é exposto a diferentes condições de iluminação, tipos de cozinha, salas de estar ou torneiras para consertar, você consegue generalizar esse conhecimento para diversos ambientes."

A Shift não está sozinha nesse mercado. Startups como Claru, Luel, Micro1, Kled AI e outras contratam pessoas para filmar atividades como dobrar roupas ou tirar o lixo, ou ainda para classificar esses conjuntos de dados.

a maioria não compreende o verdadeiro valor dessas informações nem as formas como poderão ser utilizadas.

A empresa afirma adotar medidas para proteger a privacidade dos clientes, desfocando nomes, rostos, telas, documentos de identidade e outras informações pessoais antes que as imagens sejam incorporadas aos conjuntos de treinamento.

Pelos termos de uso da plataforma, os clientes podem retirar seu consentimento e solicitar a exclusão das gravações até o momento em que elas forem desidentificadas e disponibilizadas para terceiros. Depois disso, a remoção passa a ser limitada.

Segundo a Shift, os dados são usados nas pesquisas internas de robótica da MicroAGI e também podem ser compartilhados com "empresas selecionadas de robótica e laboratórios de ponta em IA". A companhia afirma, porém, que esse material nunca é divulgado publicamente nem utilizado para publicidade.

OS RISCOS QUE APARECEM DEPOIS

Ao tornar explícita a troca informações por serviços, Poletaev acredita que as pessoas finalmente têm a oportunidade de ser remuneradas por dados que, nas últimas décadas, vinham sendo utilizados "sem qualquer consideração".

O problema, porém, é que a maioria das pessoas não compreende o verdadeiro valor dessas informações nem todas as formas como elas poderão ser utilizadas.

empresa oferece limpeza grátis em troca de coleta de dados das casas que recebem o serviço
Crédito: Shift

"As pessoas comuns não pensam nos impactos indiretos. Talvez eles nem fiquem evidentes por muitos anos e possam até ficar invisíveis", afirma Veena Dubal, professora de Direito da Universidade da Califórnia que pesquisa o que chama de "trabalho precário", incluindo trabalhadores de plataformas digitais e gestão algorítmica.

Mais uma vez, a Shift afirma que seus dados não são usados para publicidade. Mas outras empresas podem agir de maneira diferente ou apresentar políticas de privacidade pouco claras.

Leia mais: Como evitar que seus dados pessoais sejam usados para treinar IAs

A política de privacidade da Claru informa que a empresa pode coletar informações pessoais e compartilhá-las com diversos fornecedores terceirizados.

Já a Kled afirma que, caso outra organização adquira o conteúdo enviado pelo usuário, poderá divulgar informações biométricas, embora declare que não "vende, aluga, negocia nem obtém lucro de qualquer outra forma com essas informações biométricas".

PROBLEMAS NA COLETA DE DADOS

A normalização da captura de imagens em primeira pessoa dentro das residências também pode abrir caminho para que empresas comercializem esses dados com corretores de informações ou varejistas. No futuro, isso poderia resultar em preços personalizados para produtos que essas empresas sabem que você já tem em casa.

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Há ainda muitas outras implicações de permitir gravações dentro do ambiente doméstico. E se, por exemplo, o vídeo registrar alguma atividade ilegal, como drogas? Em algum momento, a polícia poderá solicitar judicialmente essas imagens a empresas como a Shift durante investigações criminais.

Empresas de tecnologia já coletam informações por meio de smartphones, notebooks, TVs inteligentes e outros dispositivos conectados à internet. Para Dubal, porém, o fato de essa coleta ocorrer dentro da casa das pessoas muda completamente o cenário.

Gravar o ambiente doméstico permite capturar informações que esses dispositivos normalmente não conseguem registrar: como as pessoas se movimentam, como vivem e o que fazem quando não estão usando um celular ou computador.

"Há algo de profundamente marcante na ideia de que até esse espaço passou a estar aberto ao mercado", diz.

O QUE ACONTECE COM OS TRABALHADORES DO FUTURO?

Essas preocupações dizem respeito aos dados coletados nas casas dos clientes. Mas a Shift também registra informações sobre os próprios profissionais da limpeza e sobre a forma como eles trabalham.

Esses dados poderão, no futuro, ajudar a substituir esses trabalhadores. Ou, como alerta Dubal, poderão servir para "criar softwares que passem a controlar os trabalhadores de novas maneiras", estabelecendo padrões de eficiência, concentrando funções e pressionando as pessoas a trabalhar cada vez mais, por menos remuneração.

Em nota enviada à Fast Company, Ai-jen Poo, presidente da Aliança Nacional dos Trabalhadores Domésticos dosEUA, ecoou essa preocupação. Segundo ela, o trabalho dos profissionais da limpeza deve ser "respeitado e protegido, e não tratado como simples matéria-prima para o produto tecnológico de outra empresa".

para o treinamento das IAs, as empresas precisam de enormes volumes de informações e dados diversificados.

Vale lembrar que as promessas de democratização feitas pela indústria de tecnologia apresentam um histórico ambíguo.

O Uber prometeu ampliar o acesso ao transporte, mas também substituiu taxistas, gerou dados hoje utilizados para treinar sistemas de direção autônoma e, depois do período inicial subsidiado por capital de risco, aumentou seus preços.

Será que os robôs domésticos serão realmente acessíveis e baratos para todos? Ainda não há resposta para essa pergunta. Para Dubal, porém, essa nem deveria ser a principal meta. "Não é que todos precisemos de empregados domésticos. É que todos nós precisamos de empregos que paguem bem."

Poletaev enxerga a situação de outra forma. Segundo ele, a demanda pelos dados coletados pela Shift "nasce do desejo de construir um mundo em que bens e serviços do dia a dia sejam abundantes e acessíveis". Até lá, afirma, sua empresa pretende "garantir que as pessoas sejam remuneradas durante toda essa transição".

Leia mais: Lava, cozinha e arruma a casa: China lança robô doméstico com IA

A proposta, portanto, é simples: as pessoas recebem por seus dados agora, enquanto ajudam a construir um futuro que talvez precise cada vez menos do seu trabalho.


SOBRE A AUTORA

Kristin Toussaint é editora assistente da editoria de Impacto da Fast Company. saiba mais